A Ideia Perigosa de Darwin, de Daniel C. Dennett
13 de Junho de 2005 ⋅ Filosofia

A revolução darwiniana

Daniel C. Dennett
Universidade de Tufts

Não há futuro num mito sagrado. Porquê? Por causa da nossa curiosidade. […] Seja o que for que consideremos precioso, não podemos protegê-lo da nossa curiosidade pois, sendo quem somos, uma das coisas que consideramos preciosa é a verdade. O nosso amor pela verdade é sem dúvida um elemento central no sentido que damos à nossa vida. Em qualquer caso, a ideia de que podemos preservar o sentido da nossa vida à força de nos enganarmos é uma ideia mais pessimista, mais niilista, do que eu, pela parte que me toca, consigo engolir. Se isso fosse o melhor que se pode fazer, concluiria que afinal nada tinha importância.[…]

A nossa curiosidade sobre as coisas assume diferentes formas, como Aristóteles assinalou no dealbar da ciência humana. O seu esforço pioneiro para as classificar ainda faz muito sentido. Aristóteles identificou quatro questões básicas sobre seja o que for que podemos querer ver respondidas, e chamou-lhes aitia, um termo grego verdadeiramente insusceptível de ser traduzido, tradicional mas desajeitadamente traduzido por quatro "causas".

  1. Podemos ter curiosidade sobre aquilo de que algo é feito, a sua matéria ou causa material.
  2. Podemos ter curiosidade sobre a forma (ou estrutura ou configuração) que essa matéria assume, a sua causa formal.
  3. Podemos ter curiosidade sobre a sua origem, como começou, ou sobre a sua causa eficiente.
  4. Podemos ter curiosidade sobre o seu propósito ou objectivo ou finalidade (como na pergunta "Será que os fins justificam os meios?"), a que Aristóteles chamou o seu telos, que por vezes se traduz em português, desajeitadamente, como "causa final".

É preciso alguma ginástica para fazer estas quatro aitia aristotélicas corresponderem a respostas às típicas perguntas portuguesas "o quê, onde, quando e porquê". A correspondência é apenas aproximada. As perguntas que começam com "porquê", contudo, pedem de facto, normalmente, a quarta "causa" de Aristóteles, o telos de uma coisa. Porquê?, perguntamos. Para que serve? Como dizemos por vezes, qual é a sua razão de ser? Os filósofos e os cientistas reconheceram, durante centenas de anos, que estas perguntas pelo "porquê" são problemáticas, e de tal modo distintas que o estudo a que dão lugar merece um nome: teleologia.

Uma explicação teleológica é a que explica a existência ou ocorrência de algo fazendo apelo a um objectivo ou propósito que a coisa serve. Os artefactos são os casos mais óbvios; o objectivo ou propósito de um artefacto é a função que o seu criador concebeu para ele. Não há controvérsia sobre o telos de um martelo: serve para martelar e tirar pregos. O telos de artefactos mais complexos, como câmaras de vídeo, camiões ou scanners é, na pior das hipóteses, mais óbvio. Mas mesmo nos casos mais simples, podemos ver que há um problema de fundo sempre presente:

— Por que razão estás a serrar essa tábua?
— Para fazer uma porta.
— E para que é a porta?
— Para proteger a minha casa.
— E por que razão queres proteger a tua casa?
— Para poder dormir descansado.
— E por que razão queres dormir descansado?
— Vai passear e deixa de me fazer perguntas tolas.

Esta troca de palavras revela um dos problemas da teleologia: onde para tudo isto? Que causa final podemos apresentar para completar esta hierarquia de razões? Aristóteles tinha uma resposta: Deus, o Motor Imóvel, o para-quê onde acabam todos os para-quês. A ideia, que foi aproveitada pelas tradições cristãs, judaicas e islâmicas, é que todos os nossos propósitos derivam em última análise de Deus. A ideia é sem dúvida natural e atraente. Se olharmos para um relógio e nos perguntarmos por que razão tem um vidro transparente, é óbvio que a resposta remete para as necessidades e desejos das pessoas que usam relógios, que querem saber as horas olhando para o mostrador, etc.. Se não fossem estes factos sobre nós, para quem o relógio foi criado, não haveria explicação do "porquê" do vidro transparente. Se o universo foi criado por Deus, para cumprir os seus propósitos, então todos os propósitos que possamos encontrar no próprio universo têm, em última análise, de se ficar a dever aos propósitos de Deus. Mas quais são os propósitos de Deus? Isso é algo de misterioso.

Uma maneira de afastar o desconforto acerca desse mistério é mudar ligeiramente o tema. Em vez de responder à pergunta pelo "porquê" com uma resposta do tipo "porque" (o tipo de resposta que ela parece exigir), as pessoas substituem muitas vezes a pergunta "Porquê?" pela pergunta "Como?", e tentam responder a esta última contando uma história sobre como Deus nos criou a nós e ao resto do universo, sem perder demasiado tempo com a questão de saber exactamente por que razão poderá Ele ter querido fazer tal coisa. A pergunta pelo "como" não encaixa na lista de Aristóteles, mas já eram perguntas e respostas populares muito antes de Aristóteles ter apresentado a sua análise. As respostas às maiores perguntas pelo "como" são cosmogonias, histórias sobre como o cosmos, o universo inteiro e tudo o que ele contém, passou a existir. O livro do Génesis é uma cosmogonia, mas há muitos outros. Os cosmólogos que exploram a hipótese do Big Bang, e que especulam sobre os buracos negros e as supercordas, são criadores actuais de cosmogonias. Nem todas as cosmogonias seguem o padrão de um artífice. Algumas envolvem um "ovo do mundo" depositado nas "Profundezas" por uma ave mítica qualquer, e outras envolvem sementes que se deitam à terra e se cuidam. A imaginação humana não dispõe de muitos recursos a que deitar mão quando se confronta com uma questão tão intrigante. Um mito antigo da criação fala de um "Senhor que existe por si" e que, "com um pensamento, criou as águas, depositando nelas uma semente que se transformou num ovo dourado, nascendo ele próprio desse ovo como Brama, o progenitor dos mundos" (Muir 1972, Vol. IV, p. 26).

E qual era o objectivo de todas estas posturas de ovos, sementeiras e construção de mundos? Ou, já agora, qual é o objectivo do Big Bang? Os cosmólogos actuais, à semelhança de muitos dos seus antecessores ao longo da história, apresentam uma história divertida, mas preferem fugir da questão teleológica do "porquê". Será que o universo existe por uma razão qualquer? Será que as razões têm um papel qualquer que se possa compreender nas explicações do cosmos? Será que poderia existir algo por uma razão, sem que se tratasse da razão de alguém? Ou será que as razões — as causas do tipo 4 de Aristóteles — só são apropriadas nas explicações das obras e feitos de pessoas ou de outros agentes racionais? Se Deus não é uma pessoa, um agente racional, um Artífice Inteligente, que sentido poderá ter a maior pergunta pelo "porquê"? E se a maior pergunta pelo "porquê" não tem qualquer sentido, como poderão outras perguntas pelo "porquê", mais pequenas e comezinhas, ter sentido?

Um dos contributos fundamentais de Darwin é mostrar-nos uma nova maneira de dar sentido às perguntas pelo "porquê". Quer queiramos quer não, a ideia de Darwin oferece-nos uma maneira — clara, convincente e espantosamente versátil — de dissolver estes velhos enigmas. É preciso tempo para nos habituarmos à sua ideia, e ela é muitas vezes mal aplicada, mesmo pelos seus amigos mais dedicados. […] O que ganhamos é, pela primeira vez, um sistema explicativo estável que não anda às voltas nem entra numa espiral infinita de mistérios. Aparentemente, algumas pessoas preferem a regressão infinita de mistérios, mas hoje em dia o custo desta estratégia é proibitivo: teremos de nos deixarmos enganar. Tanto podemos enganar-nos a nós mesmos, como deixar essa tarefa a outras pessoas, mas não há uma forma intelectualmente defensável de reconstruir as poderosas barreiras à compreensão que Darwin derrubou.

Daniel C. Dennett

Tradução de Álvaro Augusto Fernandes
Excerto retirado de A Ideia Perigosa de Darwin, de Daniel Dennett (Lisboa: Temas e Debates, 2001, pp. 20-24).
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