O Grupo de Discussão (pormenor), de Alfred Hutty (1877-1954)
12 de Setembro de 2004 ⋅ Ensino da filosofia

A filosofia faz-se pensando

Um debate de ideias para estudantes da primeira unidade do 10.º ano
Paulo Jorge Domingues de Sousa

Introdução

Terminei o ano lectivo de 1999/2000 pensando que as aulas expositivas não funcionam bem com o 10.º ano da Introdução à Filosofia. Os alunos foram recebidos na disciplina com uma abordagem teórica que a tornou enfadonha e desmotivante, comprometendo tanto a adesão às actividades da aula como a compreensão profunda e intuitiva daquilo que é a filosofia e de quais são os horizontes que ela nos abre, enquanto pensamento crítico interessado em melhorar a nossa compreensão do mundo e de nós próprios. Caí no erro de falar sobre a filosofia, a partir de fora, e poucas vezes a pus em prática. Os resultados foram maus. Com este tipo de trabalho e de resultados, de modo algum se justifica a inclusão da Filosofia no conjunto das disciplinas de formação geral, dando lugar a aulas enfadonhas que ensinam pouco ou nada que se aproveite e que constitui apenas perda de tempo e de energias. Mea culpa. Das conversas que tive com os outros colegas que leccionaram o 10.º ano durante este ano lectivo, deduzi que algo semelhante se passou com as suas turmas.

Passei a considerar que no 10.º ano devemos apostar mais na motivação do que na erudição. Motivar passa por pôr a filosofia em prática, trabalhando textos e problemas que sejam ao mesmo tempo acessíveis, apelativos, ricos e rigorosos; problemas que interpelem os alunos, que vão ao encontro dos seus interesses ou de temas que lhes são familiares, enquanto adolescentes: liberdade e livre arbítrio; definição do bem e do mal; justiça; fundamentação do poder e da autoridade, etc.

Os textos podem servir-nos de duas maneiras: como pontos de partida para o contacto com problemas — textos "psicadélicos", quer dizer, que abram a mente — e como teorias de referência acerca desses problemas, que constituem respostas histórica e filosoficamente relevantes e que, neste caso, devem ser incluídos em conjuntos de teorias acerca do mesmo problema, como meio de mostrar que a discussão está aberta, e que pode ser feita de forma conceptual e rigorosa.

Deveríamos olhar mais de perto para o programa. A vagueza deste é ao mesmo tempo repulsiva, assustadora e exasperante, por um lado, e acolhedora, por outro, no sentido em que nos deixa a porta aberta à iniciativa e não prescreve metodologias rígidas de abordagem aos temas. Assim sendo, temos liberdade para planificar algo inovador ou, pelo menos, adequado aos alunos. O senão é que isso dá muito trabalho e exige tempo de preparação. A minha experiência tem mostrado que os resultados são proporcionais ao investimento.

A mesma vagueza do programa e a sua estruturação com base em temas sugere que a filosofia seja desenvolvida como prática do pensamento crítico e catalisador da consciência individual. Ora, definir a filosofia como prática obriga-nos a repensar a forma como utilizamos conteúdos e referências. Estes deixam de ter o protagonismo quase exclusivo das aulas, como acontecia com o programa de 1979, passando a ser auxiliares que permitem ao aluno tomar consciência dos problemas e de algumas abordagens aos mesmos. Se seguirmos este caminho devemos ter o cuidado de evitar o erro; que a generalidade dos manuais (todos?) comete, de fornecer textos excessivamente curtos de muitos autores, sem que se defina com clareza a tese de cada um e construindo uma espécie de síntese, mais ou menos incoerente, de diferentes perspectivas.(1) Sou da opinião de que devemos dar textos completos, claros, acessíveis e exemplificativos de um problema (ou de uma resposta), como base a partir da qual o aluno irá organizar os seus conhecimentos, desenvolver questões, interpelar os autores e construir a sua própria opinião fundamentada.

