Problems from Philosophy
30 de Setembro de 2006 ⋅ Filosofia

O legado de Sócrates

Desidério Murcho
Problemas da Filosofia, de James Rachels
Tradução de Pedro Galvão
Gradiva, Maio de 2009, 284 pp.
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É difícil escrever uma boa introdução a qualquer disciplina para o grande público que consiga evitar três pecadilhos: que não pareça um manual escolar, demasiado árido e formal; que não seja tão sofisticado que só quem já conhece a área pode verdadeiramente apreciá-lo; e que não seja tão superficial que acabe por dar ao público uma ideia falsa da área. James Rachels consegue precisamente evitar estes três pecadilhos, apresentando uma introdução brilhante à filosofia. Além do mais, integra de forma majestosa informação histórica importante sobre filósofos e ideias do passado e do presente. O leitor não tem assim a sensação de estar a ler um manual escolar, mas também não lhe falta a informação histórica. O tom do livro é de tal forma descontraído, mas rigoroso e estimulante, que é como se o leitor estivesse a conversar tranquilamente com um homem muito sábio e ponderado, mas despretensioso e simpático, paciente e experiente, que acima de tudo tem um amor profundo pela sua disciplina e pelo seu ensino e divulgação. Ou, pelo menos, que gosta evidentemente mais da sua disciplina do que do seu currículo e das suas vaidades (humanas?).

Por causa do seu rigor, e apesar do seu tom descontraído, este livro é especialmente adequado para preparar os novos exames nacionais de Filosofia, pois aborda muitas das matérias do 10.º e 11.º ano exigidas pelas novas "Orientações" para esta disciplina — matérias de capital importância para os muitos cursos superiores que, apropriadamente, exigem aquele exame como prova de ingresso. É o caso das provas a favor da existência de Deus (Cap. 2), do problema do livre-arbítrio (Capítulos 8 e 9), da objectividade dos valores (Cap. 11), da questão de saber por que razão havemos de ser morais (Cap. 12), assim como o problema cartesiano do cepticismo (Cap. 10), entre outros. Ao discutir estes problemas, Rachels apresenta de forma lúcida alguns dos principais filósofos exigidos pelas referidas "Orientações": Descartes, Hume, Kant, Locke, Mill e Platão, entre outros.

James Rachels (1941-2003) foi autor de The End of Life: Euthanasia and Morality (Oxford University Press, 1986), Created from Animals: The Moral Implications of Darwinism (Oxford University Press, 1991) e Can Ethics Provide Answers? (Rowman and Littlefield, 1997). Publicou mais de cinquenta artigos nas mais prestigiadas revistas académicas internacionais. Foi professor nas Universidades de Nova Iorque e de Miami. À data da sua morte, era professor catedrático na Universidade de Alabama, em Birmingham, EUA, e escrevia regularmente em periódicos como Bioethics, Nature, Los Angeles Times e The New York Times Book Review. Deste importante filósofo, a Gradiva publicou entre nós o excelente Elementos de Filosofia Moral.

Com trezes pequenos capítulos, este livro começa por apresentar o legado de Sócrates: a postura crítica perante as nossas crenças e a exigência de uma vida ética. Mas, ao contrário do que é infelizmente comum, não há da parte de Rachels a adoração acrítica e bacoca das ideias de Sócrates. Ao invés, apresenta argumentos contra algumas das ideias de Sócrates — e é precisamente ao fazê-lo que dá continuidade ao legado socrático. Uma leitura empolgante, que dá conta do que realmente é a filosofia, tal como Sagan dá conta do que realmente é a ciência.

Desidério Murcho
Crítica publicada no jornal Público (1 de Abril de 2006)
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