Free Will
2 de Dezembro de 2004 ⋅ Metafísica

Dois problemas da liberdade

Thomas Nagel
Universidade de Nova Iorque

Algo de peculiar acontece quando olhamos a acção de um ponto de vista objectivo ou exterior. Alguns dos seus aspectos mais importantes parecem desaparecer sob o olhar objectivo. As acções parecem já não ter como fontes agentes individuais, mas tornar-se, em vez disso, componentes do fluxo de acontecimentos no mundo do qual o agente é parte. A maneira mais fácil de produzir este efeito é pensar na possibilidade de todas as acções serem causalmente determinadas, mas essa não é a única maneira. A fonte essencial do problema é uma concepção das pessoas e das suas acções como parte da ordem da natureza, causalmente determinada ou não. Esta concepção, se insistirmos, conduz ao sentimento de que não somos de maneira alguma agentes, de que estamos desamparados e não somos responsáveis pelo que fazemos. A visão interior do agente rebela-se contra este juízo. A questão é saber se ela pode manter-se contra os efeitos debilitantes de uma visão naturalista.

Na realidade, o ponto de vista objectivo origina três problemas acerca da acção. Desses, ocupar-me-ei apenas de dois. Ambos têm a ver com a liberdade. O primeiro problema, que me limitarei a descrever e deixar de lado, é o problema metafísico geral da natureza do agir. Esse pertence à filosofia da mente.

A questão "O que é a acção?" é muito mais vasta do que a questão do livre-arbítrio, porque se aplica até à actividade das aranhas e aos movimentos periféricos, inconscientes ou não intencionais dos seres humanos no decurso de actividade mais deliberada. Aplica-se a qualquer movimento não involuntário. A questão liga-se ao nosso tema porque a minha realização de um acto — ou a realização de um acto por qualquer pessoa — parece desaparecer quando pensamos no mundo objectivamente. Parece não haver lugar para o agir num mundo de impulsos neurais, reacções químicas e movimento de ossos e músculos. Mesmo se adicionarmos sensações, percepções e sentimentos não obteremos acção, ou realização — há apenas o que acontece.

Na linha do que foi anteriormente dito acerca da filosofia da mente, penso que a única solução é olhar a acção como uma categoria mental básica ou, mais exactamente, psicofísica — nem redutível ao físico, nem a outros termos mentais. Não consigo melhorar a defesa exaustiva que Brian O'Shaughnessy faz desta posição. A acção tem o seu próprio aspecto interno irredutível, tal como outros fenómenos psicológicos — há uma assimetria mental característica entre a consciência das nossas próprias acções e a consciência das acções de outros —, mas a acção não é nada mais do que isso, isoladamente ou em combinação com um movimento físico: nem uma sensação, nem um sentimento, nem uma crença, nem uma intenção ou desejo. Se restringirmos a nossa paleta a essas coisas acrescidas de acontecimentos físicos, o agir será omitido da nossa imagem do mundo.

Mas, mesmo que a acrescentássemos como um item irredutível, tornando os sujeitos de experiência também (e como O'Shaughnessy inevitavelmente argumenta) sujeitos de acção, o problema da acção livre mantém-se. Podemos agir sem ser livres, e podemos duvidar da liberdade dos outros sem duvidar de que agem. O que mina a compreensão da liberdade não mina automaticamente a acção1. Deixarei de lado o problema geral do agir, no que se segue, e presumirei simplesmente que tal coisa existe.

O que discutirei são dois aspectos do problema do livre-arbítrio, correspondentes aos dois modos segundo os quais a objectividade ameaça as suposições comuns acerca da liberdade humana. Chamo a um o problema da autonomia, e ao outro o problema da responsabilidade; o primeiro começa por apresentar-se como um problema acerca da nossa própria liberdade, e o segundo como um problema acerca da liberdade dos outros2. Uma perspectiva objectiva das acções como acontecimentos na ordem natural (determinados ou não) produz um sentimento de impotência e de futilidade a respeito do que nós mesmos fazemos. Também mina algumas atitudes básicas relativamente a todos os agentes — essas atitudes reactivas que condicionam a atribuição de responsabilidade. É o segundo destes efeitos que é comummente referido como o problema do livre-arbítrio. Mas a ameaça à nossa concepção das nossas próprias acções — o sentimento de que estamos a ser levados pelo universo como destroços — é igualmente importante e igualmente merecedor do título. Os dois estão ligados. A mesma perspectiva exterior que representa uma ameaça à minha própria autonomia ameaça igualmente o meu sentido da autonomia dos outros, e isto, em contrapartida, fá-los parecer objectos inapropriados de admiração e desprezo, ressentimento e gratidão, culpa e louvor.