Sou igualmente da opinião de que o uso de obras e autores de referência, acerca de um determinado problema filosófico, é um meio que facilita o envolvimento dos alunos na aula e os estimula a pensar por si. Isto porque o texto de referência é algo que, do ponto de vista de alunos médios e bons, escapa ao domínio magistral do professor — os alunos podem pensar com a sua própria cabeça acerca daquilo que lêem directamente na fonte, ganhando a capacidade de colocar hipóteses, levantar dificuldades ou até de discutir as ideias dos professores. O professor seria, assim, aquele que dá a conhecer diferentes autores e que estimula, orienta e corrige os alunos, quando for necessário, dando-lhes ao mesmo tempo a liberdade e os instrumentos para pensarem por si mesmos. As regras e os princípios da argumentação filosófica deveriam aqui ser constantemente postos em prática.

Os nossos fins serão sempre 1) a discussão de ideias, como prática filosófica de base, 2) adquirir noções de base para podermos discutir os problemas discutidos e, se possível, 3) permitir que os alunos contactem com ideias ou teorias que os ajudem a enriquecer a sua perspectiva sobre si e sobre o mundo.

Será possível aplicar este modelo em todas as turmas e obter bons resultados? Suponho que não, mas acho que as turmas com as quais este trabalho não resultar serão imunes a qualquer outra prática.

Um problema importante originado pela viragem em direcção à filosofia como prática é o da avaliação. Temos de voltar a ponderar a importância do conhecimento de conteúdos; temos de valorizar uma série de competências tais como a capacidade de análise, a capacidade de argumentar, a capacidade de desenvolver ideias originais, o rigor na formulação das ideias e argumentos alheios e o respeito pelas opiniões contrárias.

Isto é um problema por dois motivos. O primeiro é o facto de nós, professores de filosofia do secundário, estarmos pouco ou nada habituados a realizar outro tipo de avaliação que não o velho teste escrito concebido para o estudante despejar a matéria, mas não para mostrar que é capaz de pensar por si. O segundo é a necessidade de, no final do ano lectivo, se realizar uma prova global, o que exige um forte trabalho de preparação e de concertação por parte dos professores que leccionem o mesmo nível. Em síntese, há três coisas que terão de ser postas em prática para que a filosofia, como prática, deva ser desenvolvida com rigor e cuidado:

Neste trabalho proponho a planificação de uma actividade no início da primeira unidade do programa de Introdução à Filosofia. Irá obedecer aos pressupostos que acima enunciei. Outros temas ou unidades deste programa podem ser tratados da mesma maneira, com grandes ganhos: os valores; o percurso de um tema filosófico, etc. Basta alguma preparação e a capacidade de confiar aos alunos uma parte da responsabilidade pela sua própria aprendizagem.(2)

No meu trabalho sigo o seguinte raciocínio: a filosofia faz-se pensando e discutindo problemas filosóficos, analisando teses e argumentos. Convém, pois, saber o que são problemas filosóficos e o que não são problemas filosóficos. Destaco duas ideias: a de que a filosofia é uma actividade de uma comunidade de pessoas e a de que essa actividade exige o exercício da argumentação. Esta tem como objectivo o progresso pessoal e do grupo em direcção à verdade, e deve ser consequente. Devemos compreender que o cumprimento desses requisitos nos obriga a respeitar algumas regras básicas, que procuraremos pôr em prática, e a pressupor que a verdade é algo que é independente da nossa vontade e dos nossos interesses.

Os objectivos deste plano de aulas são os seguintes:

Aquilo que se segue é o conjunto de noções que se destinam a introduzir conceitos e regras e a preparar a actividade final.

Tenho consciência de que é um passo arriscado avançar para um debate de ideias sem desenvolver os conceitos de falácia ou validade e verdade. Seria um exercício teórico coxo. Contudo, recorde-se que os objectivos deste trabalho se prendem com a motivação do aluno para a disciplina no momento em que nela é iniciado e com a apresentação da própria filosofia como actividade argumentativa. O maior ou menor rigor e aprofundamento na apresentação dos conceitos e na realização dos exercícios abaixo propostos tem de ser decidido tendo em conta o caso específico de cada turma, claro está.

