A Cabeça
18 de Agosto de 2003 ⋅ Ensino da filosofia

Os piores alunos do mundo

Desidério Murcho

A força de uma cultura mede-se pelas inovações por ela introduzidas, tanto a nível artístico e científico, como filosófico e médico ou tecnológico. Quando se vê as coisas desta maneira, percebe-se a distância a que Portugal está de se poder considerar um país culto: pois, se olharmos à nossa volta, vive-se em Portugal rodeado de produtos de ideias estrangeiras. Talvez só a feijoada e o galo de Barcelos sejam invenção nossa; automóveis, universidades, medicamentos, a maior parte dos livros, artes — quase tudo é feito no estrangeiro.

Penso que uma das razões pelas quais isto é assim é um mau ensino, que consiste em fazer os estudantes repetir laboriosamente ladainhas que não compreendem porque ninguém lhes explicou nem sabe explicar. Portugal deve ser, aliás, o único país do mundo em que se dá um fenómeno curioso: quando somos alunos, temos os piores professores do mundo; quando somos professores, temos os piores alunos do mundo. Será que os portugueses são mais estúpidos do que os outros povos, como se insiste em pensar?

Não creio. A inteligência está igualmente distribuída pela humanidade. A diferença está na cultura. E o problema é que a cultura escolar portuguesa, em particular, sofre de várias doenças terminais. Uma delas é o mito do Grande Investigador Genial.

A ideia de que um professor universitário tem de contribuir, ainda que humildemente, para o progresso da sua disciplina, com ideias novas e interessantes, é já, felizmente, um lugar-comum em alguns departamentos portugueses, como os de matemática, física ou economia. Mas é ainda uma ideia revolucionária nos departamentos de filosofia, onde o próprio conceito de revista académica com submissão anónima de artigos é uma novidade tímida.

E assim cai-se na falácia de pensar que a solução para atraso filosófico português reside na Grande Investigação de Ponta — feita como coisa extraordinária e não, como deveria ser, como tarefa rotineira. Não é difícil ver a falácia se pensarmos que o ensino da física e da matemática no secundário é terrivelmente mau, apesar de muitos dos professores destes departamentos publicarem todos os anos artigos em revistas internacionais. Então qual é o problema?

O problema dá pelo nome de "falso dilema". É ilusório pensar que "o que é preciso é investigação de qualidade", porque o que é preciso é tudo ao mesmo tempo: investigação e ensino de qualidade. Ora, se olharmos aleatoriamente para universidades perfeitamente desconhecidas, como a Universidade de Alabama, em Birmingham (EUA), encontramos factos interessantes. Por exemplo, James Rachels não é um Grande Investigador de Ponta, se com isso se quer falar de alguém que, como Putnam ou Popper, vê as suas ideias serem discutidas durante dezenas de anos por batalhões de outros filósofos. James Rachels é apenas um professor e um investigador modesto e competente. Mas... tem dezenas de artigos publicados nas melhores revistas internacionais, vários livros publicados e várias antologias por ele organizadas. E estes materiais distribuem-se por duas categorias: materiais de investigação e materiais de ensino. Ambos coexistem, ambos são necessários, ambos fazem parte dos deveres de qualquer bom professor.

Quando se vê a realidade internacional e se reflecte cuidadosamente descobre-se por que razão o ensino e a cultura portuguesas são tão fracas: não é apenas porque os professores desconhecem os circuitos internacionais de investigação, mas antes porque mesmo quem os conhece se isola e perde nesses circuitos sem atender às suas obrigações como professor. É assim que temos investigadores de ponta incapazes de dar aulas que se percebam ou de escrever meia página que se perceba sobre temas da sua pretensa especialidade — que afinal consiste apenas em repetir erudita e laboriosamente ideias alheias e em espiolhar pormenores estéreis.

Nada há de errado em espiolhar pormenores estéreis — isto é parte integrante da investigação, pois nunca se pode saber à partida se o pormenor é estéril ou o princípio de algo importante que vai mudar radicalmente a nossa compreensão das coisas. O que há de errado é imaginar altivamente que esses pormenores são a coisa mais importante do mundo, desprezando tudo o que cheire a ensino acessível, directo, sem academismos estéreis nem ademanes da expressão que só dificultam a compreensão do estudante. E é assim que temos o paradoxo: matemáticos e físicos perfeitamente integrados na comunidade internacional — ao mesmo tempo que temos manuais e aulas vergonhosas de matemática, que são a causa do terrível insucesso dos nossos estudantes.

Teremos os piores alunos do mundo? Teremos os piores professores do mundo? Não. O que temos é uma cultura caduca, cheia de ilusões e mitos, vírus da mente que teimam em propagar-se, infectando a noosfera nacional. Qualquer professor competente, no nosso país, dedicaria o seu tempo a melhorar o ensino, que precisa dos melhores talentos. E faria isso ao mesmo tempo que cumpriria as suas obrigações de investigador. Porque é precisamente para isso que lhe pagam: para contribuir, simultaneamente para a investigação da verdade das coisas e para o ensino de qualidade.

Só os mais avançados e inovadores investigadores, que contribuem decisivamente para avanços revolucionários, são, por vezes, aliviados das suas responsabilidades educativas. E o que é irónico é que alguns desses autores — como Bertrand Russell, George Berkeley, Thomas Nagel ou Simon Blackburn — deram-se, mesmo assim, ao trabalho de escrever para os estudantes de quinze anos.

Só os Grandes Investigadores de Ponta nacionais, cujo trabalho estará com toda a probabilidade esquecido dentro de dez anos, são demasiado superiores para tentar ajudar os alunos a compreender as coisas — afinal, os nossos são os piores alunos do mundo, e não merecem o nosso esforço. Mas se eles não forem formados e despretensiosamente ajudados pelos mais talentosos professores e investigadores, como poderão deixar de ser os piores alunos do mundo?

Desidério Murcho
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