Pensamentos Secretos, de David Lodge
24 de Setembro de 2004 ⋅ Filosofia da mente

O mural de Max Karinthy

David Lodge

Ralph conduz Helen ao elevador. Não são só as paredes que são de vidro, mas também o chão, e quem quiser pode olhar para baixo, por entre os pés, e ver os cabos e o mecanismo no poço do elevador, embora Helen decididamente não queira. À medida que vão subindo, suave e silenciosamente, Ralph explica a Helen que Max Karinthy era um filósofo e pintor amador húngaro-americano, de Princeton, que tinha trabalhado há uns anos no Centro como Investigador Convidado durante o seu ano sabático e que se tinha entretido, com a permissão e até o incentivo de Ralph, a decorar o segundo piso do edifício com um mural ilustrativo das várias teorias e experiências da Ciência Cognitiva, da Psicologia Evolutiva e da Filosofia da Mente.

O elevador pára no corredor do segundo andar e as portas de vidro escancaram-se com um suspiro mecânico. — Meu Deus! — exclama Helen, assim que se apanha cá fora. As paredes interiores das divisões deste piso não são de vidro como as dos pisos inferiores, mas de tijolo e cimento, oferecendo assim à vista uma superfície curva pintada que abrange todo o perímetro do átrio. Uma série de cenas, figuras e ilustrações sobrepostas, pintadas num arrojado estilo expressionista, estendem-se para um e outro lado do poço do elevador para se encontrarem no lado oposto da galeria, formando uma espécie de ciclorama. Em contraste com a austeridade tecnológica do resto do edifício, aqui há um motim de cores e formas.

— É mesmo impressionante, não é? — diz Ralph, que parece satisfeito com a reacção dela. — Posso fazer-lhe a visita guiada?

— Se fizer o favor.

Ele vira para a esquerda e Helen segue-o. A primeira imagem a captar-lhe o olhar é um enorme morcego negro de asas abertas a voar em direcção aos olhos do observador, como um bombardeiro, rodeado por finíssimos anéis concêntricos.

— No início dos anos setenta um filósofo chamado Thomas Nagel escreveu um famoso ensaio intitulado “Como é Ser-se Morcego?” — explica Ralph. — Segundo ele é absolutamente impossível sabermos como é ser-se morcego; a única forma de o saber é ser-se morcego. Ergo, os qualia são inefáveis, ergo a investigação científica da consciência é impossível. Um argumento muito simplista, em minha opinião, mas que teve um sucesso surpreendente. No entanto, foi inspirada a escolha de um morcego para a experiência mental — são umas criaturas tão esquisitas. Sabe que se guiam por ecolocalização, como um radar? — Aponta para os anéis concêntricos. — Quando um dos fulanos que descobriram isto o descreveu pela primeira vez numa conferência, houve um velho professor que no final pouco faltou para o agredir, de tão ridícula que achou a ideia.

— O que é que aqueles dois morcegos em segundo plano estão a fazer? — pergunta Helen, aludindo ao par de criaturas que pareciam estar a beijar-se numa caricatura estilo Disney do namoro humano.

— São morcegos vampiros. Um deles está a regurgitar sangue para a garganta do outro.

— Bggh! Mais valia não ter perguntado.

— Aparentemente, quando os morcegos vampiros regressam de uma noitada, aqueles que tiveram sorte partilham às vezes os jantares que trouxeram para casa com os que não tiveram.

— O que é que isso tem a ver com o problema da consciência?

— Tem algo a ver com a motivação. À primeira vista parece altruísmo, mas um morcego em noite de sorte só partilha o sangue com outro morcego com o qual tenha um acordo recíproco caso as circunstâncias se invertam, por isso trata-se na verdade de uma forma de elaborado egoísmo. O mesmo se passa com os seres humanos — como ilustra o Dilema do Prisioneiro.

Ralph aponta para a imagem de dois homens vestidos com uniformes de prisioneiros, às riscas como os dos livros de banda desenhada, sentados em duas celas no extremo de uma fila de celas vazias, a olharem sorumbáticos por entre as grades. Um guarda prisional está postado entre eles. — O caso é que os dois foram acusados de um crime e os dois foram convidados a testemunhar contra o outro. Repare que estão isolados e não podem comunicar. Se cada um dos homens trair o outro, apanham os dois uma pesada pena. Se apenas um der com a língua nos dentes, escapa incólume. Se os dois insistirem em ficar calados, podem apanhar penas mais leves por falta de provas. Trata-se de uma opção entre cooperar ou desertar. Pode ser aplicada a todo o tipo de situações: economia, política, direitos piscatórios, recreio da escola, seja o que for. A vida inteira pode ser encarada como uma série de opções entre cooperar ou desertar.

