Agosto de 1998  

Ao encontro de Deus

Será Que Deus Existe?
de Richard Swinburne
Tradução de Desidério Murcho, Ana Cristina Domingues e Miguel Fonseca
Revisão científica de Maria Leonor Xavier
Gradiva, Julho de 1998, 163 pp.

Esta obra é uma eloquente demonstração da vitalidade e amplitude da filosofia analítica contemporânea. O rigor argumentativo e lógico não são sinónimos de uma atitude redutora, insensível à dimensão religiosa do ser humano; são, antes, sinais da seriedade intelectual que marcou, desde Sócrates, a genuína atitude filosófica. A questão da existência de Deus pode e deve ser avaliada criticamente pelo filósofo, em vez de ser pressuposta como um facto evidente ou reduzida a uma mera atitude emocional. É essa avaliação crítica que Richard Swinburne nos oferece nesta obra.

Apesar de a reflexão filosófica sobre a existência de Deus ser tão antiga quanto a própria filosofia, os avanços recentes da ciência levantam novos desafios a esta área tradicional da reflexão filosófica. O filósofo não pode já evitar perguntar se ainda estamos autorizados a pensar que Deus existe face aos resultados científicos mais recentes, como as doutrinas que explicam a origem do universo, da vida e dos seres humanos. Numa linguagem clara e acessível, Richard Swinburne, um dos mais proeminentes filósofos contemporâneos da religião, defende que a existência de Deus é uma conclusão que resulta do mesmíssimo tipo de raciocínios e métodos usados nas ciências.

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“Será Que Deus Existe?” é do máximo interesse de todos os que se preocupam com as questões religiosas, como teólogos e filósofos da religião, mas também do público em geral. A linguagem clara e acessível faz desta obra uma excelente introdução à filosofia da religião, imprescindível para estudantes e professores de filosofia.

Sobre o autor

Richard Swinburne é professor de Filosofia da Religião Cristã na Universidade de Oxford e um dos mais prestigiados especialistas daquela área. Da sua obra destaca-se “The Existence of God” (1979), “Faith and Reason” (1984), “Responsibility and Atonement” (1989), “Revelation: From Metaphor to Analogy” (1991), “The Coherence of Theism” (1993), “The Christian God” (1994) e “The Evolution of the Soul” (1997).

Excerto

Nos últimos vinte ou trinta anos, assistiu-se, na comunidade filosófica britânica e norte-americana, ao renascer do debate sério acerca da existência de Deus — debate que tem sido conduzido com um alto nível de rigor intelectual. Reconheceu-se que a matéria é não só da maior importância, mas também de grande interesse intelectual. Os pensadores cristãos têm tido destaque neste debate, que tem conduzido a um crescimento considerável do número de estudantes de filosofia a assistir a cursos sobre filosofia da religião. No entanto, quase nada disto chegou ao grande público, que tem sido levado a pensar pelos jornalistas e apresentadores de rádio e televisão que a existência de Deus é, intelectualmente, uma causa perdida e que a fé religiosa é uma matéria inteiramente não racional.

O pensamento público acerca destas questões foi influenciado por diversos livros da autoria de cientistas de renome, entre eles O Relojoeiro Cego de Richard Dawkins (1986), e Uma Breve História do Tempo de Stephen Hawking (1988). As teorias científicas defendidas nestes livros suscitam-me relativamente poucos motivos de discussão — resta-me admirar a profundidade da intuição física de Hawking e a clareza de exposição de Dawkins. Mas estes livros contêm a sugestão de que as suas teorias científicas mostram que não existe um Deus que de algum modo seja o garante do mundo. Estes autores não estão, no entanto, familiarizados com o debate filosófico e desconhecem frequentemente até que ponto as suas perspectivas acerca de Deus estão sujeitas a crítica. O meu objectivo ao escrever este livro é ajudar a remediar esta situação, apresentando a um público mais vasto uma versão abreviada dos argumentos a favor da existência de Deus apresentados no meu livro anterior, The Existence of God (1979).

A estrutura básica do meu argumento é esta: os cientistas, historiadores e detectives observam dados e avançam a partir deles em direcção a uma certa teoria acerca do que melhor explica a sua ocorrência. Podemos analisar os critérios que usam ao chegar à conclusão de que uma certa teoria acomoda melhor os dados do que outra — isto é, que tem mais probabilidades, com base nesses dados, de ser verdadeira. Usando esses mesmos critérios, descobrimos que a perspectiva de que Deus existe explica tudo aquilo que observamos e não apenas um conjunto limitado de dados. Explica o próprio facto de haver universo, de as leis científicas actuarem nele, de ele conter animais conscientes e seres humanos com corpos intrincadamente organizados e muito complexos, de termos oportunidades em abundância para promover o desenvolvimento, nosso e do mundo, bem como factos mais específicos, como o de os seres humanos relatarem a ocorrência de milagres e terem experiências religiosas. Na medida em que as causas e as leis científicas explicam algumas destas coisas (e, em parte, explicam), estas mesmas causas e leis carecem de explicação; a acção de Deus explica-as. Os mesmíssimos critérios que os cientistas usam para chegar às suas próprias teorias levam-nos a avançar para além dessas teorias, em direcção a um Deus criador, que garante a existência de tudo.

Índice

Agradecimentos
Introdução
1. Deus
2. Como Explicamos as Coisas
    Dois tipos de explicação
    A justificação da explicação
3. A Simplicidade de Deus
    Explicação última
    A simplicidade do teísmo
4. Como a Existência de Deus Explica o Munco e a sua Ordem
    O universo e as suas leis naturais
    Os corpos humanos e os corpos dos animais
5. Como a Existência de Deus Explica a Existência dos Seres Humanos
    Almas humanas
    Nenhuma explicação científica
    Explicação teísta
6. Por que Razão Deus Permite o Mal
    Mal moral
    Mal natural
7. Como a Existência de Deus Explica os Milagres e a Experiência Religiosa
    Milagres
    Revelação
    A revelação cristã
    Experiência religiosa
Epílogo: e depois?
Índíce analítico