A Confissão, de Claude Théberge

Créditos malparados?

Algumas reflexões sobre o estado actual da formação contínua de professores
José Alberto Quaresma

Para ensinar há uma formalidadezinha a cumprir — saber.
Eça de Queirós, Notas Contemporâneas, 1878.


Nos curtíssimos minutos permitidos gostaria de vos trazer algumas impressões sobre a formação. Foram colhidas pelo alienígena que sou, embora aqui nascido, na observação da realidade, e na experiência pessoal de formador (embora não tenha dúvidas de que, como alguém disse — A. d'Houdetot —,"a experiência tem a utilidade de um bilhete de lotaria depois da tiragem").

A Formação é um enorme magma, lento e frio, que desliza de várias fontes institucionais e que se rege pelo sagrado princípio, bem lusitano, da falta de articulação e de coordenação. E não há efectivamente coordenação entre as várias instituições que fazem formação, nem entre a formação inicial e a formação contínua. Muitas delas ignoram-se mutuamente. Há já largos anos no terreno, ainda não se vislumbram os grandes objectivos estratégicos da formação em Portugal.

Assim sendo, os Centros de Formação entendem o que podem, fazem o que podem e muito fazem. Falo pelo meu, o Centro de Formação de Professores de Portimão, que conheço bem. Não é espantoso que entrando em vigor a Reforma Curricular já no próximo ano lectivo que a formação de professores continue a ignorar, ou quase, que ela já tenha o pé na soleira da porta? E que, à parte algumas iniciativas prescientes de alguns centros de formação, pouco ou quase nada tenha sido feito para preparar os professores para essa mudança?

A nível da região do Algarve tem havido prioridade para a Cidadania, nomeadamente Educação Sexual, e Prevenção Rodoviária. Singularmente esta última, a Prevenção Rodoviária, apesar do mediatismo permanente da sinistralidade em Portugal, e da sua excepcional gravidade terceiro-mundista, não tem cativado o interesse dos formandos. São raras as inscrições.

Gostaria de assestar a reflexão, nesta breve comunicação, em três aspectos da formação: a concepção e recrutamento, a avaliação dos formandos e os reflexos da formação na prática profissional dos professores.

1. Quero, posso e serei bem formado (concepção e recrutamento)

O essencial da formação agora é concebido e planeado por grupos de professores. Cursos de Formação, Estágios, Oficinas, Projectos e Círculos de Estudos têm na sua génese, antes de tudo na iniciativa pessoal dos formandos e do formador, enquadrados pelos centros de formação. Assenta nesse voluntarismo. Ninguém duvida que, à partida, o professor em formação, se não atravessar nenhuma crise de identidade, é quem melhor conhece as suas próprias necessidades de formação. Ainda que não saiba, nem ele nem ninguém, se elas se inscrevem nalgum grande desígnio estratégico nacional da Educação. Ou, num plano mais chão, o que irá fazer, nos anos seguintes, com a formação recebida, se é que irá fazer alguma coisa.

As razões pelas quais um professor frequenta uma acção de formação são, de forma amplamente maioritária, as necessidades ligadas à progressão na carreira. Basta ver o número reduzido de professores que frequenta acções de formação quando não precisa de créditos. Todos nós sabemos que, apesar de tudo, apazigua uma boa consciência dizer que o motivo principal para a inscrição numa acção foi "o interesse pelo tema", "a aquisição de conhecimentos no domínio científico", ou mesmo "a actualização e ou aprofundamento de conhecimentos". Mas continua a colher mais, na frequência de uma acção de formação, o foguetório metodológico do que a real actualização científica. A "formalidadezinha" continua pouco popular no sistema de ensino português, mais de um século depois do desabafo do Eça. E créditos baratos quem os não deseja?

2. Avaliação dos formandos ou avaliação dos formadores?

O sistema de avaliação dos formandos está cientificamente concebido para... avaliar formadores!

Com efeito a um formando exige-se apenas que frequente, empolgado ou bocejado, dois terços da acção, que produza um relatório ou um trabalhito inspirado, transpirado, ou apenas colado, depois de alguns golpes de tesoura. A Nossa Senhora de Fátima também pode dar uma ajudinha se o destino não permitir que a peça de literatura formanda veja alguma vez a luz do dia. O formando fica assim apto. Recebe um diploma com a menção e o correspondente número de créditos que lhe permitirá progredir. Na carreira, entenda-se. Está definitiva e solidamente formado. Pelo menos, até à próxima necessidade de créditos, estamos conversados. E pensam que há alguém inapto? Ninguém. O regime bonificado dos créditos é perfeito.

Já o formador e a sua acção são cientificamente avaliados. Por quem? Precisamente pelos formandos. A grelha de avaliação é poderosa, e com pequenas diferenças, aparentada em todo o país. O formando avalia com rigor se os objectivos da acção foram "plenamente ou parcialmente atingidos", se os conteúdos foram "adequados" ou "pouco adequados", se a duração foi "curta" ou "longa", se as estratégias ou actividades "motivadoras". A "intervenção do formador" e "o domínio do tema" são objectivamente classificados, pelo formando, de "excelente", "bom", "suficiente" ou "com lacunas". A sua capacidade de comunicação foi "clara" ou "pouco clara". E até a relação formador/formando é avaliada com objectividade psicanalítica: pode ser "facilitadora", "pouco facilitadora", "inibidora". Penso que aqui foi esquecido um item — o grau zero da escala: "castradora". Digo eu. Certamente ainda haverá outras classificações sussurradas, ainda mais científicas, do tipo: "o gajo (ou a gaja) é uma seca!". E como nós sabemos quão traumatizantes são as "secas" no ensino luso. Mas, enfim nada que não aconteça nas aulas com os alunos. O professor é muito mais avaliado pelos alunos do que o inverso. Não há mal nenhum nisso. São as regras invisíveis do jogo educativo.

