Nature Blur, de linkado
10 de Outubro de 2011 ⋅ Opinião

A importância dos factos

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Alguns dos mais importantes desenvolvimentos na história cognitiva da humanidade devem-se à insistência no rigor e precisão no estabelecimento de factos. Eis dois desses casos. Heródoto rejeitou as historietas do seu tempo, que cantavam hinos sobre o passado heróico dos gregos, e procurou saber ao invés o que realmente tinha acontecido, por oposição ao que os gregos gostariam que tivesse acontecido. Ao fazê-lo, deu uma contribuição crucial para o desenvolvimento da história científica. Galileu rejeitou as crenças empíricas das pessoas do seu tempo que afirmavam com toda a certeza que os objectos caem mais depressa quanto mais pesados são — pois não é isso óbvio para todos nós, que observamos diariamente objectos a cair? Mas Galileu quis testar e medir com cuidado a queda dos objectos; e a surpresa é que afinal o que era tão óbvio é falso. Este cuidado experimental foi uma contribuição crucial para o desenvolvimento das ciências da natureza do seu tempo — e do nosso. (As experiências com o plano inclinado eram já conhecidas dos medievais, mas infelizmente só com Galileu se tornaram influentes.)

Seria de esperar que a ideia de que os factos são importantes ocupasse um lugar de destaque nas universidades — e seria desejável que o ocupasse também entre os jornalistas e os políticos, mas isso seria sonhar alto. Contudo, não é isso que acontece. Aceitar supostos factos sem indícios empíricos suficientes está infelizmente longe de ser uma prática rara. Professores e estudantes têm opiniões tão fortes quanto sem fundamento empírico sobre, por exemplo, a qualidade das revistas académicas ou das universidades ou dos departamentos destas. Nestas conversas, sou geralmente o único que não sei coisa alguma, mesmo sem querer dar-me ares de Sócrates — que, a propósito, é também objecto de imensas crenças sem fundamento sobre o que pensava e o que fazia, pela simples razão de que quase não temos fontes fidedignas sobre a sua vida e pensamento.

Uma dada revista de filosofia é melhor do que outra? Não sei bem. Como se estabelece tal coisa? Que há casos claros é óbvio: revistas que claramente não se comparam, pela sofisticação e interesse dos seus artigos, a outras revistas. Mas os casos de fronteira são tantos que é difícil ter uma opinião minimamente fundamentada. O mesmo ocorre quando se avalia departamentos ou, mais difícil ainda, universidades. Curiosamente, muitas pessoas parecem pensar que do facto de uma universidade ser melhor do que outra (admitindo que se pode saber realmente tal coisa) se segue que todo o departamento da primeira é melhor do que qualquer departamento da segunda. Mas isto é falso, e é-o em grande parte porque não há praticamente influência interdepartamental: um excelente departamento de física de uma dada universidade em nada irá influenciar o departamento de filosofia dessa mesma universidade, por exemplo, que pode ser desprovido de qualidade.

No que respeita às revistas acontece algo semelhante: muitos dos artigos de filosofia que foram mais influentes ao longo do séc. XX foram publicados em revistas que hoje consideramos, por essa razão, de excelência. Mas muitos outros foram publicados em revistas que não têm o prestígio das outras. Há critérios fidedignos para medir a qualidade relativa das revistas? Tenho muitas dúvidas, apesar de reconhecer que alguns critérios são melhores do que outros. Vejamos dois critérios razoáveis, para se ver os seus limites e se tirar daí uma lição importante.

Um dos critérios mais óbvios é quantificacional: o rácio entre os artigos submetidos e os artigos publicados. Quanto menor for a percentagem de artigos publicados face aos submetidos, melhor tende a ser a revista. Isto é razoável, mas está longe de ser um critério que seja razoável aceitar cegamente. Isto porque não há uma garantia de que a pequena percentagem dos artigos publicados seja efectivamente melhor do que a dos rejeitados, pois tal facto depende crucialmente das decisões dos directores e consultores da revista: se estes não fizerem bem o seu trabalho, irão preterir um artigo que é melhor do que outro, precisamente porque o pior está mais próximo do seu universo mental e bibliográfico. Para que os directores e consultores de uma revista façam bem o seu trabalho é preciso que estejam reunidas pelo menos três condições cruciais: amplo conhecimento da bibliografia da área em causa, inteligência viva e probidade epistémica.

Começando pela terceira condição, trata-se de ter a vontade genuína de fazer um bom trabalho, no sentido de dar uma contribuição para que algo de qualidade seja publicado. Isto exclui o desejo de impedir a publicação do que não se gosta ideologicamente, ou de estimular a publicação do que se gosta ideologicamente. A probidade epistémica nota-se quando alguém publica algo que defende ideias opostas às suas.

A segunda condição é crucial porque é desejável que uma revista académica publique ideias novas, pelo que o critério elementar de transcrever mais ou menos bem as ideias já presentes na bibliografia não é um critério particularmente sagaz. Ajuizar a qualidade de um artigo inovador exige ao avaliador a inteligência para avaliar directamente as ideias do artigo, em vez de tentar apenas ver se transcreve diligentemente as ideias já presentes noutros artigos e livros; ao contrário do que muitas pessoas pensam, investigar ou pesquisar não é fazer relatórios do que os outros já investigaram ou pesquisaram.