— A sério?

— Veja, por exemplo, o recente caso do corte de despesas na Universidade. Os directores das Escolas e Departamentos têm de escolher entre votar a distribuição mínima dos cortes por toda a Universidade — miséria igual para todos — ou votar cortes drásticos noutros departamentos antes que alguém lhes faça o mesmo. Cooperar ou desertar. Os matemáticos já passaram milhares de horas a tentar encontrar a forma mais vantajosa de entrar no jogo. Conferências inteiras foram consagradas a este assunto. Houve até um concurso internacional para congeminar a estratégia mais eficaz. Sabe qual acabou por ser?

— Qual?

— Troca por troca. TPT. Cooperamos com outro jogador a não ser que ele deixe de cooperar connosco e até que ele deixe de cooperar connosco e, depois, na próxima oportunidade, desertamos. Mas, desde que o outro jogador saiba que é isso que vamos fazer, já não precisamos de o fazer. É isso que mantém a sociedade unida. É a isso que se resume a moralidade humana.

— Hmm — murmura Helen, como se pudesse discordar desta afirmação, mas optasse por não o fazer, e avança para outra secção do mural. — E estes são os matemáticos a trabalhar no jogo? — pergunta, indicando com um movimento da cabeça a imagem de um homem sentado a uma secretária com duas caixas de correspondência — recebida e a expedir, e uma pilha de livros. O compartimento onde se encontra não tem mais mobília nenhuma e não tem janelas. As caixas estão atulhadas com rolos de papel repletos de símbolos e outros rolos semelhantes caem por uma portinhola a meia altura da porta.

— É o Quarto Chinês de Searle, uma experiência mental muito famosa.

— Ah sim, estou a ver, aqueles símbolos são caracteres chineses.

— A ideia é que aquele tipo está a receber perguntas em chinês, uma língua que ele não fala nem lê, e tem um livro de regras com procedimentos lógicos que lhe permitem responder em chinês. Fica ali sentado o dia inteiro a receber perguntas e a dar respostas correctas, mas não entende uma única palavra. Terá ele consciência do que está a fazer?

— Deve ter consciência de estar a fazer um trabalho incrivelmente enfadonho.

— Boa resposta — diz Ralph. — Mas não é a de Searle. Ele alega que o homem não pode ter consciência da informação que está a processar, e atendendo a que está a agir como um programa de computador, um programa de computador também não pode ter consciência da informação que está a processar. Logo, a Inteligência Artificial falha irremediavelmente.

— Presumo que não concorda com isso.

— Não, não concordo. Porque, mesmo numa experiência mental, é impossível conceber um programa de computador que trabalhe como se supõe que este trabalha. Ou então, se tal fosse possível, ele teria consciência segundo qualquer critério.

— E suponho que estes são os chineses a fazerem as perguntas e a receberem as respostas — diz Helen, apontando para uma multidão imensa e compacta, com traços asiáticos e fatos à Mao, e com uma coisa que se assemelhava a um telemóvel presa nos ouvidos.

— Não, isso é uma experiência mental de outra pessoa. Implicava equipar toda a população chinesa com rádios transmissores e receptores para simular as ligações entre as células cerebrais humanas.

— Porquê a China?

— Porque é a maior comunidade com uma língua comum, suponho. Há cerca de um bilião de chineses, creio.

— Mas os Chineses não têm uma língua falada comum — contrapõe Helen.

Ralph ri-se. — Isso é verdade? Acho que o tipo que imaginou a experiência não sabia disso. Mas existem cerca de cem biliões de neurónios num só cérebro humano, e há mais conexões possíveis entre eles do que átomos no universo, pelo que a experiência não se aproxima sequer da realidade.

— Qual era o objectivo?

Ralph encolhe os ombros. — Esqueci-me. Mais um argumento antifuncionalista, parece-me. É o que são a maioria destas experiências mentais. Ora aqui está uma interessante.

É a imagem de outro compartimento semelhante a uma cela, sem janelas, mas lotado de mobília e equipamento — uma secretária, uma papeleira, prateleiras, computadores e um televisor. Tudo está pintado de preto e branco ou tons de cinzento, incluindo a jovem sentada à secretária. Traz luvas pretas, sapatos pretos, meias opacas pretas e uma bata branca. A imagem no ecrã do televisor é monocromática. Mas o compartimento é subterrâneo; a superfície, posta a descoberto num perfil transversal, é uma risonha paisagem bucólica, repleta de cores vivas.

