A Última Palavra, de Thomas Nagel
Março de 1999 ⋅ Ética

A objectividade da ética

Thomas Nagel
Universidade de Nova Iorque

Ao invés do raciocínio lógico ou aritmético, o raciocínio moral é muitas vezes incapaz de produzir certeza, justificada ou injustificada. Está facilmente sujeito a distorções provocadas quer por factores sociais e pessoais moralmente irrelevantes, quer pelo erro aberto. Assemelha-se à razão empírica por não ser susceptível de ser reduzido a uma série de passos auto-evidentes.

Admito sem questionar que a objectividade do raciocínio moral não exige que ele tenha uma referência externa. Não há análogo moral do mundo exterior — um universo de factos morais que nos afecte causalmente. Ainda que tal suposição fizesse sentido não apoiaria a objectividade do raciocínio moral. A ciência, que este tipo de realismo reificador toma como modelo, não deriva a sua validade objectiva do facto de partir da percepção e de outras relações causais entre nós e o mundo físico. O verdadeiro trabalho vem depois disso, sob a forma de raciocínio científico activo, sem o qual nenhuma quantidade de impacto causal sobre nós com origem no mundo exterior geraria uma crença nas teorias de Newton ou de Einstein, nem na biologia molecular.

Se nos satisfizéssemos com o impacto causal do mundo exterior sobre nós, estaríamos ainda ao nível da percepção sensorial. Se podemos achar que as nossas crenças científicas são objectivamente verdadeiras, não é porque o mundo exterior cause a existência delas em nós, mas porque podemos chegar a essas crenças por meio de métodos que são plausivelmente fidedignos, em virtude do seu sucesso na selecção da melhor de entre várias hipóteses rivais que sobrevivem às melhores críticas e questões com que as podemos confrontar. A confirmação empírica desempenha um papel vital neste processo, mas não pode fazê-lo sem teoria.

O pensamento moral não diz respeito à descrição e explicação do que acontece, mas a decisões e à sua justificação. É sobretudo porque não temos métodos para pensar sobre a moralidade que sejam por comparação incontroversos e bem estruturados que uma posição subjectivista é aqui mais credível do que em relação à ciência. Mas tal como não havia garantia, nos princípios da especulação cosmológica e científica, de que nós, seres humanos, tínhamos a capacidade para chegar à verdade objectiva para além do que a percepção sensorial nos fornecia — não havia garantia de que essa demanda era mais do que o tecer de fantasias colectivas —, também não pode haver uma decisão prévia quanto à questão de saber se estamos ou não a falar de um assunto real quando reflectimos e discutimos sobre a moralidade. A resposta tem de vir dos próprios resultados. Só o esforço de raciocinar sobre a moralidade nos pode mostrar se isso é possível — só esse esforço nos pode mostrar se, ao pensar sobre o que fazer e como viver, poderemos encontrar métodos, razões e princípios cuja validade não tenha de ser subjectiva ou relativisticamente restringida.

Uma vez que o raciocínio moral é uma das espécies de raciocínio prático, as suas conclusões são desejos, intenções e acções, ou sentimentos e convicções que podem motivar o desejo, a intenção e a acção. Queremos saber como viver e porquê, e queremos que a resposta seja formulada, se possível, em termos gerais. Hume tinha a crença famosa de que, porque subjacente a todos os motivos tem de estar uma “paixão” imune à avaliação racional, a razão especificamente prática é coisa que não pode existir, tal como a razão especificamente moral. Isto é falso porque apesar de as “paixões” serem a fonte de algumas razões, há outras paixões e desejos que são, elas próprias, motivadas e/ou justificadas por razões que não estão na dependência de desejos ainda mais básicos. E eu sustentaria que ou a questão de saber se devemos ter um certo desejo ou a questão de saber se devemos, dado que temos tal desejo, regular a nossa acção por ele, está sempre aberta à consideração racional.

A questão é a de saber se os processos de justificação e crítica que usamos no raciocínio moral ou meramente prático pode ser definitivamente encarado apenas como algo que fazemos — uma prática cultural ou societal, ou até mesmo, em termos mais gerais, uma prática colectiva humana, no interior da qual as razões chegam ao fim. Acredito que se nos perguntarmos seriamente como reagir às propostas de contextualização e distanciamento relativista, essas propostas não conseguirão convencer. Apesar de ser menos claro do que em algumas das outras áreas que discutimos, as tentativas para sair completamente para o exterior da linguagem objecto das razões práticas, do bom e do mau, do bem e do mal, e para encarar todos esses juízos como expressões de uma perspectiva contingente e não objectiva, acabarão por se desmoronar perante a força independente dos próprios juízos de primeira ordem.

Thomas Nagel

Texto retirado de A Última Palavra, de Thomas Nagel (Lisboa: Gradiva, 1999).
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