Será Que Deus Existe?, de Richard Swinburne
Agosto de 1998 ⋅ Filosofia da religião

Um argumento a favor da existência Deus

Richard Swinburne
Universidade de Oxford
Nos últimos vinte ou trinta anos, assistiu-se, na comunidade filosófica britânica e norte-americana, ao renascer do debate sério acerca da existência de Deus — debate que tem sido conduzido com um alto nível de rigor intelectual. Reconheceu-se que a matéria é não só da maior importância, mas também de grande interesse intelectual. Os pensadores cristãos têm tido destaque neste debate, que tem conduzido a um crescimento considerável do número de estudantes de filosofia a assistir a cursos sobre filosofia da religião. No entanto, quase nada disto chegou ao grande público, que tem sido levado a pensar pelos jornalistas e apresentadores de rádio e televisão que a existência de Deus é, intelectualmente, uma causa perdida e que a fé religiosa é uma matéria inteiramente não racional.

O pensamento público acerca destas questões foi influenciado por diversos livros da autoria de cientistas de renome, entre eles O Relojoeiro Cego de Richard Dawkins (1986), e Uma Breve História do Tempo de Stephen Hawking (1988). As teorias científicas defendidas nestes livros suscitam-me relativamente poucos motivos de discussão — resta-me admirar a profundidade da intuição física de Hawking e a clareza de exposição de Dawkins. Mas estes livros contêm a sugestão de que as suas teorias científicas mostram que não existe um Deus que de algum modo seja o garante do mundo. Estes autores não estão, no entanto, familiarizados com o debate filosófico e desconhecem frequentemente até que ponto as suas perspectivas acerca de Deus estão sujeitas a crítica. O meu objectivo ao escrever este livro é ajudar a remediar esta situação, apresentando a um público mais vasto uma versão abreviada dos argumentos a favor da existência de Deus apresentados no meu livro anterior, The Existence of God (1979).

A estrutura básica do meu argumento é esta: os cientistas, historiadores e detectives observam dados e avançam a partir deles em direcção a uma certa teoria acerca do que melhor explica a sua ocorrência. Podemos analisar os critérios que usam ao chegar à conclusão de que uma certa teoria acomoda melhor os dados do que outra — isto é, que tem mais probabilidades, com base nesses dados, de ser verdadeira. Usando esses mesmos critérios, descobrimos que a perspectiva de que Deus existe explica tudo aquilo que observamos e não apenas um conjunto limitado de dados. Explica o próprio facto de haver universo, de as leis científicas actuarem nele, de ele conter animais conscientes e seres humanos com corpos intricadamente organizados e muito complexos, de termos oportunidades em abundância para promover o desenvolvimento, nosso e do mundo, bem como factos mais específicos, como o de os seres humanos relatarem a ocorrência de milagres e terem experiências religiosas. Na medida em que as causas e as leis científicas explicam algumas destas coisas (e, em parte, explicam), estas mesmas causas e leis carecem de explicação; a acção de Deus explica-as. Os mesmíssimos critérios que os cientistas usam para chegar às suas próprias teorias levam-nos a avançar para além dessas teorias, em direcção a um Deus criador, que garante a existência de tudo.

Richard Swinburne

Texto retirado de Será Que Deus Existe?, de Richard Swinburne (Lisboa: Gradiva, 1998).
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte