O Rato de Biblioteca, de Carl Spitzweg  (1808-1885)
22 de Fevereiro de 2006 ⋅ Filosofia

Distinções confusas e nocivas

Pedro Madeira
King's College London

Este artigo começou a sua existência como a primeira parte de um outro artigo que escrevi, "A Distinção Confusa e Nociva entre Éticas Formais e Éticas Materiais". Ao escrever esse artigo, fui-me apercebendo de que a própria noção de "distinção confusa e nociva" era suficientemente complexa — e suficientemente interessante — para merecer um artigo à parte.

Oficialmente, este artigo consiste numa série de considerações metodológicas gerais sobre o que são distinções, e sobre que tipo de distinções devemos evitar usar. No entanto, creio que o artigo será também de interesse para quem esteja interessado no tópico dos universais e no tópico da vagueza.

O que são distinções?

Antes de explicar o que são distinções confusas e nocivas, é preciso explicar o que são "distinções" — algo que não é tão simples como parece. A palavra "distinção" costuma ser usada de modo subtilmente ambíguo. Umas vezes, usamos a palavra "distinção" para nos referirmos a um critério usado para pegar em coisas e separá-las em grupos. Outras vezes, usamos a palavra "distinção" para nos referirmos aos grupos de coisas que são formados através da aplicação desse critério.

A diferença é intuitiva e fácil de perceber. Uma coisa é o critério usado para pôr umas pessoas num canto da sala, e outras pessoas noutro canto; outra coisa é os dois grupos de pessoas propriamente ditos. Dois critérios diferentes podem resultar, nalguns casos, na formação dos mesmos grupos. Suponhamos que uma pessoa quer pôr os solteiros num canto da sala, e os casados noutro canto; e que outra pessoa quer pôr os adeptos do Benfica num canto da sala, e os do Sporting noutro canto. (Para não complicar desnecessariamente o exemplo, estamos a partir do princípio de que todos os que estão na sala são adeptos de um clube ou de outro.) Agora passa-se o seguinte: por acaso, todos os adeptos do Benfica naquela sala são casados, e todos os adeptos do Sporting naquela sala são solteiros. Quererá isso dizer que os dois homens tinham em mente a mesma distinção? Não — os grupos por acaso são os mesmos, mas o critério empregue é diferente. Estamos, por isso, face a duas distinções diferentes.

O que este exemplo demonstra cabalmente é que o termo "distinção", quando propriamente empregue, se refere exclusivamente a um critério de formação de grupos, e não aos grupos que são formados através da aplicação desse critério.

Quando negligenciamos o alcance desta simples intuição, podemos acabar por ficar com coisas algo estranhas como a teoria dos universais de David Lewis, de acordo com a qual um universal nada é senão o conjunto de todas as suas exemplificações possíveis e actuais. Por exemplo: ser mamífero nada é senão pertencer ao grupo de todos os mamíferos que existem no mundo actual e em todos os mundos possíveis. Isto parece estranho porque parece inverter a ordem natural da explicação: intuitivamente, diríamos que um ser pertence ao grupo dos mamíferos porque é mamífero, e não que é mamífero porque pertence ao grupo dos mamíferos.

Acabei de falar de universais, mas o mesmo problema pode surgir com critérios de formação de grupos. Confundir um universal com todas as suas exemplificações é basicamente o mesmo que confundir um critério com todas as aplicações desse critério. Em ambos os casos, o problema consiste em confundir uma categoria com as coisas que caem no âmbito dessa categoria (estou aqui a usar o termo "categoria" em sentido lato). Por exemplo: confundir o critério que nos manda pôr os solteiros num lado e os casados no outro, com todos os grupos possíveis de casados e solteiros. Confundir o critério com os grupos formados através da aplicação do critério é mau porque, como se mostrou com o exemplo solteiros-casados e adeptos do Benfica-adeptos do Sporting, dois critérios podem levar à formação dos mesmos grupos, mas isso não significa que sejam o mesmo critério.

Embora esteja a dizer que considero errado identificar uma categoria (um universal ou um critério, por exemplo) com o conjunto das coisas que caem no âmbito dessa categoria (as exemplificações e as aplicações, respectivamente), é preciso frisar que não estou a dizer que as pessoas que o fazem estejam a cometer uma falácia, isto é, um erro de pensamento: estou simplesmente a dizer que estão erradas.

É importante não confundir erros e falácias. Estar errado é, simplesmente, acreditar numa coisa falsa. Cair numa falácia é cometer um erro de pensamento. Mesmo cometendo erros de pensamento, podemos chegar a afirmações verdadeiras. Por exemplo: é certamente falacioso argumentar que, se alguns homens são mortais, então as avestruzes são aves. Mas é verdadeiro que as avestruzes são aves.

Um dos casos mais famosos de alguém que acusou indevidamente os adversários de cometerem uma falácia foi G. E. Moore, ao afirmar que quem defendia que as propriedades morais nada eram senão propriedades naturais (como quem dizia que a propriedade que uma acção tinha quando era boa nada era senão a propriedade de dar prazer) estava a cometer a falácia naturalista. A resposta exemplar de William Frankena em "A Falácia Naturalista", um artigo de 1939, foi que chamar "falácias" às posições dos adversários não passava de mera retórica.

A mesma coisa digo-o agora: seria retórico da minha parte afirmar que Lewis e os seus seguidores estão a cometer uma falácia; acho simplesmente que estão errados.

Voltemos à posição de Lewis: por que razão está ela errada? Em última análise, pela seguinte razão: porque não consegue estabelecer qualquer distinção entre propriedades necessariamente co-extensivas, como a propriedade de ter três ângulos e a propriedade de ter três lados. Todos os objectos que têm uma propriedade têm também a outra. Ainda assim, intuitivamente, a propriedade de ter três ângulos parece algo bem diferente da propriedade de ter três lados.

Embora tenha estado a defender, nesta secção, que há que não confundir as distinções com os grupos de coisas formados através da aplicação dessas distinções, no resto do artigo geralmente não chamarei a atenção para isso, para evitar ser pedante. Perceber-se-á pelo contexto se estou a referir-me às distinções ou aos grupos de coisas formados através das distinções.

O que são distinções confusas?

Já expliquei o que são distinções; passo agora a explicar o que significa dizer que uma distinção é confusa. Em primeiro lugar, é importante ter em mente que dizer que uma distinção é confusa não é a mesma coisa que dizer que é vaga. A distinção entre o preto e o cinzento é vaga, mas isso não significa que seja confusa; significa apenas que há casos de fronteira: coisas acerca das quais não sabemos bem dizer se são pretas ou se são cinzentas. O facto de uma distinção ser vaga não significa, necessariamente, que seja uma má distinção. Pelo contrário: muitos filósofos acham que o facto de uma distinção ser vaga pode, por vezes, ser positivo. Se alguém dissesse que a distinção entre o preto e o cinzento não era vaga, acharíamos isso estranho; parece óbvio que há casos de fronteira: coisas acerca das quais simplesmente não há uma resposta definitiva sobre se são pretas ou cinzentas.

Se este exemplo das cores não convence o leitor, pense noutro qualquer, como o da distinção entre equipas de futebol boas e equipas de futebol medianas. Imagine que alguém dizia que tinha um critério infalível para determinar se uma qualquer equipa era boa, mediana, ou má. Tal posição seria estranha, porque não admitiria a existência de casos de fronteira: casos de equipas acerca das quais simplesmente não há uma resposta definitiva sobre se são boas ou medianas.

Seria possível, obviamente, estabelecer uma distinção entre equipas boas e equipas medianas que se baseasse inteiramente em critérios não vagos, como o rácio de golos marcados e sofridos. Mas esse tipo de solução só parece resultar porque "muda as regras do jogo". Ou seja: a nossa distinção intuitiva entre equipas de futebol medianas e equipas de futebol boas não se baseia unicamente no critério do rácio de golos sofridos e marcados. Suponhamos que o partidário desta solução voltava à carga e dizia que seria inteiramente possível fornecer mais critérios, todos eles não vagos, para fundamentar a nossa distinção entre equipas de futebol boas e equipas de futebol medianas.

Esta solução depara-se, fundamentalmente, com dois problemas. Em primeiro lugar, ainda que fossem usados muitos critérios não vagos para fundamentar a distinção (rácio de golos sofridos e marcados, rácio de faltas sofridas e marcadas, rácio de chutos à baliza e golos, etc.), estaríamos a esquecer-nos de uma coisa: as pessoas pura e simplesmente não usam a distinção entre equipas boas e equipas medianas desse modo. Se objectivo era captar o modo como as pessoas vulgarmente usam a distinção, então o projecto falha redondamente. Se o objectivo era fundar uma distinção nova, então ressurge a objecção de há pouco: está a mudar-se as regras do jogo. O propósito inicial era achar um modo de tornar não vaga a distinção comum, e não simplesmente criar uma nova distinção: isso é batota.