No ano lectivo de 2000/2001 apliquei este modelo a quatro turmas (razoáveis ou boas), incluindo o exercício de argumentação que aqui é planificado, com algum sucesso. Nem sempre tive a inspiração e a arte necessários para o fazer brilhar; por outro lado, houve momentos em que foi preciso leccionar noções de base e analisar teorias, por vezes sem a base documental suficiente. Todavia, os resultados globais foram bons: muitos dos alunos sentiram-se estimulados, mostram o seu pensamento com razoável correcção, tomam a iniciativa de colocar hipótese e de formular questões e apropriaram-se dos problemas, de noções de base e de algumas teorias.

A maior dificuldade que senti foi a de estabelecer, ao longo do programa e da planificação, momentos destinados a praticar e a aperfeiçoar a prática da argumentação. Talvez os motivos tenham sido a pressão para "dar a matéria" com um determinado preceito, a preocupação em justificar a compra, por parte dos alunos, do manual que alguém considera obrigatório, a excessiva preocupação em avaliar os alunos através de testes com um perfil inadequado e a falta de tempo para pensar estratégias e seleccionar materiais. A repetição do exercício de argumentação poderia permitir, em princípio, um aperfeiçoamento do domínio das técnicas argumentativas e a sua interiorização, como base para um bom trabalho e técnica de apoio à expressão oral e escrita.

I. Apresentação da filosofia

1. A filosofia faz-se a pensar e a discutir sobre problemas filosóficos

As ciências estudam determinados tipos de problemas; por exemplo, porque é que se formou o buraco no ozono e quais as consequências que daí nos podem advir? Cada ciência estuda um determinado tipo de problemas. A biologia estuda problemas relativos aos seres vivos e aos ecossistemas, por exemplo, e a psicologia estuda problemas relativos aos comportamentos. Como resultado das suas investigações, acumulam conhecimentos e formulam teorias acerca desses problemas. Estes podem ser conceptuais ou abstractos, como os da matemática, ou empíricos, como os da biologia ou da história. As teorias, formuladas como tentativas de responder aos problemas formulados, são apoiadas por argumentos, quer dizer, por factos, raciocínios ou outros elementos que mostrem que as conclusões a que a teoria chega estão bem justificadas e provadas

A filosofia tem semelhanças com as ciências, por ser um trabalho rigoroso, realizado por um conjunto de investigadores e que procura ajudar-nos a ter uma melhor compreensão do mundo. Porém, tem algumas diferenças importantes em relação às ciências: em vez de trabalhar com problemas empíricos, trabalha com problemas conceptuais e abstractos (como a matemática); em vez de usar demonstrações matemáticas para estabelecer resultados, usa a argumentação e a discussão de ideias. Por não serem empíricos, os problemas da filosofia são difíceis de resolver. Por não haver métodos formais de demonstração, não há muito consenso entre os filósofos.

Uma vez que os problemas da filosofia não admitem respostas simples e óbvias, necessitam de um intenso e permanente debate de ideias. E como não são problemas que se resolvem através de provas empíricas ou demonstrações matemáticas a única maneira de os investigarmos é através do pensamento. É por isso que dizemos que a filosofia se faz pensando. Para filosofar é preciso pensar, e aqueles que pensam (e pensar é pensar pela sua própria cabeça) são bons candidatos a filósofos.

Por vezes os debates da filosofia são acerca de problemas aparentemente simples e banais, mas dos quais depende grande parte da nossa vida e do nosso pensamento: problemas relativos à justiça, à certeza daquilo que dizemos e pensamos, aos princípios que orientam a nossa vida e a nossa relação com os outros, à morte e ao sentido da vida, etc.

Eis alguns exemplos de problemas filosóficos e de problemas não filosóficos:

Problemas filosóficos Problemas não filosóficos
Porque é que é injusto que as mulheres tenham menos direitos civis do que os homens? Quantas horas passam as mulheres a trabalhar (incluindo em sua casa)? E os homens?
Devemos ter plena confiança na ciência? Porque é que em Portugal quase não chove durante o Verão?
Existe algum problema em usar uma palavra em mais do que um sentido? O que é um banco?
Devemos proibir a clonagem de seres humanos? Como se faz uma clonagem?

