The Future for Philosophy
14 de Maio de 2005 ⋅ Filosofia

Futuro para a filosofia

Desidério Murcho
The Future for Philosophy, org. por Brian Leiter
Oxford: Oxford University Press, 2004, 357 pp.
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"As histórias habituais da filosofia do séc. XX não dão conta de grande parte dos resultados mais animados, exactos e criativos do último terço desse século: a reactivação da teorização metafísica, de espírito realista, muitas vezes especulativa, muitas vezes de senso comum, associada a Saul Kripke, David Lewis, Kit Fine, Peter van Inwagen, David Armstrong e muitos outros: trabalho que, para citar apenas um exemplo, tornou anacrónico rejeitar o essencialismo por ser anacrónico." Estas palavras de Timothy Williamson exprimem bem as incompreensões de que a filosofia mais recente é vítima e que este livro ajuda a esclarecer. O organizador, Brian Leiter (especialista em filosofia continental e Nietzsche), reuniu neste volume um conjunto de treze ensaios sobre o futuro da filosofia. De entre os filósofos e historiadores destaca-se, além do citado Williamson, Jaegwon Kim, David Chalmers, Alvin Goldman, Philip Kitcher, Nancy Cartwright, Peter Railton e Philip Pettit. As áreas abrangidas incluem a história da filosofia antiga e moderna, a hermenêutica, o problema da mente-corpo, o problema da representação e da experiência, a filosofia da ciência, a metafísica da vagueza, a teoria da causalidade e a ética, entre outros.

A filosofia do séc. XX caracterizou-se por um sentimento de inferioridade em relação à ciência, o que levou os filósofos a tentar encontrar outros campos de actuação. O positivismo lógico fez da lógica formal o instrumento filosófico por excelência, e os seus partidários aceitaram o tipo de anti-realismo representacional que caracterizou igualmente grande parte da filosofia chamada "continental" (um rótulo ligeiramente enganador dado que se podem distinguir pelo menos nove correntes filosóficas distintas: o idealismo alemão, o materialismo alemão, o marxismo, o neo-kantismo, o existencialismo, o estruturalismo e o pós-estruturalismo, além da hermenêutica e da fenomenologia). As correntes filosóficas mais influentes no continente europeu são ainda hoje marcadamente anti-realistas, declarando que tudo são textos, como Derrida, ou que a realidade é apenas uma construção humana, como Carnap e Goodman (filósofos analíticos por excelência) defendiam. A fuga para vários tipos de nominalismos, presente em correntes filosóficas tradicionalmente encaradas como opostas, resulta deste sentimento de inferioridade em relação à ciência. O cientismo e o obscurantismo anti-ciência são manifestações opostas deste sentimento de inferioridade: a Morte da Filosofia tornou-se o tema vivo de muitas correntes filosóficas, e é neste contexto que se compreende a afirmação de Wittgenstein de que o seu objectivo era acabar com o emprego dos filósofos (uma vez que não há filosofia, tal como não há ciência do flogisto, o melhor é ir para casa).

Evidentemente, este quietismo não é muito popular na prática, ainda que atraente em teoria, pois implica que os filósofos se demitam dos seus cargos. Contudo, e contra todas as expectativas, a filosofia floresceu. Sobretudo na última trintena de anos, mostrou a sua maturidade, o seu alcance e centralidade. Em todas as suas áreas tradicionais, e no diálogo com as artes, as ciências e a religião, a filosofia mostrou que é imprescindível. O sentimento de inferioridade face à ciência revelou-se inaceitável e abandonaram-se os anti-realismos e construtivismos sociais ou linguísticos. O futuro da filosofia é animador.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (8 de Janeiro de 2005)
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