Em segundo lugar, ainda que fossem introduzidos muitos critérios para tornar precisa a distinção comum, é quase certo que a vagueza acharia novamente maneira de se introduzir. Num dos filmes da trilogia Parque Jurássico (não me lembro qual), uma personagem qualquer diz, memoravelmente, que "a vida encontrará uma maneira". Estou convencido de que a mesma coisa se passa com a vagueza: "a vagueza encontrará uma maneira". Por mais que a tentemos extrair do nosso pensamento, ela parece encontrar sempre maneira de se reintroduzir. Tomemos o caso mais simples: o dos golos. Porquê dizer, por exemplo, que uma equipa com um rácio de golos 1,5 (isto é, dois marcados por cada sofrido) é mediana, e uma com 1,6 é boa?

As tentativas de acabar com a vagueza "por decreto" parecem estar condenadas ao insucesso porque, das duas, uma: ou não conseguem captar a distinção de senso comum, ou então criam simplesmente uma nova distinção que ninguém usa. E, em qualquer dos casos, a vagueza acaba sempre por se reintroduzir.

Vejamos agora um exemplo claro de uma distinção confusa: a distinção entre marcas que são topo de gama e marcas que não são topo de gama. Esta distinção é confusa porque comete um erro categorial: as marcas de carros não são, nem deixam de ser, topo de gama: só os carros dessas marcas são, ou não, topo de gama. A BMW tem carros que são topo de gama, e carros que não são topo de gama; a mesma coisa se passa com a Honda, a Ford, e todas as outras marcas. Como já foi dito, é preciso prestar atenção a uma coisa: o problema da distinção entre marcas que são topo de gama e marcas que o não são não é ser vaga; não estamos a dizer que há casos de fronteira entre marcas que são topo de gama, e marcas que o não são. O problema é mais fundamental que isso: o problema é que a própria distinção começa logo por ser confusa, porque as marcas não são topo de gama, nem deixam de ser topo de gama: só os carros é que são ou não topo de gama, e não as marcas a que os carros pertencem.

Mas é importante notar que nem todas as distinções que são confusas o são porque estão baseadas em erros categoriais. A distinção entre ética e moral, por exemplo, de que Desidério Murcho já falou noutro artigo, não está baseada num erro categorial. Essa distinção está, ao invés, baseada numa circularidade: só podemos saber que comportamentos morais são eticamente relevantes quando sabemos qual a teoria ética correcta — e vice-versa.

Há inúmeras razões pelas quais as distinções confusas são confusas. Nos dois casos que discuti, são confusas porque incorrem em circularidade ou cometem um erro categorial. É provável que existam várias outras razões, que não me ocorrem agora, pelas quais uma distinção possa ser confusa.

O que são distinções nocivas?

Já expliquei, então, o que significa dizer que uma distinção é confusa. Gostaria agora de explicar o que significa dizer que uma distinção é nociva. Quando falo em distinções nocivas, estou a referir-me a distinções cognitivamente nocivas: distinções que constituem um entrave ao nosso conhecimento. As distinções podem ser nocivas noutros sentidos, evidentemente, mas presentemente estou apenas interessado no sentido cognitivo. Uma distinção é cognitivamente nociva quando não só não nos ajuda a conhecer melhor a realidade, como também dificulta essa tarefa.

Seguindo essa definição, podemos também falar em distinções cognitivamente úteis e distinções cognitivamente inúteis. As distinções cognitivamente úteis são aquelas que nos ajudam a conhecer melhor a realidade; as inúteis não nos ajudam nessa tarefa, mas também não a dificultam.

A distinção entre os talheres que tenho neste momento na mão direita, e os talheres que tenho neste momento na mão esquerda, não é confusa, mas também não é cognitivamente útil. Em nada contribui para o avanço do nosso conhecimento. Obviamente, talvez seja útil noutro sentido qualquer: se estivermos num jantar carregado de certa formalidade, por exemplo, pode ser que seja útil ter em mente que talher devo ter em que mão.

Todas as distinções confusas são cognitivamente nocivas. Não sei se todas as distinções cognitivamente nocivas são confusas. À partida, não vejo razão para negar que possa haver distinções que sejam cognitivamente nocivas, embora não sejam confusas. Talvez sejam cognitivamente nocivas por outras razões que não me ocorrem agora.

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