Durante os próximos dois anos contactarás melhor com os problemas da filosofia. Desejo-te um bom contacto. Entretanto, conserva a ficha "Disciplinas filosóficas e exemplos de questões". Se quiseres aprofundar os teus conhecimentos podes ler o livro Que Quer Dizer Tudo Isto?, de Thomas Nagel, editado pela Gradiva — custa 1400$00 ou uma ida à biblioteca.

2. Pensar sobre problemas filosóficos é algo que deve ser feito em conjunto com outras pessoas que partilhem o mesmo interesse pela verdade (seja lá o que isso for)

Já vimos que os problemas da filosofia não são fáceis de abordar, por não serem problemas empíricos e por não se resolverem como os problemas da matemática. A matemática e as ciências naturais têm essa facilidade, mas a filosofia não. Os problemas da filosofia só se tornam claros e presentes à força de pensarmos sobre eles. O problema de saber o que é a justiça, por exemplo, é um desses problemas. Só nos apercebemos do problema se tomarmos consciência da justiça, e não por um dia irmos na rua e tropeçarmos numa definição. Podemos até ler uma excelente definição de justiça, mas ela nada nos diz se à partida não conhecermos intuitivamente o que é isso a que chamamos “justiça”.

Já imaginaste como seria difícil chegar a estes conceitos e pensá-los sem a ajuda de outras pessoas? Seria quase tão difícil como aprendermos a falar chinês a partir de um manual escrito em chinês e sem a ajuda de um professor. Pensar em conjunto, trocando ideias com outras pessoas, é importante não só para aprendermos coisas com as outras pessoas como também para aperfeiçoarmos as nossas ideias, na medida em que temos de as organizar para as apresentar aos outros, em que os outros podem não concordar com as nossas opiniões, mostrando que elas estão erradas e incompletas, e obrigando-nos a melhorar as nossas ideias. O contacto com os outros, sobretudo quando são pessoas de boa vontade, estimula-nos e enriquece-nos.

3. Toda a gente está convidada para pensar sobre problemas filosóficos, mas...

Alguns destes problemas são considerados importantes por praticamente toda a gente e sobre os quais todos sentem que têm algo a dizer. Todavia, o facto de termos sido convidados para uma festa não nos dá o direito de lá aparecer de qualquer maneira. Quando vamos para uma festa temos o cuidado de escolher uma roupa especial, penteamo-nos com mais cuidado, etc. Da mesma forma, ao sermos convidados para uma discussão filosófica não devemos entrar nela de qualquer maneira. Devemos ir preparados.

O que é que isto quer dizer? Quer dizer simplesmente que se queremos aprender qualquer coisa com esta discussão, devemos respeitar algumas regras básicas e universais. Aqui estão elas:

  1. Em primeiro lugar, a discussão de que aqui se fala significa debate; troca de ideias e de argumentos.(3) Não devemos confundir este sentido do termo com o sentido mais vulgar, segundo o qual discutir é insultar e gritar.
  2. As discussões devem ser consequentes. Quer dizer, devemos explorar e aceitar as consequências lógicas das nossas ideias. E se não gostamos das consequências, temos de mudar de ideias.
  3. A partilha e o aperfeiçoamento de ideias em direcção à verdade são os objectivos de uma discussão, e todos os que nela participam estão à partida comprometidos a respeitá-los. O objectivo da discussão é descobrir a verdade, independentemente de saber quem tem razão, e não fazer valer a nossa opinião, independentemente de ela corresponder à verdade.
  4. Uma discussão filosófica exige honestidade, humildade e vontade de aprender e progredir. Honestidade porque devemos dizer o que pensamos, baseados em factos ou em bons argumentos, sem estar a querer enganar o outro ou a brilhar à sua custa. As pessoas vaidosas e arrogantes são um obstáculo a uma discussão honesta. Humildade porque devemos aceitar rever as nossas ideias, se forem apresentadas boas razões para o fazermos. A vontade de aprender e progredir na direcção da verdade ou de uma melhor e mais clara compreensão dos problemas é o que nos move.

Quando entramos numa discussão, devemos pôr em prática uma série de capacidades:

4. Problemas, teorias e argumentos

Uma discussão filosófica construi-se com base em problemas, teorias e argumentos. A ordem em que aparecem é geralmente esta.

