Compêndio de Filosofia
25 de Fevereiro de 2004 ⋅ Filosofia

Nem era preciso traduzir

Desidério Murcho
Compêndio de Filosofia, organizado por Nicholas Bunnin e E. P. Tsui-James
Tradução de Luiz Paulo Rouanet
Rio de Janeiro: Edições Loyola, 2002, 768 pp.
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Como resolver os problemas culturais e editoriais que a pequenez do nosso país provocam? Vejamos um exemplo prático: foi publicada no Brasil uma tradução de The Blackwell Companion to Philosophy, org. por Nicholas Bunnin e E. P. Tsui-James. Trata-se de um volume enciclopédico, muitíssimo útil para estudantes e professores, e informativo para o público em geral. Mas nenhum editor comercial português poderia deitar mão a uma obra deste género, pois o custo de tradução e edição tornaria o preço proibitivo, dada a dimensão do país. Não seria possível os editores portugueses cooperarem com os brasileiros? Por vezes, isso acontece. A tradução portuguesa do Dicionário de Filosofia, de Simon Blackburn (Gradiva), foi simultaneamente publicada entre nós e no Brasil. Era bom que estes exemplos se multiplicassem, a bem do leitor português.

A tradução brasileira desta obra baseia-se na primeira edição, que conta com trinta e dois ensaios sobre diversas áreas da filosofia. Numa primeira parte abordam-se as diferentes disciplinas da filosofia: epistemologia (A. C. Grayling), metafísica (Simon Blackburn), filosofia da linguagem (Martin Davies), filosofia da mente (William G. Lycan), ética (John Skorupski), estética (Sebastian Gardner), etc. — ao todo, são contempladas catorze disciplinas (na segunda edição inglesa, esse número cresceu para vinte e uma). Na segunda parte, aborda-se a história da filosofia, em dezoito ensaios (vinte e um, na segunda edição) dedicados à filosofia grega antiga (Robert Wardy), à filosofia medieval (C. F. J. Martin), ao trio racionalista clássico (Descartes, Espinosa e Leibniz), Hobbes (Tom Sorell), Hume (Peter Jones), Kant (David Bell), Frege e Russell (R. M. Sainsbury), etc.

Cada ensaio apresenta, em cerca de 25 páginas, alguns dos elementos centrais da área em causa, de forma lúcida, despretensiosa e informativa. Cada ensaio é complementado com informações bibliográficas úteis, que visam informar o leitor dos caminhos a seguir, e com uma útil lista de perguntas. A título exemplificativo, vejam-se algumas perguntas referentes à epistemologia: "Poderia o leitor estar agora a sonhar?"; "Será que o argumento da linguagem privada mostra que o projecto cartesiano é impossível?"; "Quão importante é ter uma definição de conhecimento?"; "Haverá uma perspectiva adequada da noção de coerência?" Contactar com este tipo de perguntas é muito importante, pois há a tendência para pensar que estudar é apenas uma questão de compreender o que se estudou. Como se pode ver nestas perguntas, trata-se não apenas de compreender, mas de aprender a pensar de forma autónoma e articulada sobre o que se compreendeu.

Um dos atractivos desta obra é poder ter "aulas virtuais" com autores que são filósofos de reputação internacional — como Bernard Williams, John Searle, A. W. Moore, David Papineau, Martin Hollis, Susan Haack, Thomas Baldwin, David Pears, etc. O que surpreende o leitor português é verificar como os autores cuja obra conduz os destinos da filosofia contemporânea são tão simples, despretensiosos, claros, directos e nada pedantes, ao mesmo tempo que conhecem bem as suas disciplinas, sabem como as ensinar partindo do mais elementar e central, avançando para o mais sofisticado e periférico. Quando se lê este tipo de livros, percebe-se qual é a causa do atraso educativo e universitário nacional.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Originalmente publicado no jornal Público (3 de Abril de 2004)
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