Dimanche apres-midi, au parc, de Marie Versailles
21 de Abril de 2009 ⋅ Opinião

Fausse gauche

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

A fausse gauche é uma certa pseudo-esquerda de intelectuais que nada fazem nem pensam que seja identificável com a esquerda tradicional. Tradicionalmente, a esquerda caracteriza-se por defender a justiça social — mas este conceito só faz sentido se aceitarmos um conceito de justiça que não seja relativo aos interesses de cada qual. A fausse gauche, ao invés, defende que todas as ideias e ideais daquilo a que chamam "sociedade capitalista" são o mero reflexo ideológico das relações de poder, que por sua vez reflectem as relações económicas. Isto implica o abandono dos ideais tradicionais da esquerda e do iluminismo, nomeadamente a ideia de justiça. Esta passa a ser vista como uma artimanha para tentar ganhar poder, e não um ideal racional honesto, que procura o melhor para todos. A própria racionalidade, a ciência, a objectividade, a verdade, são vistas como artimanhas dos capitalistas para explorar o proletariado. E, claro, a conclusão óbvia a tirar deste confuso novelo de ideias é que as próprias ideias marxistas não são ideais de justiça, mas mera luta pelo poder, de uma classe contra outra. É assim que a fausse gauche se identifica com o célebre Trasímaco, da República, de Platão, ao passo que a esquerda tradicional sempre defendeu que é realmente injusto que as mulheres não possam votar ou que os negros sejam discriminados ou que os pobres não tenham acesso ao ensino de qualidade. Claro que muitas pessoas se sentem atraídas pelos ideais marxistas por um sentimento de injustiça, mas se esse sentimento for saudável e se conhecerem o pensamento da fausse gauche rapidamente ficarão horrorizadas.

Muitos pensadores ditos libertários e de esquerda na verdade não podem ser uma coisa nem outra porque têm uma concepção mais hobbesiana da sociedade do que o próprio Hobbes. Ao conceber a justiça, a racionalidade, a verdade, a argumentação e a lógica como meras expressões de classe e instrumentos de poder, estes pensadores defendem inadvertidamente exactamente o mesmo que defendiam os pensadores nazis e fascistas: que tudo é uma questão de força e, claro, eu faço força a meu favor e a favor do meu grupo.

Ser de esquerda, da esquerda genuína, é defender que a injustiça não é uma questão de perspectiva, e só é possível defender isso quando não se pensa que a racionalidade é uma prostituta. Ser de direita é defender os interesses dos endinheirados, apenas por sermos nós os felizardos, e recusar a discussão aberta a todos, insistindo antes no valor da tradição e da autoridade, mas apenas porque estas estão do nosso lado e não do lado dos outros. É perfeitamente possível ser de direita e concordar com a fausse gauche que a racionalidade e a justiça são sempre dispositivos meramente retóricos para defender os nossos interesses. Mas não é possível ser de direita e concordar com os ideais da esquerda genuína: que a racionalidade não é mera expressão de interesses e que é irracional proteger os interesses dos endinheirados contra os interesses dos despojados.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (21 de Abril de 2009)
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