Já vimos acima que a formulação dos problemas é um passo de grande importância. Um problema mal formulado gera confusões, erros de interpretação ou mesmo conceitos desadequados e sem sentido. Estes últimos podem ser falsos problemas (problemas sem sentido)(4). Uma boa formulação permite uma mais fácil exploração do problema em outros que a ele estejam ligados, e permite uma investigação estruturada e objectiva. Além disso, para que a discussão funcione e todos se entendam, é necessário que haja acordo sobre a formulação do problema.

As teorias são as ideias ou opiniões que os indivíduos defendem acerca de determinado problema. Por exemplo, posso considerar injusto que as mulheres tenham menos direitos civis do que os homens, porque elas trabalham mais e têm mais responsabilidades do que os homens; outra pessoa pode defender a mesma ideia justificando-a de outra maneira; outra pessoa ainda pode apresentar uma ideia contrária à minha, defendendo-a (justificando-a) com outras razões. As teorias são compostas pela tese e pelos argumentos que a sustentam.

Os argumentos são as justificações e defesas de que acabámos de falar. Por vezes podemos argumentar com base em factos, devidamente analisados. Por exemplo, comparando o número de horas de tempo livre que homens e mulheres usufruem numa semana. Outras vezes a argumentação é conceptual e teórica. Por exemplo, quando discutimos uma definição de justiça ou quando investigamos conceitos abstractos como os de substância ou de referência.

É na argumentação que se apoia a teoria — sustentar a teoria é o objectivo do argumento. Uma teoria sem argumentos não tem valor filosófico ou científico. Não nos permite compreender o que diz e foge à discussão. Aquele que emite opiniões sem apresentar factos ou ideias que a sustentem está a agir de forma pouco rigorosa e enganadora — tal como alguém que acusa um político de ser corrupto sem apresentar provas está a praticar uma calúnia. Além disso, não vale a pena falar com alguém que não argumenta, até porque essa pessoa não está disposta a ouvir-nos e não respeita as regras da discussão.

Se queremos questionar uma teoria, devemos verificar os argumentos que a apoiam. Se houver um argumento, do qual ela dependa, que esteja errado ou seja fraco, podemos recusá-la ou, pelo menos, devemos obrigar o seu autor a aperfeiçoar os seus argumentos. Não esqueçamos: discutir é poder criticar as opiniões que pretendem dar resposta a um problema — as nossas e as dos outros.

5. Verdade, conhecimento e opinião

Este é um ponto difícil e que exige maior concentração.

A verdade não é uma propriedade das coisas. É, sim, uma propriedade das frases que fazem afirmações sobre as coisas. Se aquilo que a frase afirma está de acordo com a realidade, a frase é verdadeira. Se não corresponder à realidade, a frase é falsa. O nosso ideal, aquilo que desejaríamos, era um acordo perfeito entre as nossas teorias e a realidade.

O conhecimento envolve crença, justificação e verdade. Verdade porque há conhecimento, propriamente dito, quando aquilo que pensamos ser verdadeiro é mesmo verdadeiro. O problema é que por vezes nós pensamos que algo é conhecimento, isto é, pensamos que sabemos algo, mas estamos enganados. Ao dizermos isto estamos a ter consciência de uma das descobertas mais fundamentais da filosofia: que nos enganamos e que as nossas opiniões podem ser corrigidas e aperfeiçoadas. No entanto, o conhecimento é um tipo de crença: é um tipo de crença em que aquilo que pensamos que é verdade é mesmo verdade. Mas além disso, dizemos que conhecemos algo quando temos uma justificação para dizer que conhecemos isso, e não apenas porque por puro acaso acreditamos numa coisa que é verdadeira.

A opinião ou crença é quase conhecimento. O problema é que este quase é muito grande. Temos opiniões quando não há factos que mostrem claramente como as coisas são. Os argumentos são importantes na justificação do conhecimento, mas são-no muito mais para as opiniões. É urgente que uma opinião deixe de o ser.

6. A filosofia é uma coisa viva

A filosofia apela para uma discussão constante de problemas que são aparentemente simples e que têm uma importância central na nossa vida e no nosso pensamento. A filosofia é esta discussão, e por isso continua viva e cheia de vitalidade.

