The Form of Things: Essays on Life, Ideas and Liberty in the 21st Century
9 de Junho de 2007 ⋅ Filosofia

Humanismo moderno

Desidério Murcho
The Form of Things: Essays on Life, Ideas and Liberty in the 21st Century, de A. C. Grayling
Londres: Weidenfeld & Nicolson, 1996, 272 pp.
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Entre nós estão traduzidos oito livros de George Steiner, o que parece denotar um interesse do leitor português pelo ensaísmo. Contudo, só um livro de A. C. Grayling está traduzido entre nós: O Significado das Coisas, na Gradiva, que é o primeiro de uma série de (agora) cinco de volumes que o conhecido filósofo, ensaísta e historiador inglês tem publicado no Reino Unido. Cada volume reúne um conjunto de ensaios baseados nos trabalhos publicados pelo autor em vários periódicos, como os jornais Guardian, Financial Times e Independent, e revistas como a New Statesman e a Literary Review. Alguns ensaios são muito curtos, outros mais desenvolvidos. A prosa de Grayling é cuidada, elegante e cristalina, e a sua visão humanista e tolerante é um refúgio para a intolerância, hipocrisia e fundamentalismo que entretanto se tornou tão comum na cultura contemporânea.

Neste quinto volume, Grayling prossegue as suas reflexões sobre matérias por vezes mais surpreendentes, como os funerais, a cor ou as viagens. As suas ideias são fortemente influenciadas pelo humanismo grego clássico, e tanto na sua substância como na forma como as defende, inscrevem-se na longa tradição humanista britânica de Mill, Russell e Orwell. Grayling defende a vida boa, a tolerância e a libertação de todos os jugos que têm massacrado a humanidade desde sempre. É um modelo de ensaísmo despretensioso mas sofisticado, culto mas acessível, profundo mas iluminante. Abordando temas como a morte das civilizações, o hedonismo, a dinâmica das línguas, o papel da ciência na vida pública e na vida cultural, este é um dos mais amadurecidos volumes desta série.

O livro divide-se em quatro partes, respectivamente intituladas "Reflexões", "Polémicas", "Pessoas" e "Direitos e Liberdades". Na terceira parte encontramos ensaios dedicados a Darwin, Kuhn e Popper, Lawrence Durrell, Russell, Voltaire e Vermeer, entre outros. A última parte reflecte as recentes investidas contra a liberdade de expressão e contra a privacidade dos cidadãos, por parte de governos e burocratas, baseadas na desculpa do combate ao terrorismo. A tentativa de imposição de um bilhete de identidade no Reino Unido tem sido sistematicamente denunciada pelos defensores da liberdade e do bom senso como uma forma arbitrária de o governo e a polícia terem um maior controlo sobre todos os seus cidadãos, sem que se veja qualquer relação directa entre tal controlo e a prevenção ou o combate ao crime ou ao terrorismo.

Grayling não é, contudo, um ensaísta domesticado, que apresente reflexões algo pastosas de pretensa profundidade mas pouca substância. Talvez isso explique o seu insucesso entre nós, pois parece que preferimos tiradas tonitruantes que nada de especial querem dizer, mas fugimos de quem faz reflexões límpidas sobre temas proibidos. Grayling desfere ataques directos, sem meias palavras, a todas as religiões instituídas e em especial à cristã. Talvez desde Eça de Queirós, que entretanto se tornou inócuo pelo pó do tempo, que não se lê entre nós boa prosa clara e directamente anti-religiosa. Aliás, vivemos um tempo em que se pode atacar qualquer convicção política ou artística, mas não se podem atacar convicções religiosas — confundindo-se tragicamente a tolerância com o silêncio da autocensura. Mais que não fosse por isso, valia a pena traduzir os volumes de ensaios de Grayling.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (19 de Janeiro de 2007)
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