Finalmente, a primeira condição é crucial porque se o avaliador não conhece a bibliografia da área não poderá saber que relação tem o artigo em causa com a bibliografia relevante: não saberá se o artigo ignora ideias e argumentos relevantes, ou se é inovador e importante, ou se revela incompreensões elementares.

A ilusão é pensar que, mesmo reunidas estas três condições, e mesmo que uma revista publique apenas uma pequeníssima percentagem dos artigos publicados, isso irá garantir a qualidade dos artigos publicados e consequentemente da revista. Isso não acontece não apenas pela razão óbvia de que errar é humano, mas pela razão que mais me interessa aqui: a institucionalização robótica da vida académica contemporânea. O que quero dizer com esta expressão exótica é um certo formalismo dos procedimentos, comum sobretudo nas zonas mais anémicas da vida académica, que leva as pessoas a dar uma importância desmedida a aspectos formais de um artigo académico, mas não à sua substância. As coisas tornam-se tão risíveis que se Descartes tentasse publicar a primeira das suas Meditações, ou o Discurso do Método, seria rejeitado em muitas revistas académicas contemporâneas — porque lhe falta a notazinha erudita, a bibliografia de arrasar e até a terminologia assassina dos académicos, caracterizada por construções agramaticais e uma gíria concebida para dar um ar de profundidade à pura paráfrase vácua de ideias alheias.

Considere-se outro modo de medir a qualidade de uma revista académica: o factor de impacto. Podemos quantificar sobre a quantidade de artigos de uma revista que são citados noutras revistas. À partida, isto é um excelente critério de qualidade, pois, tudo o resto sendo igual, os artigos mais citados são supostamente mais importantes, sendo por isso mesmo que são citados. Só que não há bela sem senão. Se os académicos desatarem a citar-se entre si à toa só para que as revistas onde publicam ganhem pontos, ficamos pior do que se não tentássemos avaliar as revistas, desse modo ou de outro modo qualquer.

Em suma, penso que não haja métodos que estejam para lá da tolice humana, e penso que quanto mais institucionalizarmos os métodos mais temos tendência para perder de vista a substância e dar importância à forma, absolutizando juízos que não deveríamos aceitar cegamente. Claro que a institucionalização robótica da vida académica é mais ou menos inevitável porque inventámos esta mania de que o estado deve deitar rios de dinheiro para cima das universidades — e depois, claro, o estado quer critérios simplistas de qualidade, e ninguém se preocupa muito se tais critérios fazem jus à qualidade ou se apenas parecem fazê-lo. Deste modo, o problema agrava-se porque tudo o que conta é a fantasia de uma avaliação com força estatal, sem se dar importância ao facto desagradável de que toda a avaliação institucionalizada e robótica pode ser desvirtuada de muitas maneiras diferentes.

Para os fins deste artigo, uma consequência crucial da institucionalização robótica da vida académica é dar a aparência de facto consumado ao que é pura fantasia burocrática. Precisamente porque as pessoas valorizam instintivamente os factos, ao mesmo tempo que têm falta de discernimento para ver que muitas vezes os factos relevantes nos são inacessíveis, ou de difícil acesso, aceitam sem pestanejar como um facto que dada universidade ou revista ou departamento é melhor do que outra, com base em avaliações artificiosas e que estão longe de ter o mínimo de sensatez. E neste caso é pior ainda do que quando se baseiam em puro boato e impressão vaga e arbitrária, pois no último caso é fácil chamar a atenção para a palermice que se está a fazer, ao passo que no primeiro parece que o nosso juízo se baseia em factos sólidos e inexpugnáveis, quando na realidade se baseia em critérios que, por mais generosos e bem pensados, podem ser corrompidos e distorcidos, e são-no frequentemente.

Quando os factos são de difícil acesso é muito pior aceitar acriticamente pseudofactos do que exibir explicitamente um desprezo solene pela tirania dos factos; a última atitude tem pelo menos a vantagem de ser transparentemente palerma. Mas não se pense que por ser transparentemente palerma está menos ausente da vida pública.

Quando temos crenças empíricas, precisamos de ter cuidado com os factos. O que tomamos como factos óbvios são realmente factos? Ou baseamos a nossa convicção de que o são com base na nossa observação assistemática ou, pior, no que nos diz quem nada fez para conhecer com rigor os factos de que fala? O rigor na determinação dos factos deveria ser óbvio para qualquer pessoa com uma formação intelectual razoável; infelizmente, não o é.

Para piorar as coisas, mesmo quando nos baseamos em factos genuínos, cuidadosamente estabelecidos com rigor e precisão, podemos cometer erros. Isto porque os factos raramente falam por si: precisamos de raciocinar com base neles, e ao fazê-lo temos tendência para cometer falácias factualistas, de que falarei noutra ocasião. Mas já seria um bom passo na direcção correcta se cultivássemos, nas escolas, universidades e na vida humana em geral, sobretudo na vida pública, um apreço acrescido pelos factos e consequentemente pelo rigor e precisão na determinação dos factos — mesmo que isso nos obrigue a dizer mais vezes “não sei” quando nos perguntam qual de duas revistas ou universidades é melhor.

Desidério Murcho
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