Podemos ressuscitá-la modestamente, em conversas mais cuidadas que vamos tendo. Ela é também mantida por investigadores e especialistas que a desenvolvem a níveis que tu não sonhas e que eu conheço mal.

II. Porque é que pensar é importante? Tu sabes pensar? Pensar é uma coisa que se saiba?

Este segundo ponto consiste no desenvolvimento de um conjunto de actividades, pelo que a sua apresentação prescinde de um discurso construído como se fosse para ser directamente apresentado aos alunos, salvo aquando da apresentação dos exercícios, que aparecerão enunciados como se fossem ser propostos aos alunos.

Começa-se por rever as capacidades que temos de pôr em prática numa discussão.

Aos alunos é distribuído o texto “Resposta à pergunta "O que são as luzes?"”, de Immanuel Kant, e o mesmo é lido em voz alta durante os primeiros quatro parágrafos (uma vez que esta estratégia supõe pelo menos duas aulas, os alunos ficarão encarregues de, em casa, terminarem a leitura do texto). De seguida é-lhes pedido que leiam silenciosamente os mesmos quatro parágrafos e são-lhes distribuídas as seguintes tarefas:

Actividade 1

Tarefas

  1. Identifica a tese central do texto — qual é a afirmação mais importante que o autor defende?
  2. Podemos considerar essa tese como uma conclusão. Que argumentos são usados pelo autor para apresentar essa conclusão? Simplifique-os e apresente-os por palavras suas.
  3. Diga se, na sua opinião, os argumentos do autor sustentam a conclusão.
  4. Concorda com a tese de que um ser humano que não pensa não merece ser chamado de ser humano? Fundamente a sua tese em bons argumentos.

Após o exercício o professor analisa as teses do texto em conjunto com a turma, destacando três: que somos senhores de nós próprios se pensarmos pela nossa própria cabeça; que o progresso social exige uma opinião pública bem formada, activa e estimulante; que é preciso saber pensar.

Actividade 2

Título: O que é saber pensar?

Objectivos: estimular o pensamento, individualmente e em conjunto; estabelecer uma base conceptual, a partir dos alunos, sobre o que é e para que serve o pensamento; facilitar a compreensão de que, se pensar é importante, a filosofia, sendo uma das áreas de estudo do pensamento, é igualmente importante e estimulante.

Estratégia: Brainstorm

Brainstorm, ou tempestade de ideias, é uma estratégia ou técnica de trabalho em grupo que consiste em desencadear uma torrente de ideias, conceitos e outras palavras, sem regra prévia, aceitando até ideias que possam parecer descabidas ou disparatadas. Constitui-se um "monte" a partir do qual se faz uma selecção, em conjunto, dos itens interessantes. Geralmente é uma estratégia que envolve os alunos, porque aquilo que dizem é ouvido e registado, e porque tentam fazer boa figura junto dos colegas, quer pela quantidade, quer pela qualidade das intervenções.

Se os alunos se encontrarem motivados, é previsível que esta estratégia dê bons resultados. O tema é aliciante e o texto de Kant, que serviu de ponto de partida, já deu bons resultados com uma turma apática à qual leccionei. Em qualquer caso, alguns itens definidores do saber pensar foram já expostos acima e recordados no início deste ponto 2.

É desejável que a caracterização do saber pensar a que se chega no final seja funcional, correcta e fluida, sem grandes perdas de tempo e de energia, mas é igualmente desejável que se baseie nas contribuições dos alunos, porque disso depende o crescimento da motivação. Dessa motivação depende uma boa compreensão e assimilação deste ponto da matéria, que se deseja que funcione como um elemento organizador do trabalho subsequente. (Por essa mesma razão o desenvolvimento do resto do currículo e a actuação do professor durante o resto do ano deverão ser congruentes com aquilo que agora está a ser dado a entender aos alunos.)

Actividade 3

Leitura e análise do texto “Sobre o Suposto Direito de Mentir por Amor à Humanidade”, de Kant (alguns parágrafos devem ser omitidos).

Os alunos seguem uma primeira leitura em voz alta e fazem uma segunda leitura silenciosa, já com conhecimento das tarefas. Entretanto, divide-se a turma em dois blocos de alunos, A e B, e realizam as duas tarefas seguintes. A última tarefa deverá ser realizada por todos e servirá de preparação para um debate final (o que exige que dois alunos sejam designados secretários para anotarem as intervenções e moderarem o debate).

