1 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Fatos ortográficos

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

O acordo ortográfico que alguns linguistas nos querem impor à força começa com esta contradição delirante: 1) vamos reformar a ortografia para dar um passo na direcção da unificação ortográfica e 2) vamos seguir o princípio fonético nessa reforma. 1 é incompatível com 2 pela simples razão que as maiores diferenças entre o português de Portugal e o dos outros países é precisamente a fonética. Daí que o acordo tenha o resultado de desunificar quando pretendia o oposto: hoje escrevemos todos, no Brasil, Portugal e nos outros países, "aspecto". Mas com o acordo os brasileiros continuam a escrever do mesmo modo, porque ao falar pronunciam o "c"; mas nós deixaremos de escrever o "c" porque não o pronunciamos.

Uma pessoa ingénua poderá pensar que um acordo ortográfico que parte destes dois princípios contraditórios só pode ter sido arquitectado por palermas, e poderá ter razão. Mas não tem toda a razão. Outra explicação plausível é que os linguistas que fizeram este acordo o fizeram por razões diferentes das que usam para o vender aos políticos. Aos políticos, falam da unificação da língua e acenam com a maravilha do Quinto Império Linguístico. Como os políticos não resistem a uma saudade salazarista de conquistas futuras e grandiosidades sonhadas, ficam logo emocionados. Mas a razão mais forte que move os linguistas é a pura vontade teórica de mudar a maneira como as pessoas escrevem, para aplicar teorias linguísticas supostamente de esquerda, simplificadoras da ortografia, que encara coisas como as consoantes mudas uma relíquia conservadora do tempo em que só 1 % da população sabia escrever.

O pior aspecto do acordo é esconder o isolacionismo dos académicos e lexicógrafos que trabalham na área. Eis dois exemplos: no novo dicionário da Porto Editora, redigido segundo o acordo ortográfico, a palavra "fato" não quer dizer "acontecimento" nem "facto". No Brasil esta palavra quer dizer precisamente isso, mas o lexicógrafo luso encara isso como irrelevante, e tal significado não consta do dicionário. Um pouco como vingança antecipada, a versão brasileira do dicionário Houaiss regista "facto" como um "regionalismo português". Classificar uma variante nacional como regionalismo é uma palermice que emana da mesma incapacidade para ver a língua portuguesa como uma só, dotada de variantes, algumas das quais são nacionais.

E assim chegamos ao que há de verdadeiramente irónico no acordo. Qualquer legislação ortográfica acaba por ser danosa para o projecto de nos aproximar linguisticamente, pois põe a ênfase onde menos importa: na ortografia. Ao mesmo tempo, dá a falsa sensação de que se está a fazer algo para uma maior aproximação linguística entre todos os povos que falam português, quando na realidade se está a fazer precisamente o inverso. Pois o que mais importa para haver aproximação linguística é acontecer como nos dicionários de língua inglesa: abro um, e os significados estão lá todos, sejam ingleses ou não.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (17 de Junho de 2008)
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte