[an error occurred while processing this directive] [an error occurred while processing this directive] Aprender com as Coisas
21 de Abril de 2007 ⋅ Filosofia

Soltar as amarras

Rolando Almeida
Aprender com as Coisas, de Stéphane Ferret
Tradução de Francisco Oliveira
Porto: Asa, 2007, 155 pp.

É com agradável surpresa que recebemos a recente edição pela Asa Editores deste livro de Stéphane Ferret, da colecção Ler e Saber. O livro é apresentado pela editora como uma

"obra inovadora e com grandes potencialidades de livro susceptível de seduzir, para o discurso filosófico, as gerações mais novas agrupando não só estudantes e apaixonados da filosofia mas atraindo também os professores mais inconformados com as vicissitudes do ensino da filosofia em Portugal" (badana).

Isto é algo estranho mas positivo, se nos lembrarmos que o livro é publicado pela editora que tem o manual de filosofia do ensino secundário mais adoptado pelas escolas a nível nacional. Acontece que a presente edição de Stéphane Ferret pouco tem a ver com o manual do secundário promovido pela editora, nem o modo de praticar a filosofia proposto por Stéphane Ferret vai ao encontro do manual da editora.

Também não é inteiramente verdade que a obra seja inovadora. Na verdade, insere-se na linha de outras introduções à filosofia, principalmente a do filósofo norte-americano Thomas Nagel, Que Quer Dizer Tudo Isto? (Gradiva, 1997) — obra que o autor refere, a par de Russell e Blackburn, como os autores daquelas que considera as melhores introduções à filosofia. Seguindo a mesma estratégia do livro de Nagel, Ferret refere na introdução:

"Mais do que traçar uma cartografia dos autores e dos sistemas ou de me interrogar sobre o que é a filosofia, preferi soltar as amarras e confrontar-me directamente com problemas filosóficos. Se não tenho grande atracção pelas representações históricas e me repugna interrogar-me pela definição de filosofia, é porque não acredito que ela se reduza a uma escavação arqueológica e porque tenho dificuldades em perceber o que poderá ela esperar ganhar ao tomar-se a si mesma como objecto de reflexão" (p. 7).

Mais para o final do livro, no Post Scriptum, refere:

"Escusado será dizer que admiro os grandes historiadores da filosofia, do mesmo modo que admiro os grandes autores. O que contesto, sobretudo, é essa redução da actividade filosófica à actividade enciclopédica ou, melhor ainda, esse encantamento da actividade filosófica pela história da filosofia. Atrevo-me a dizer que os autores importam pouco, o mesmo se passa com a sua época, que a sua língua pouco interessa, que eles não são nada, face à realidade dos problemas. Quando colocamos os autores em primeiro lugar, como uma figura de proa, há fortes possibilidades que a síndroma da palavra de evangelho entre em acção. O efeito de sacralização que daí resulta parece-me relevar de uma piedade pueril, para não falar de dogmatismo cómico do género "guardião do templo"" (p. 117-118).

Somos levados a crer que, sendo o autor francês e vivendo em Paris, está a procurar mostrar os erros da filosofia praticada nas universidades e ensino francês. O mesmo se pode aplicar ao caso português.

Os problemas filosóficos são apresentados neste livro sem recurso aos nomes dos filósofos, evitando dessa forma expor somente a história da filosofia. O objectivo é entrar directamente nos problemas e nos argumentos.

Mas há ainda outra questão. Stéphane Ferret estudou em Cambridge, no Trinity College. O grosso da bibliografia apresentada é inglesa e não francesa. Quer isto dizer que estamos perante uma obra introdutória à filosofia tal como esta é praticada nas universidades inglesas e não nas francesas, mas escrita por um francês. Decorre daqui algum problema para o valor intrínseco da obra? Absolutamente algum. O estranho é a opção editorial. Pode-se tratar de uma leitura em diferido. Provavelmente, Stéphane Ferret escreveu o livro a pensar nos problemas do ensino da filosofia em França e não em Portugal, ainda que os problemas sejam semelhantes em muitos aspectos, nomeadamente na falta que nestes países há de boas obras introdutórias que possam estimular o grande público e os estudantes a estudar filosofia. Seria tanto mais interessante que o mesmo fosse feito em Portugal — salvo raras excepções, como o livro A Natureza da Filosofia e o seu Ensino, de Desidério Murcho (Plátano, 2002). Com tantas obras desta natureza em língua inglesa, não se percebe muito bem a opção de traduzir uma de um país e uma língua que não possui a experiência de escrever obras introdutórias com a clareza das suas congéneres inglesas ou norte-americanas.

Independentemente destas considerações, a opção resulta feliz. O livro, apesar de não tão claro e rigoroso como o de Thomas Nagel, constitui um belíssimo brinde para quem, em poucas páginas, quer entrar nos problemas da filosofia. O autor recorre a uma escrita sóbria e deixa a marca da preferência pelos problemas da filosofia de mente. O primeiro problema em análise no livro, "Os Outros", procura apresentar ao leitor o problema central da filosofia da mente, tentando mostrar a dificuldade no acesso à compreensão de outras mentes. O problema seguinte, "A Dúvida", introduz o problema do cérebro numa cuba, popularizado na filosofia contemporânea por Hilary Putnam. Se fôssemos um cérebro numa cuba, que relação causal teríamos com os objectos reais? "As Coisas", problema seguinte, procura iniciar o leitor na filosofia do conhecimento. As coisas são o resultado da nossa percepção mental, ou existem, além da percepção humana, tal e qual as vemos? Se as coisas permanecem coisas além da nossa percepção, como sabemos como são as coisas? Definir a identidade das coisas remete-nos para o problema de saber se as coisas subsistem como identidades singulares ou grupos de coisas. Este é o problema abordado pelo autor no capítulo intitulado "Espécies".

O quinto problema, "A Obra de Arte", é uma feliz introdução a uma das questões mais importantes da estética: o que é um obra de arte? Quando é que um objecto é ou não é arte? Ferret segue, para este problema, a solução apontada por George Dickie, com o argumento da institucionalidade da obra de arte. Um objecto é arte em função do seu posicionamento numa esfera artística. Falta abordar o problema da emoção estética que o autor deixa por analisar, como refere no Post Scriptum, optando pela abordagem da parte mais fácil do problema, o seu aspecto conceptual.

O sexto problema abordado, "A Identidade", é uma pequeníssima introdução à metafísica, colocando a questão de saber quais são os critérios que temos para analisar os problemas da identidade no horizonte espaço-tempo. No capítulo seguinte aborda-se o problema da identidade pessoal. Imagine o leitor que lhe amputam uma perna, depois a outra, lhe retiram os dentes e transfiguram o rosto. Como é que, então, se preserva a identidade pessoal?

O problema do "Espírito" trata das relações entre mente e corpo. Neste capítulo, Ferret procura demonstrar por que razão a teoria dualista é racionalmente insustentável na filosofia contemporânea, mostrando, ao mesmo tempo, a sua simpatia pelas teorias não dualistas. Se a nossa mente é fisicamente determinável, em que condições podemos afirmar a liberdade? Este é o problema que se segue, antecedendo um outro que lhe está relacionado, o da "Acção", que o autor explora no capítulo seguinte. São focados três problemas principais:

  1. O problema da definição de acção;
  2. O problema da explicação da acção;
  3. O problema de saber se se somos mesmo os agentes das nossas acções.

É natural que daqui decorra o problema do "Bem e o Mal". Neste capítulo há uma curta mas interessante referência ao utilitarismo, segundo o qual são as consequências das acções que determinam o bem ou o mal.

Ferret, deixa para o final do livro o problema da morte — como fez Nagel, que o aborda num dos últimos capítulos da sua introdução à filosofia (no livro de Nagel, a morte antecede o último capítulo sobre o sentido da vida). "A morte" (p. 103) remete-nos para o problema do dualismo mente-corpo. Se o dualismo for verdadeiro, então podemos esperar uma vida depois da morte. Pelo contrário, se for falso, nada existe além dela. Mas este nada depois da morte remete-nos para a reflexão da própria vida e dos medos psicológicos em enfrentar a morte. A morte é um problema filosófico na medida em que nos relacionamos com ela partindo de crenças proposicionais em relação ao que existe depois dela. Mais uma vez a comparação com o livro de Nagel é inevitável.

O livro acaba, antes do Post Scriptum, com uma útil conclusão que é reveladora das suas preferências pelos problemas da filosofia da mente , na qual apresenta em resumo as teorias que considera mais credíveis para solucionar os problemas do mundo, do corpo e da mente.

Em pouco mais de cem páginas (o livro termina com um longo Post Scriptum com referências bibliográficas), o leitor convive numa linguagem clara com os problemas da filosofia e, mesmo sem o saber, envolvendo-se com os argumentos de alguns nomes da história da filosofia. No Post Scriptum, Ferret teve o cuidado de dar indicações do nível de sofisticação de cada obra, mais uma vez, revelando que aprendeu bem as lições dos mestres em Cambridge.

Da estética, à metafísica, da filosofia moral ao problema da dúvida e da finitude, somos levados por uma aprendizagem na filosofia que, em boa verdade, pode atrair (e espero que sim, a bem de todos) "os professores mais inconformados com as vicissitudes do ensino da filosofia em Portugal", como refere o editor. É bom saber que as editoras começam a despertar para este género de obras, traduzindo-as — obras que tanta falta fazem em língua portuguesa.

Uma nota final para a tradução. Não sendo um especialista em língua francesa, com efeito, a tradução de "espírito" em vez de "mente", pode acarretar confusões desnecessárias, uma vez que "mente" é uma palavra portuguesa muito mais eficaz e de acordo com a palavra inglesa "mind". A língua francesa não tem o termo "mente" (apenas tem o termo "mental"), razão pela qual têm de usar "espírito" — mas bastaria falar com o autor para se saber que ele preferiria quase de certeza o uso da palavra latina "mente", que felizmente temos em português.

A Asa está de parabéns.

Rolando Almeida
rolandoa@netmadeira.com
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