  1. Identifique a tese de Benjamin Constant citada por Kant.
  2. Identifique, organize, complete e exponha os argumentos de Constant.
  3. Identifique a tese de Kant.
  4. Identifique, organize e exponha os seus argumentos.
  5. Escreva a sua opinião fundamentada sobre o mesmo assunto.

Actividade 4

Teste formativo

  1. Explique, por palavras suas o que são questões filosóficas, o que as caracteriza e qual é maneira que a filosofia tem de as investigar.
  2. "É preciso saber pensar em conjunto". Explique esta frase dizendo a) o que é pensar em conjunto e porque é que isso é importante; e b) o que é pensar bem.

Actividade 5

Jogo de papéis — debate público de ideias

Apresentação (oral):

O jornalista e novelista Luís Sepúlveda, no seu livro Patagónia Express (Edições ASA, col. Pequenos Prazeres) fala-nos de uma nação índia da América do Sul que elegia os seus chefes através de um concurso de retórica. Vencia aquele que melhor soubesse falar e conquistar o público. No México ainda se realizam concursos de retórica que entusiasmam plateias, e os concorrentes são estimados e admirados.

De uma forma ultrasimplificada, podemos definir a retórica como a arte de bem falar. Este é um bem falar que visa informar, mas sobretudo persuadir o outro, influenciando-o de maneira a ele pensar de determinada maneira a ou a agir de uma certa forma. Este objectivo pode ter em vista o bem e o mal: tanto podemos usar a retórica para convencer os outros do direito fundamental de todos os seres humanos à vida como a podemos usar para levar os membros de uma seita religiosa a realizar um suicídio colectivo.

A retórica que é feita com más intenções é, geralmente, uma má retórica. O que a tornam má não são apenas os seus objectivos, mas sobretudo o facto de apelar a argumentos que não são verdadeiros argumentos, porque não são racionais: a agressividade, o medo e outras emoções básicas; preconceitos; mentiras e falsidades; verdades incompletas, etc. A boa retórica é aquela cujas regras e argumentos são consensualmente aceites como válidos, aquele que se enquadra numa verdadeira discussão. Esta é a retórica que obedece às regras e princípios da civilidade democrática.

Hoje iremos realizar um debate público de ideias, no qual iremos testar a capacidade de cada um de nós argumentar bem. Há vários temas à escolha para os quais recolhi informação para começarem a trabalhar. Dividiremos a turma num número par de grupos e cada um desses grupos irá debater um tema. A discussão deverá obedecer a regras que vos darei de seguida. No final, cada grupo será avaliado pelo público, o qual terá à sua disposição uma grelha de observação para cada grupo. Quem somar maior número de pontos ganhará o debate.

Regras

  1. Será formado um número par de grupos.
  2. Cada par de grupos debaterá um tema e nomeará, por consenso, um moderador.
  3. Cada par de grupos terá acesso à mesma documentação de base fornecida pelo professor e compromete-se a pesquisar informação adicional.
  4. Cada grupo preparará a defesa de uma posição. Se não houver acordo na distribuição das posições a favor e contra fazer-se-á um sorteio. O facto de se defender a posição a favor implica que se investigue a posição contra, e vice-versa.
  5. Os grupos falarão alternadamente por períodos até 1 minuto de duração. Sortear-se-á o primeiro grupo a falar. Se qualquer grupo assim entender, poderá ser-lhe dada uma tolerância 30 segundos para preparar a sua resposta.
  6. Cada grupo falará apenas na sua vez.
  7. Cada grupo responderá a partir da posição do grupo opositor e está obrigado a fazer uma pequena síntese da intervenção do opositor.
  8. No final, cada grupo sintetizará as posições do seu oponente.
  9. Todos os participantes assumem o compromisso de escutar e compreender os argumentos dos seus oponentes, o compromisso de serem críticos, o compromisso de avaliar ideias e não pessoas, e o compromisso de serem imparciais (as ideias não são melhores por serem defendidas por este ou por aquele).
  10. Todos assumem a verdade e o progresso do conhecimento como compromisso de honra, mesmo que tal obrigue a abandonar as suas ideias iniciais.
  11. Todos devem assumir que nenhum ponto é um impasse e que o diálogo deve prosseguir sempre, não aceitando os impasses.

