Alheio Olhar, de Gonçalo Armijos Palácios
22 de Janeiro de 2005 ⋅ Filosofia

Afogados na história da filosofia?

Weber Lima
Alheio Olhar, de Gonçalo Armijos Palácios
Goiânia: Editora da UFG, 2004, 156 pp.
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José Gonçalo Armijos Palácios é um desses professores que não esquecemos facilmente. Equatoriano de nascimento, dois doutorados (um no Equador e outro nos EUA), professor com experiência internacional (ministrou aulas nos EUA), procura sempre inovar em suas aulas quanto às possibilidades oferecidas pela Filosofia a qualquer ser humano que se disponha a trilhar seus caminhos (os da Filosofia).

Há alguns anos Gonçalo redigiu um pequeno livro cujo título é De Como Fazer Filosofia sem ser Grego, Estar Morto ou Ser Gênio (Editora da Universidade Federal de Goiás, 1997) onde argumenta quanto à necessidade de repensarmos os mitos que ainda permeiam o ensino da Filosofia no Brasil. O livrinho possui uma nova edição (revista e atualizada — lançada em 2004 também pela Editora da UFG). No mesmo ano Gonçalo lançou outro livrinho não menos interessante: Alheio Olhar — onde procura aprofundar um pouco mais as questões do primeiro livro. É sobre esse último livro que pretendo me deter mais.

Em Alheio Olhar Gonçalo traça uma crítica, fruto de quinze anos de experiência e pesquisa sobre o ensino Filosofia no Brasil, sobre o porquê da não existência de uma tradição filosófica em terras brasileiras. Nós brasileiros possuímos uma rica tradição em literatura, música e uma produção de conhecimento em áreas como a Sociologia, Antropologia, História, Geografia, Economia etc. Segundo a análise de Gonçalo o problema deve-se a ênfase excessiva, na academia brasileira, à história da Filosofia em detrimento da problematização que caracteriza a atividade filosófica propriamente dita. Tal ênfase teria surgido no Brasil a partir da década de 30 quando a Universidade de São Paulo (a USP é a maior universidade brasileira, bem como uma das mais importantes) foi criada a partir do modelo francês. Na década de 60 vários professores vieram de França ensinar na USP trazendo consigo o método estruturalista muito em voga na época. Ora, argumenta Gonçalo utilizando em suas reflexões não apenas sua experiência, mas também a opinião de vários professores de Filosofia da USP, Unicamp etc, que a academia brasileira não raro confunde história da Filosofia (via método estruturalista francês ou ainda via tomismo) com a reflexão filosófica — Gonçalo já foi acusado de pretender ignorar a história da Filosofia a partir de seu primeiro livro (De Como Fazer Filosofia...), o que ele contesta de modo veemente, em especial nesse segundo livro. O que entendo que Gonçalo pretende é alertar quanto aos problemas históricos constitutivos de uma prática educacional mimética aos centros de produção intelectual estrangeiros em detrimento de nossa própria reflexão sem, contudo, ignorarmos (o que não seria prudente e muito menos enriquecedor) as reflexões dos grandes centros de produção de saber. Por meio de uma série de artigos, onde analisa a nossa timidez em desenvolvermos um pensamento mais autônomo, Gonçalo traça um painel da realidade universitária brasileira quanto ao ensino de Filosofia, muito importante porque esclarece os problemas históricos e culturais, bem como analisa também as condições de possibilidade de revertermos tal quadro bastante insatisfatório.

Ambos os livros de Gonçalo podem ser lidos com uma sensação de "quero mais" (segundo uma expressão brasileira muito comum) devido à sua insistência em escrever, como ele mesmo afirma reiteradas vezes ao longo do livro, com clareza a fim de ser entendido por qualquer um de seus leitores. A propósito, Gonçalo orienta-se em parte pela filosofia analítica quanto ao rigor, a clareza, a busca pelo entendimento o mais amplo possível, que ele atribui a qualquer "estilo" de filosofar.

Dentre os méritos que percebo na análise de Gonçalo destaco seis:

  1. Defender com teses claras a questão da verdade nas discussões filosóficas, ou seja, argumentar no âmbito filosófico é afirmar ou negar teses com a pretensão de que essas sejam verdadeiras, bem como esclarecer quanto à falsidade de outras;
  2. Desmistificar o ensino de Filosofia para irmos além da mera exegese filosófica apenas mimetizando o que vem sendo produzido fora do país;
  3. Propor com vigor a clareza e o debate público das idéias que caracterizam a Filosofia ao longo dos séculos;
  4. Incentivar os alunos e alunas a pensarem por si mesmos sem ignorarem o amplo legado histórico filosófico, mas não se limitando a ele;
  5. Enfrentar o recorrente desafio das muitas "leituras" do texto filosófico, ou seja, das interpretações, não raro, confusas, embora travestidas de erudição, e que atrapalham a formação dos nossos jovens, pois esses se sentem confusos diante da leitura de textos que, por mais se esforcem, parecem ter sido escritos para não serem compreendidos;
  6. Expor de modo claro os problemas quanto aos métodos, estruturalista e tomista, ainda vigentes no ensino filosófico brasileiro com sua ênfase em fazer história da filosofia como o único modo de filosofar.

Entretanto, apesar da tentativa de rigor em suas análises, Gonçalo não alude à necessidade, no meu entender imprescindível, de a Filosofia exigir uma sólida formação em lógica para evitarem-se os enganos e esclarecer com precisão os argumentos utilizados pelos filósofos clássicos ou contemporâneos, em especial com relação às ciências. Uma questão que julgo tão importante quanto a discussão, sempre presente no meio universitário brasileiro, sobre o currículo acadêmico.

Em uma época marcada pelos relativismos, pós-modernismos e irracionalismos de toda monta o livrinho de Gonçalo é leitura apropriada à discussão quanto à necessidade de desenvolvermos nossa autonomia de pensar enfrentando os inúmeros problemas que nos cercam.

Weber Lima
weberlima@uol.com.br
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