Dicionário de Filosofia
5 de Janeiro de 2007 ⋅ Filosofia

Alfa, beta, mente

Desidério Murcho
Dicionário de Filosofia, dir. de Thomas Mautner
Direcção da edição portuguesa de Desidério Murcho
Tradução de Vítor Guerreiro, Sérgio Miranda e Desidério Murcho
Lisboa: Edições 70, 2010, 784 pp.
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Escrever boas obras de consulta é uma arte difícil. Há uma tensão natural entre a precisão e concisão das definições, caracterizações e explicações, por um lado, e a quantidade de informação fidedigna que o artigo consegue transmitir ao leitor. A primeira má solução é a extrema precisão conseguida à custa da inteligibilidade para o leitor a quem a obra, ironicamente, se dirige. É assim que em alguns casos vemos definir, por exemplo, a noção lógica de par ordenado do seguinte modo: "é um n-tuplo ordenado no qual n = 2". Como é evidente, quem não sabe o que é um par ordenado ainda menos sabe o que é um n-tuplo ordenado, e o autor de uma definição destas só pode ser uma besta que com toda a probabilidade nem sequer compreende bem as palavras que se limitou a copiar de um lado qualquer. A segunda má solução, oposta à primeira, é esgotar o espaço disponível com informação acessível mas lateral e irrelevante relativamente ao que constitui os aspectos centrais do que se está a definir, caracterizar ou explicar. Deste modo, o leitor fica com uma ideia distorcida das coisas.

Esta obra dirigida por Mautner é um modelo de um bom dicionário de filosofia. Ao longo de anos de repetidas consultas (a primeira inglesa edição é de 1996) tem-se revelado uma excelente obra de referência rápida, pela precisão e grau de informação dos seus artigos. De dimensão média, não é tão pequeno como o dicionário de filosofia de Lacey (Routledge), por exemplo, nem tão grande e pouco manejável como o dicionário de filosofia da Cambridge. Além disso, os autores têm o seu público-alvo (estudantes e o grande público) firmemente em mente. Com uma linguagem directa e acessível, cada artigo oferece informação precisa e preciosa, incluindo até informação sobre a pronúncia dos nomes menos familiares que constituem o património da filosofia. A sua segunda edição inglesa, revista e aumentada, foi recentemente publicada.

Este dicionário abrange apenas o chamado pensamento ocidental (que inclui o pensamento islâmico medieval), excluindo por isso, ao contrário do Dicionário de Filosofia, de Simon Blackburn (Gradiva), o pensamento chinês, indiano, etc. Redigido por vários autores, contempla pequenas definições de apenas algumas linhas, artigos de dimensão média (uma coluna) e artigos mais longos (algumas páginas). Uma das características que o tornam único é o facto de alguns dos artigos que descrevem as ideias de filósofos contemporâneos terem sido escritos pelos próprios filósofos — "auto-retratos", como lhe chama o organizador. Por vezes, estes auto-retratos são surpreendentes, como é o caso do de Rorty, que não atribui a si próprio o tipo de ideias extravagantes que o tornaram famoso. Entre os filósofos que escreveram auto-retratos para este dicionário contam-se Peter Singer, John R. Searle e Isaiah Berlin.

O dicionário é particularmente esclarecedor em áreas que costumam ser muitíssimo maltratadas por autores obscuros e explicações pretensiosas que nada explicam. Os artigos dedicados à hermenêutica e a Jean-Paul Sartre, por exemplo, são muitíssimo directos, claros e informativos. Igualmente de destacar é o artigo sobre Locke, que revela com imensa precisão um autor muito mais sofisticado do que por vezes se pensa.

De "abdução" a "zeugma", este é um dicionário de filosofia que valia mesmo a pena traduzir.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (8 de Julho de 2006)

Nota

Em 2010 foi publicada a versão portuguesa deste dicionário.

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