Como outros problemas filosóficos básicos, o problema do livre-arbítrio não é, em primeira instância, um problema verbal. Não é um problema acerca do que podemos dizer sobre a acção, a responsabilidade, o que alguém podia ou não ter feito, e por aí adiante. É antes uma desorientação dos nossos sentimentos e atitudes — uma perda de confiança, de convicção ou de equilíbrio. Tal como o problema básico da epistemologia não é saber se se pode dizer que conhecemos, mas radica antes na perda da crença e na invasão da dúvida, também o problema do livre-arbítrio radica na erosão das atitudes interpessoais e do sentido da autonomia. As questões acerca do que podemos dizer acerca da acção e da responsabilidade apenas atentam contra o facto de expressarmos esses sentimentos — sentimentos de impotência, de desequilíbrio e de distanciamento afectivo relativamente aos outros.

Estas formas de constrangimento são familiares uma vez que tenhamos enfrentado o problema do livre-arbítrio através da hipótese do determinismo. Estamos debilitados mas, simultaneamente, ambivalentes, dado que as atitudes perturbadas não desaparecem: insistem em insinuar-se na consciência apesar da sua perda de suporte. Um tratamento filosófico do problema deve lidar com tais perturbações do espírito, e não apenas com a sua expressão verbal.

Mudo de opinião acerca do problema do livre-arbítrio de cada vez que penso nele e, por isso, não posso oferecer um ponto de vista nem sequer moderadamente fiável; mas a minha presente opinião é que nada que possa ser a solução foi jamais descrito. Este não é o caso em que há várias soluções candidatas possíveis e não sabemos qual a correcta. É o caso em que nada de credível foi (que seja do meu conhecimento) proposto fosse por quem fosse à discussão pública alargada do assunto.

A dificuldade, como procurarei explicar, é que enquanto podemos facilmente invocar efeitos perturbantes adoptando uma perspectiva exterior das nossas acções e das acções dos outros, é impossível apresentar uma concepção coerente da perspectiva interior da acção, que se encontra ameaçada. Quando procuramos explicar o que acreditamos parecer debilitado por uma concepção das acções como acontecimentos no mundo — determinados ou não — acabamos com algo que ou é incompreensível ou claramente inadequado.

Isto sugere naturalmente que a ameaça não é real, e que uma concepção da liberdade pode ser apresentada de tal modo que seja compatível com a visão objectiva, e até talvez com o determinismo. Mas eu acredito não ser o caso. Todas essas concepções são incapazes de suavizar o facto de que, olhados suficientemente do exterior, os agentes estão desamparados e não são responsáveis. As concepções compatibilistas da liberdade tendem a ser ainda menos plausíveis do que as libertistas. E também não é possível dissolver simplesmente o nosso sentido não analisado de autonomia e responsabilidade. É algo de que não nos conseguimos livrar, seja relativamente a nós mesmos ou aos outros. Estamos aparentemente condenados a querer o impossível.

Thomas Nagel

Notas

  1. Nisto, estou de acordo com R. Taylor, Action and Purpose, Englewood Cliffs, NJ, Prentice Hall, 1966, p. 140.
  2. Jonathan Bennett faz esta distinção, chamando-lhes, respectivamente, os problemas do agir e da responsabilidade (accountability) (Bennett, Kant's Dialetic, Cambridge, Cambridge University Press, 1974, Cap. 10).
Tradução de Artur Polónio
Retirado de Free Will, org. por Gary Watson (Oxford University Press, 2003, pp. 229-265).
Original em The View From Nowhere, de Thomas Nagel (Oxford University Press, Oxford, 1986).
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