Continua a douta sabedoria de julgar que um formador que dá formação é um ser mal formado. E que, por consequência, precisa de frequentar, como formando, quaisquer acções de formação, ainda que estas possam estar nos antípodas dos seus interesses e da sua prática profissional, ou no centro da sua formação básica, há muito adquirida. Conheço um formador altamente qualificado nas tecnologias de informação que foi obrigado a frequentar uma acção de formação em Informática, de nível pouco especializado, para obter os créditos e progredir na carreira. Não tinha outra à mão. Imagine-se o embaraço do formador e do formando. Há quem acredite que os embaraços são estimulantes.

Eu, por mim, continuo a achar bizarro que não se reconheça a um formador que, para dar uma hora de formação, são precisas dezenas de horas de auto-formação, e da mais exigente. E nem um creditozinho ele tem direito, como outrora tinha. Anda aqui muito crédito malparado.

A situação é tanto mais injusta quanto já começa a soar que se vai dar acesso aos créditos aos professores (dois créditos?) que corrijam provas aferidas. E os resultados são óptimos. A debandada já começou. Muitos formandos inscritos em acções de formação já cancelaram a sua inscrição. Devem ficar a cismar assim: "o tema daquela acção deveria ser interessante!"

3. Onde andas formando formado que te não vejo?

Hoje pouco se sabe sobre o impacto real da formação na prática profissional dos formandos e na modificação objectiva do sistema de ensino. À parte a investigação Delphi sobre "Avaliação do Desempenho e Desenvolvimento Profissional dos Professores", de circulação muito restrita e praticamente ignorado pelas escolas e pelos professores, não é feita, nem externa nem internamente de forma sistemática, a avaliação diferida. As entidades formadoras, e os próprios professores, estão na quase total escuridão sobre a utilidade prática da formação desenvolvida pelos formandos. Alguém ouve algum eco do que se passa no remanso de uma sala de aula que tenha saído de uma agitação ou de um adquirido burilado numa Oficina ou num Círculo de Estudos?

Nós sabemos apenas que continuamos a não conseguir descolar dos indicadores mais deprimentes da União, nomeadamente na frequência da escolaridade básica, no insucesso no ensino secundário, ou no abandono no ensino superior. A culpa não sendo da formação contínua, obviamente, não seria suposto ela atalhar estas mutilações ancestrais para atingirmos, no nosso sistema de ensino, outros níveis de excelência? Sei também que temos sempre à mão um toalhete refrescante para apagar alguma pequena sujidade e nos tranquilizarmos: "Então, e se não houvesse formação, como é que as coisas andariam?"

Não estaremos nós a esbanjar oportunidades, a desperdiçar, numa conjuntura excepcional, como a que tem sido nos últimos anos, recursos, meios, cabedais, vontades e, sobretudo, boas expectativas?

Em 2006, o pipe-line dos fundos estruturais exaurir-se-á ou, pelo menos, diminuirá substancialmente os seus fluxos para o nosso país. Nós sabemos que, enquanto houver fundos estruturais, andamos bem. Nós gostamos, sempre gostamos muito, de investimentos a fundo perdido. Mas não andaremos, lá bem no fundo, perdidos? Um pouco, pelo menos. E depois? Iremos deixar os nossos créditos por mãos alheias?

Apesar de tudo acredito na formação. Tão ou mais importante que o rendimento mínimo garantido para famílias de fracos recursos, defendo há muito a existência de uma educação mínima garantida. Começa a haver alguma entendimento superior de que a educação é um processo de longa duração, a partir do berço até à beira túmulo. O recente despacho conjunto (n.º 261/2001) dos Ministérios do Trabalho e da Solidariedade e da Educação, institui um conjunto diversificado de acções destinadas à população adulta para que esta possa melhorar as suas qualificações escolares ou profissionais e "encontrar respostas adequadas aos contínuos desafios que enfrenta em diferentes momentos da sua vida". (D.R. n.º 69 de 22 de Março de 2001). Pode ser um primeiro passo. Outros deveriam seguir-se.

Sabemos hoje que o sucesso escolar e o sucesso profissional se preparam desde a primeira infância através de regras, hábitos de concentração e de trabalho, noção de valores para a vida em sociedade, etc. Sabemos também que muitos dos comportamentos "desviantes" que irrompem na adolescência, e se prolongam pela vida adulta, têm a sua origem remota na infância desvalida, ou na distracção sistemática dos pais, ocupados que estão a espreitar vidas virtuais e virtuosas pelo buraco da fechadura .

A formação precisa de um horizonte para mais de uma geração. Precisa de articular-se em todos os seus patamares e com todo o sistema educativo. Assim o entendam os elegíveis. E os eleitos, presentes e futuros.

José Alberto Quaresma
Comunicação apresentada ao IV Congresso Nacional dos Centros de Formação de Associações de Escolas (Carvoeiro, Lagoa, 18 a 20 de Abril de 2001)
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