Grelha de observação e avaliação (cada aluno preenche uma para cada par de grupos).

Preenche a seguinte grelha atribuindo uma classificação de 0 (muito mau) a 5 (muito bom) a cada grupo. Sê rigoroso, objectivo e imparcial.

  G1 G2
1. Resumiu sempre a tese do oponente antes de responder.    
2. Baseia os seus argumentos em factos.    
3. Não usa argumentos baseados na emoção.    
4. Não faz ataques à pessoa de um seu oponente.    
5. Respeitou a vez dos outros.    
6. Define os conceitos que usa.    
7. Preparou bem o debate.    
8. Escuta os oponentes e procura compreendê-los.    
9. Aceita modificar as suas ideias.    
10. É crítico em relação aos outros.    
11. É crítico em relação a si.    
12. Aceita críticas.    
Observações:    

Cada grupo participante preencherá uma grelha com a sua autoavaliação. Os grupos serão confrontados com os dados da avaliação feita pelos colegas.

A grelha elaborada pelo professor e a observação directa do empenho demonstrado, da informação recolhida, da assimilação das regras e do respeito pelo enunciado serão os elementos a partir dos quais se fará a avaliação dos alunos.

Paulo Jorge Domingues de Sousa
paulo.sousa-3@clix.pt
Trabalho realizado no âmbito da Acção de Formação "O Pensamento Crítico e a Tradição Socrática na Sala de Aula", leccionada por Desidério Murcho.

Notas

  1. "Este é um problema recorrente no nosso ensino. Surge, em grande parte, porque não há uma consciência da distinção entre noções de base e doutrinas substanciais. O problema é o seguinte: temos de ensinar, por exemplo, ética. Mas há várias doutrinas éticas, incompatíveis entre si. E não temos tempo para dá-las todas. Que fazer? Em geral, faz-se uma amálgama muitas vezes incoerente de várias doutrinas. Mas o que se deve fazer é o seguinte: 1) começar por observar a área de problemas de ética e ver, dos problemas mais importantes, quais são os de mais fácil compreensão, para começarmos por eles. 2) Observar a área e ver que tipos de noções são independentes das diferentes doutrinas, isto é, quais são as noções de base da área. Por exemplo, a distinção entre ética, meta-ética e ética aplicada é fundamental e neutra. Olhando para as noções de base, devemos escolher as que são instrumentais para o estudante poder começar a pensar por si nos problemas da ética. 3) Quando se começar a estudar as diferentes teorias dos diferentes autores, faremos também aqui uma escolha: das mais importantes, seleccionamos as mais adequadas para os estudantes. Mas como o estudante já contactou directamente com os problemas, e como já está na posse das noções de base instrumentais, pode verdadeiramente avançar para o estudo das teorias e dos argumentos dos filósofos com um espírito crítico: pode, em suma, discutir com eles, concordar ou discordar da teoria ética de Kant, por exemplo, porque já pode fundamentar a sua posição." Desidério Murcho, em comentário a este trabalho.
  2. Devemos ser exigentes e rigorosos quanto à qualidade do material que nos é apresentado. Fasquias baixas conduzem a resultados medíocres. Se no início do ano lectivo devemos ser algo tolerantes e compreensivos em relação às falhas dos alunos, gradualmente devemos tornar-nos mais exigentes, não tendo receio nem vergonha de dar más notas. Por sua vez, se queremos ser exigentes devemos dar ao aluno toda a informação relevante acerca do objectivo, critérios de avaliação e definição do trabalho a realizar, o que pode muito bem ser feito através da elaboração de um enunciado para cada trabalho distribuído.
  3. Um argumento é um conjunto de dados ou ideias em que uma delas (a conclusão) é apoiada pela outra ou outras (a premissa ou premissas).
  4. Por exemplo: questionar se Mário Soares é um número primo; questionar o ser da dadidade (a característica de ser característica) de alguma coisa.
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