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Opinião

Uma questão de dignidade

Maria João Cantinho

"Devemos ter vergonha de morrer até termos obtido alguma vitória em prol da humanidade."
Horace Mann

No passado mês de Agosto, enquanto o país partia de férias, o Ministério da Educação propôs a discussão dos programas de filosofia do 10.º e 11.º anos, limitando essa discussão à Internet . Talvez não tenha sido de má-fé. Mas correcto é que não foi. Só com dificuldade poderíamos acompanhar essa discussão. Mas, enquanto muitos de nós partiram para descansar, houve pessoas que a acompanharam e elaboraram um parecer que, a meu ver, se encontra solidamente fundamentado. Houve um esforço para melhorar a situação do ensino da filosofia no nosso país.

Todos os professores de filosofia sabem que esta disciplina se encontra realmente em vias de extinção. Nada tem sido feito para melhorar realmente os seus aspectos negativos e a degradação é claramente visível. Cada vez mais repetimos esse gesto sem sentido que é ensinar os nossos alunos a repetir os textos filosóficos, de forma acéfala e acrítica. Cada vez mais sentimos que a filosofia se parece com tudo menos com ela própria. Que é feito da capacidade de argumentação e de discussão crítica? Que é feito da abordagem clara e despretensiosa do pensamento? Por que razão nos preocupamos cada vez menos em abordar questões concretas e problemas éticos, limitando-nos a papaguear citações obscuras e conceitos mais ou menos estafados que nada têm a ver com o que se faz actualmente no resto do mundo? E depois admiramo-nos quando esses seres, bombardeados por "clichés" gastos, nos perguntam, com um ar desesperado: "Mas não há filósofos modernos? Estão todos mortos?" Pois é, coloquem-se no lugar deles e verifiquem como eles conseguem ser mais críticos que nós, percebendo o anacronismo em que laboramos.

Várias são as razões que subjazem ao presente estado de coisas. A filosofia tem por base toda a espécie possível de lobbies, menos o que deveria ser a sua raiz. Curiosamente, e apesar da sua aparente inocência, ela tem sido um precioso instrumento do poder, a vários níveis. Os programas que se leccionam no secundário (e também na Universidade) são um sinal claro de tal estado de coisas. A confusão instalou-se definitivamente e ninguém se entende. Cada vez mais ela se confunde com literatura, com religião e misticismo. E essa atitude é muito grave, pois torna-a dependente de princípios que nada têm a ver com a sua verdadeira natureza. Quem gosta de palavras estranhas e difíceis (eu diria mais, impronunciáveis) pode também ir à filosofia, pois lá as encontrará numa selvática proliferação. E quem não tem nada a dizer, no mais extremo dos casos, também lá pode ir e roubar uma citação mais ou menos sibilina e aplicá-la indiscriminadamente...

Isto deveria ser um sério aviso. Por vários motivos, entenda-se. É que se nós, professores de filosofia, não formos capazes de ensinar os jovens a ser críticos, quem o fará? Limitar-se-á a filosofia a debitar conteúdos gastos? Ou haverá filósofos novos e haverá filosofia, ainda? E se esses jovens não aprenderem a pensar, coisa que nós temos obrigação de lhes ensinar, que espécie de barbárie nos reservará o futuro? Por quanto tempo aguentaremos essa situação?

Basta. Eu não digo que é preciso fazer uma revolução nem sair para a rua, empunhando uma arma. Não é necessário fazer guerras nem insultar o sistema (o que nós gostamos tanto de fazer, quando não assumimos a nossa própria culpa). A única arma de que precisamos é o diálogo. Com urgência! O diálogo crítico de onde nascem as grandes decisões e onde, pouco a pouco, assistimos à verdadeira mudança. Sejamos optimistas, mas também é necessário que façamos algo por esse optimismo, que nos preocupemos e que, séria e honestamente, nos empenhemos naquilo que é a nossa responsabilidade. Já não consigo ouvir as imputações ao sistema, nem as queixas diárias dos professores que, desanimados, dizem não conseguir já leccionar o seu programa (já nem conseguimos ouvir-nos a nós próprios quanto mais leccioná-lo!). Comecemos por um simples gesto. Discutir o tal malfadado programa. Discuti-lo a sério, com garra e não com a displicência habitual que origina a inevitável frase: "Ah, mas eles fazem o que querem!"

Eu escrevi este artigo porque hoje ouvi um professor dizer "Mas é mesmo importante, discutir isso?" E eu senti-me envergonhada, até ao fundo do coração. Não queria acreditar... Perguntei-me a mim mesma: "Para onde foram os portugueses?"

Caros colegas, não é preciso ser doutorado em filosofia nem ser um génio para discutir um programa de filosofia. É preciso é honestidade e convicção. É preciso acreditar que o que fazemos vale a pena e que pode melhorar o mundo. É preciso olhar para o que se vai fazendo por aí, estar atento ao que se faz e ao que está feito, no sentido de evitar o que antevejo como catastrófico. Não podemos é cruzar os braços e continuar como se nada acontecesse. Nem depositar nos outros a nossa responsabilidade. É uma questão ética. É uma questão de dignidade!

Maria João Cantinho
mjcantinho@hotmail.com
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