20 de Setembro de 2003 ⋅ Filosofia da ciência

O problema da demarcação

Daniel Marques Pinto

"Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um pedaço do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiram. A rapariga acabou por desaparecer de tão cortada dos dois lados. Só algumas pessoas compreenderam."
Herberto Helder, Photomaton & Vox

Esta é uma história breve e, aparentemente, afastada do problema que este texto (também breve) se propõe aflorar. Contudo, começar um pouco longe pode ser uma forma de, mais tarde, entender melhor. Na verdade, alguma filosofia das ciências, no intuito de separar os problemas científicos da pseudo-ciência (conhecido como problema da demarcação), incorre por vezes no mesmo erro que faz a mulher da história de Herberto desaparecer. No desejo de depurar os seus argumentos, de eliminar as imperfeições, alguma filosofia das ciências vive no permanente pânico de, no fim, não encontrar uma visão clara da ciência mas apenas o vazio que entretanto a substituiu. Nesse sentido, a postura anarquista de Feyerabend é um contributo importante para afastar a actividade científica de uma matriz demasiado rígida que não atenda às suas múltiplas dimensões. Ao alargar as práticas metodológicas, Feyerabend procurou introduzir um elemento de complexidade onde muitos viram apenas uma contaminação perigosa para as ciências. Ao afirmar que todas as possibilidades são boas possibilidades metodológicas, Feyerabend procura, no essencial, prevenir-nos contra esquemas demasiado rígidos que podem fechar prematuramente alguns  dos caminhos  para o  conhecimento.

No entanto, o problema da demarcação é um problema interessante pois cruza-se com questões de raiz política (por exemplo: porquê financiar esta e não aquela actividade) e com outras que assentam na convicção de que separar é também uma forma de conhecer melhor.

Popper foi, de todos aqueles que tentaram atacar o problema, quem o fez com mais vigor e empenho. O seu contributo é importante pois troca a ideia de verificacionismo pela de falsificacionismo, extraindo desta última o critério que separaria a ciência da pseudo-ciência: é preciso definir em que condições estamos dispostos a abandonar determinada teoria.   Assim, a experiência deixa de servir (ao contrário daquilo que pretendiam os filósofos conotados com o raciocínio indutivo) como ponto de partida para a formulação de enunciados gerais, transformando-se em teste para a eliminação de erros. O impulso da ciência passa a residir nas conjecturas, nas hipóteses e não nos dados observacionais.

Contudo, o entusiasmo com que as teorias de Popper foram recebidas pelos cientistas de laboratório é sintomático da importância que a experiência possui na formulação falsificacionista. Se, por um lado, é no mundo 3 de Popper (o mundo das teorias, das ideias) que se encontram os germes da criação científica, é ainda a experiência que serve de filtro decisivo para a eliminação das teorias impuras, das anomalias. É ainda a experiência como árbitro implacável.

René Thom, que se auto intitulava um imperialista da matemática, encontrava aí uma impossibilidade de verificar experimentalmente, de forma completa, leis científicas em que intervenham funções f(x)=y, uma vez que, em vários casos, há uma infinidade de valores para x. Essa limitação é, para Thom, muito grande pois a sua abordagem coloca o conceito de função na origem da ciência moderna. O afastamento da matemática teórica como pilar na formalização dos fenómenos é para Thom inaceitável, bem como a ideia de que todo o esforço teórico tem necessariamente de culminar com a elaboração de uma nova experiência. O critério popperiano de falsificabilidade é, para o matemático francês, demasiado estreito e deixa de fora um razoável número de disciplinas do saber, não só alguma matemática como também a paleontologia, a cosmologia, a etnologia e outras áreas que possuem um corpus de fenómenos relativamente pequeno e fechado.

Procurando evitar as interpretações ingénuas do falsificacionismo, Lakatos reformulou as teorias de Popper de modo a poder, ainda, apresentar as revoluções científicas como resultantes de um progresso racional. A ideia central de Lakatos consiste em substituir o problema da apreciação de teorias pelo problema da apreciação de séries de teorias (ou mais exactamente de programas de investigação). Dessa forma, as anomalias podem ser ignoradas desde que o programa de investigação consiga manter uma heurística positiva resultante dos desenvolvimentos teóricos, sendo apenas substituído quando surgir um outro programa de investigação melhor. Assim, uma experiência não pode, só por si, derrotar uma teoria pois esta apenas pode ser derrubada por uma teoria melhor que apresente um conteúdo empírico adicional. Lakatos observa também que Popper não responde à sua própria pergunta reformulada: em que condições abandonaria o seu critério de demarcação? Para superar essa lacuna, Lakatos propõe o seguinte meta-critério que é, de certa forma, uma extensão do seu critério de demarcação: uma teoria da racionalidade só deve ser abandonada quando se dispõe de uma melhor (sendo que melhor representa aqui a possibilidade de interpretar racionalmente uma maior quantidade de juízos de valor básicos na história da ciência). Assim como a metodologia de Popper constitui, para Lakatos, uma forma de progresso em relação às teorias justificacionistas da racionalidade, também o seu próprio critério de demarcação se apresenta como um novo avanço. Por exemplo, à luz da teoria de Popper, a descoberta do periélio anómalo de Mercúrio não devia ter permitido manter a teoria gravitacional de Newton enquanto, com base no novo critério de Lakatos, o desenvolvimento histórico (que não fez ruir a teoria apesar do fenómeno só ter sido explicado mais tarde por Einstein) se apresenta como perfeitamente racional.   

 A polémica sobre este tema não se esgota no confronto entre as ideias de Popper, Feyerabend, Thom ou Lakatos, estendendo-se a outras figuras e correntes de pensamento. Mas será assim tão importante separar, em definitivo, a ciência das outras actividades humanas? Talvez a utilização de um critério de demarcação, mesmo que imperfeito, seja útil em determinados momentos mas não será excessivamente pernicioso aplicá-lo de uma forma global?

A ciência tem hoje, felizmente, uma história. Ignorar as suas características fundamentais, confundi-la apressadamente com outras áreas do conhecimento é por certo perigoso e injusto. Contudo, isolá-la, mesmo que no intuito de a proteger, não será uma forma silenciosa de diminuir a sua diversidade?

O texto de Herberto Helder é apenas uma parábola, não é filosofia, mas quantas pessoas o compreendem?

Daniel Marques Pinto
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