“Esta é Mary, a cientista das cores de Frank Jackson. A ideia é que ela nasceu e foi criada e educada num ambiente totalmente monocromático. Ela sabe absolutamente tudo o que há para saber sobre as cores em termos científicos — por exemplo, as várias combinações de comprimentos de onda que estimulam a retina no reconhecimento das cores — mas nunca viu realmente quaisquer cores. Repare que não há espelhos no quarto, por isso não pode ver a pigmentação do próprio rosto, olhos ou cabelo, e a primeira coisa que ela vê é, imaginemos, uma rosa vermelha. Terá ela uma experiência totalmente nova?

— Obviamente.

— É isso que Jackson defende. É outro argumento de que os qualia são inefáveis e irredutíveis.

— E parece-me um esplêndido argumento.

— Bem, é melhor do que a maioria. Mas de novo a premissa exige que se aceite uma data de coisas. Se Mary soubesse absolutamente tudo que há para saber sobre as cores — e que é muito, muito mais do que sabemos neste momento —, talvez ela fosse capaz de simular a experiência de vermelho no seu cérebro ao tomar, por exemplo, certas drogas.

— Quem são estas pessoas? — pergunta Helen, apontando para um grupo de figuras humanas, sentadas, de pé ou a deambular.

— Há nelas algo de estranho, algo que não se consegue agarrar.

— Ainda bem para si — diz Ralph. — E ainda bem para Karinthy. São mortos-vivos.

— Mortos-vivos!

— Sim, trabalhamos muito com mortos-vivos. Os mortos-vivos são para os filósofos da mente o que os ratos são para os psicólogos e os porquinhos-da-índia para os biólogos. Não me surpreenderia se houvesse algum Movimento dos Direitos dos Mortos-Vivos num sítio qualquer.

— Mas eles não existem! — exclama Helen.

— Para romancista, você toma as coisas demasiado à letra — diz Ralph.

— Sou uma romancista realista.

— Para fins filosóficos não é necessário que os mortos-vivos existam, apenas que a sua existência seja uma possibilidade lógica. São úteis para as experiências cognitivas, porque não se distinguem dos seres humanos no aspecto nem no comportamento, mas não possuem consciência no sentido humano do termo. Por exemplo, estes fulanos aqui, de cabelo comprido — diz ele, apontando — são um jovem filósofo chamado David Chalmers e o seu gémeo morto-vivo. Mas, como pode ver, é impossível saber quem é quem.

— Por falar em direitos dos animais, o que é que aconteceu a este gato? — pergunta Helen, parada em frente de uma imagem pintada na horizontal, a toda a largura da porta do Professor D.C. Douglass. Numa série de imagens, tipo banda desenhada, vê-se um mágico a meter um gato sonolento de pêlo acobreado num pequeno armário de madeira e, a seguir, um instrumento científico assaz complicado, correndo depois a tampa. Na última imagem ele já desapareceu, sendo visível apenas o armário.

— Esse é o Gato de Schrödinger, um famoso quebra-cabeças da física quântica. A engrenagem que está na caixa liga um instrumento que mede o movimento rotativo de um electrão a um mecanismo que dá uma injecção letal. A experiência parte da hipótese de que o instrumento irá matar o gato se o movimento rotativo do electrão for “ascendente”. Mas segundo a mecânica quântica, o estado do electrão não é nem ascendente nem descendente até que alguém o observe. Por isso, o gato não está nem vivo nem morto até que alguém abra o armário.

— O mágico é o Schrödinger?

— Não, esse é Roger Penrose, o matemático.

— Terá alguma coisa a ver com Robyn Penrose?

— Quem é esse?

— Essa. Vem cá este semestre fazer uma conferência na Escola de Inglês. Recebi um desdobrável a anunciar.

— Acho que não há qualquer ligação. Este Penrose acha que a física quântica detém a chave do problema da consciência. Da consciência enquanto colapso da função de onda. Colapsos quânticos em microtúbulos.

— Agora é que eu não percebi nada — diz Helen.

— Bem, não é fácil de explicar — diz Ralph. — Diz-se que alguém que afirme compreender a mecânica quântica ou é louco ou está a mentir.

David Lodge

Texto extraído de Pensamentos Secretos, de David Lodge (Asa, Porto, 2002)
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