Será Que Deus Existe?, de Richard Swinburne
Dezembro de 1998 ⋅ Filosofia Aberta

Um debate esclarecedor

Pedro Galvão
Será Que Deus Existe?, de Richard Swinburne
Tradução de Desidério Murcho, Ana Cristina Domingues e Miguel Fonseca
Revisão científica de Maria Leonor Xavier
Gradiva, Julho de 1998, 163 pp.
Comprar

Mesmo que um debate seja inconclusivo, pode ter a grande virtude de ser esclarecedor. O debate sobre a existência de Deus talvez esteja condenado a permanecer sem conclusão, mas quando é bem conduzido torna-se esclarecedor em muitos aspectos. Isto não é surpreendente. A questão da existência de Deus leva-nos a examinar as diversas tentativas de explicar a ordem do mundo natural, compreender o lugar da mente humana no universo, encontrar razões para a existência do mal. Em "Será que Deus Existe?", o filósofo da religião Richard Swinburne considera todos estes temas. O seu objectivo é mostrar que há boas razões para acreditar que Deus existe.

Swinburne tem uma obra influente na filosofia da religião. Com "Será que Deus Existe?" procura apresentar a sua defesa do teísmo a um público vasto. Neste livro, Swinburne está longe de ser indiferente à história da filosofia, mas exclui a discussão de alguns argumentos teístas conhecidos. O argumento ontológico não recebe qualquer atenção. O mesmo sucede com o argumento de Pascal, que tentou fazer da crença em Deus a aposta inteligente de um jogador interesseiro. Swinburne não está interessado em argumentos puramente a priori nem em considerações pragmáticas. Segue uma abordagem mais empírica e naturalista, associada ao argumento do desígnio. "Os mesmíssimos critérios que os cientistas usam para chegar às suas próprias teorias", declara, "levam-nos a avançar para além dessas teorias, em direcção a um deus criador, que garante a existência de tudo."

Nos dois primeiros capítulos, Swinburne prepara terreno para apresentar os argumentos principais. Começa por discutir o que significa a afirmação de que Deus existe, examinando as propriedades que o teísta toma como propriedades essenciais de Deus. Defende, por exemplo, que o facto de Deus ser perfeitamente bom resulta do facto de ser perfeitamente livre e omnisciente. Defende também que Deus, embora seja omnisciente, não pode prever o resultado das acções humanas genuinamente livres. De seguida, Swinburne analisa a noção de explicação e propõe vários critérios para justificar e comparar explicações. Para mostrar como funcionam esses critérios e esclarecer a sua importância, recorre à história da ciência, usando como exemplos as teorias de Kepler e Newton.

Swinburne atribui uma importância especial ao critério da simplicidade que implica que, entre várias explicações que dão conta dos mesmos dados, devemos escolher a mais simples. Assim, devemos preferir explicações que não postulam entidades desnecessariamente, e, enquanto explicação última, o teísmo é a "hipótese mais simples que poderia existir", pois uma explicação simples postula poucas causas, e "não poderia existir uma explicação mais simples do que uma que postulasse uma única causa." Ao defender a simplicidade do teísmo, Swinburne contrasta-o com o materialismo e tenta mostrar que a concepção cristã de Deus é preferível a outras concepções alternativas. Mas, para além da sua simplicidade, o teísmo tem o mérito de nos levar "a esperar os factos que encontramos realmente æ factos que, de outro modo, não seria de esperar." Um desses factos é a ordem do mundo natural. Swinburne defende que a intuição básica do argumento do desígnio está correcta, concluindo que o próprio "êxito da ciência, ao mostrar-nos o carácter profundamente ordenado do mundo natural, constitui uma forte razão para acreditar que há uma causa ainda mais profunda para essa ordem." O teísmo permite ainda explicar a existência de seres humanos. Sobre este tema, Swinburne começa por sustentar, utlizando experiências mentais, que a mente é uma substância diferente do cérebro, e conclui que a acção de Deus é a melhor explicação última para a ligação entre corpo e alma. Quanto ao problema de saber por que razão Deus permite o mal, desenvolve a defesa do livre-arbítrio, afirmando que tanto o mal moral como o mal natural resultam do bem que consiste em possuir a capacidade de fazer escolhas livres e responsáveis.

"Será que Deus Existe?" é uma defesa interessante e inteligente do teísmo. A sua tese principal, a de que o teísmo é a melhor explicação para os dados disponíveis, mantém-se controversa, mas o livro deixa bem claro que a crença em Deus não tem de ser uma simples questão de fé.

Pedro Galvão

Texto publicado no jornal Público (21 de Novembro de 1998).
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte