O Estudante, de Amedeo Modigliani
12 de Junho de 2005 ⋅ Filosofia

Bons e maus ensaios filosóficos

R. W. Hepburn
Universidade de Edimburgo

Introdução

Muita da filosofia que vais aprender consiste em discussões a favor e contra certas posições, teorias e pontos de vista filosóficos. Ao escreveres ensaios filosóficos, ser-te-á exigido que tomes parte nessas discussões — e não que te limites a reafirmar os argumentos que encontras nos textos ou ouves nas aulas. Claro que irás usar alguns dos argumentos que aí encontras (reconhecendo a sua autoria), mas deves examiná-los criticamente — rejeitá-los ou aceitá-los dando as tuas razões. O teu ensaio, portanto, tem de ser uma peça de discurso argumentativo e racional, e não uma peça de história das ideias.

A estrutura

É absolutamente vital que o teu ensaio tenha uma estrutura e não seja apenas uma série de pensamentos sem qualquer relação. Por exemplo:

Quero expor em primeiro lugar o problema abordado no ensaio e esboçar as principais teorias alternativas que o tentam resolver. Tratarei com algum detalhe a teoria A, que é plausível, e examinarei depois os contra-argumentos X, Y e Z. Com base nestes contra-argumentos, proporei uma versão modificada de A. Esta versão será depois igualmente testada em relação a algumas críticas.

Podes começar o teu ensaio com um breve sumário deste tipo (ou pelo menos incluir breves indicações de como a tua argumentação vai progredir).

O estilo filosófico

Eis alguns sinais de bom estilo: clareza, imparcialidade no tratamento dos problemas, um sentido forte do que é relevante, confiança em que a linguagem mais simples permitirá mostrar o que pretendes. Se precisares de termos técnicos, assegura-te de que os explicas e depois sê fiel às tuas definições!

Embora seja difícil fazer boa filosofia, fazer filosofia difícil ou obscura não garante que seja boa. Um filósofo sério e honesto (isto é, um filósofo que queira realmente descobrir a verdade e não esteja apenas fingir que o quer) tenta tornar a estrutura dos seus argumentos tão claros quanto possível, de modo a facilitar, e não a dificultar, a sua avaliação crítica. Às vezes isto exige alguma coragem.

Em ensaios pequenos (como os de Filosofia do primeiro e segundo ano), é essencial não desperdiçar palavras. Isto é o mesmo que dizer, não girar vagarosamente em redor do assunto ("Desde que o Homem começou a pensar…"), não se desviar do que é relevante, não escrever palha, nem ser palavroso, ou desnecessariamente e enfadonhamente prolongar os exemplos.

"Temos de ser originais?"

Numa resposta breve: "Sim". De que forma?

Todos devem ser originais ao preparar a sua apresentação do material relevante para o ensaio, mesmo que a maior parte desse material seja obtido noutras fontes. A organização, a "história" do ensaio tem de ser tua: os veredictos a que chegas devem mostrar sinais da tua reflexão, mesmo que haja filósofos que já os tenham afirmado antes.

Todos devem ser também originais ao usarem exemplos e ilustrações diferentes dos existentes nos livros e dos dados nas aulas. Isto é importante: se não fores capaz de forjar um exemplo alternativo, isso pode muito bem significar que não compreendeste o exemplo que estás a tentar substituir — isto é, podes ter identificado um problema para colocar ao teu professor.

Se pensas que podes ser original de uma forma mais substancial — propondo novos argumentos, novas teorias, identificando falhas nos argumentos das aulas — muito bem; desde que (em especial num curso introdutório) também mostres ter reflectido seriamente nas posições e críticas que as leituras recomendadas te revelaram. Sem isso, corres o risco de repetir os disparates dos filósofos teus antecessores. A vida é demasiado curta para que nos possamos dar a esse luxo; e um curso introdutório é ainda mais curto…

Espero que seja desnecessário dizer que não há notas especiais por no teu ensaio concordares com a posição defendida acerca desse assunto pelo professor; assim como também não há por ousadamente discordares dele. O que conta é a qualidade dos teus argumentos.

O uso das fontes

Tens toda a liberdade para citar ou parafrasear os assuntos que queres discutir das leituras recomendadas, mas assinala escrupulosamente as tuas fontes. Se indicas as obras a que te referes, ou que consultaste, no fim do teu ensaio, juntamente com as suas datas de publicação, podes acrescentar uma referência à tua fonte imediatamente após a teres citado: por exemplo: (McNaughton, 1988, p. 100). Num ensaio pequeno, tem o cuidado de evitar que as citações e as paráfrases constituam a maior parte do que escreves! Seja como for que faças a gestão as tuas notas de rodapé ou as tuas notas finais, por favor inclui sempre uma lista das obras que de facto consultaste.

Sugestões práticas para escreveres os teus ensaios

Localiza e usa as leituras recomendadas assim que estão disponíveis.

Quando estiveres na posse de um texto recomendado, primeiro passa rapidamente os olhos pelo(s) capítulo(s) importante(s) para ficares com uma ideia de como são e depois (porque a memória pode atraiçoar-te), tira apontamentos da estrutura dos argumentos principais, e escreve cuidadosamente quaisquer afirmações que te pareçam poder vir a dar citações valiosas. Para poupar tempo, aponta cuidadosamente também os detalhes referentes ao autor, título e páginas, para o caso de não poderes voltar a consultar o livro.

Usa folhas ou cadernos separados para os teus próprios pensamentos, respostas às leituras, novos exemplos, decisões provisórias acerca da posição que vais defender no teu ensaio. E, obviamente, quando se aproximar a altura de escreveres o teu ensaio experimenta esboços, histórias e estruturas alternativas.

Quando tiveres decidido como será a estrutura final, o número de secções e sub-secções, percorre as tuas notas e marca as partes relevantes com os números de secção adequados. (Um código de cores pode ajudar). Isso assegurar-te-á que à medida que escreves o ensaio, encontras rapidamente o material importante.

Procura acabar o esboço do teu ensaio alguns dias antes de terminar o prazo de entrega. Assim podes pô-lo de lado por dois ou três dias, voltar a lê-lo com outros olhos, fazer as correcções finais e passar a computador a versão final. ("Passar a computador?" — Se possível, claro que sim.)

Que aspecto tem um ensaio filosófico mesmo mau?

Daquilo que acabámos de dizer, podes saber por ti.

  • Para começar, seria disforme, confuso e tentaria convencer o leitor de que a sua obscuridade é um indicador da sua profundidade (mas em vão). Os seus “portantos” e “logos” não indicariam realmente argumentos. A sua indicação das fontes seria em larga medida vaga e escassa, de forma que (com sorte), a extensão das dívidas seria difícil de perceber…
  • Julgaria ter feito justiça à exigência de exemplos originais mudando os nomes próprios.
  • Iria (já agora) quase de certeza ter erros de ortografia; confundiria "refutar" com "rejeitar", "implicar" com "inferir" e seria criativo a escrever de forma errada "Nietzsche".
  • Finalmente: estaria escrito numa caligrafia pouco legível, não teria título e não teria margens que permitissem a quem o lesse escrever comentários dos lados. Traria as marcas, se não de óleo de carro, pelo menos de cafés tomados a altas horas da noite. E, claro, seria entregue muito tarde.

R. W. Hepburn

Tradução e adaptação de Álvaro Nunes
Original: "A Survival Guide for Philosophy Students". Este texto dirige-se principalmente a alunos dos primeiros anos do ensino universitário. Contudo, muitos dos seus conselhos são igualmente excelentes para os alunos do Ensino Secundário de Introdução à Filosofia.
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