O Mistério de Todos os Mistérios
15 de Agosto de 2003 ⋅ Filosofia da ciência

Nem gregos nem troianos

Desidério Murcho
O Mistério de Todos os Mistérios, de Michael Ruse
Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2002, 320 pp, 21 €

Este livro é um "case study". Usando a história da teoria da evolução pela selecção natural, o autor procura determinar até que ponto é a evolução biológica uma mera construção humana, como defendem alguns sociólogos e filósofos, ou se é uma realidade, como defendem outros filósofos e praticamente todos os cientistas. Para isso, percorre a história das ideias biológicas, dedicando dez capítulos a outros tantos autores: Erasmus Darwin, Charles Darwin, Julian Huxley, Theodosius Dobzhansky, Richard Dawkins, Stephen JayGould, Richard Lewontin, Edward O. Wilson, Geoffrey Parker, e Jack Sepkowski. O objectivo de Ruse é determinar até que ponto a actividade científica destes autores, que fundaram e desenvolveram a biologia evolucionista, responde a preocupações ideológicas subjectivas, ou antes a valores epistémicos objectivos. O capítulo 1 é dedicado a Karl Popper e a Thomas Kuhn, e é provavelmente a melhor exposição das ideias destes filósofos (no que respeita à filosofia da ciência) disponível em português. E só por isso valeria a pena comprar o livro. No prólogo o autor dá a conhecer a famosa "guerra das ciências", usando o escândalo de Sokal (que deu origem ao livro Imposturas Intelectuais, Gradiva, 1999) como guia. O último capítulo ("Metáforas e Metavalores") apresenta as conclusões do "case study". E o brevíssimo epílogo sugere que as conclusões deste "case study" poderão não ser muito diferentes de outros estudos com base noutras teorias científicas. A edição portuguesa é precedida por um prefácio de Alexandre Quintanilha.

De forma muito abreviada podemos caracterizar o debate que dá pelo desagradável nome de "guerra das ciências" da seguinte maneira: alguns autores defendem que não há uma realidade independente dos seres humanos, não existindo qualquer diferença entre, por exemplo, a guerra retratada nos filmes "A Guerra das Estrelas", que é uma mera ficção, e as leis da gravidade ou a composição da atmosfera de Júpiter, que os cientistas pretendem ser coisas reais. Deste ponto de vista, as ciências como a física ou a biologia não descrevem uma realidade independente dos seres humanos: pelo contrário, criam essa realidade. Assim, o que a ciência diz serem verdades objectivas são, de facto invenções inteiramente subjectivas, não respondendo a quaisquer constrangimentos excepto os preconceitos dos cientistas (incluindo preconceitos racistas, sexistas, classistas, colonialistas, etc.).

Alguns cientistas sentem-se muito ofendidos com esta perspectiva, e respondem com a retórica do costume: que a ciência é perfeitamente objectiva, que a ciência é a Verdade, que as leis da gravidade são reais e não meras ficções, e convidam quem duvida disto a atirar-se da janela — é o caso de Dawkins, por exemplo. (Curiosamente, Michael Ruse mostra que Dawkins está longe de ser um autor importante em biologia — é, sobretudo, um divulgador, tendo publicado poucos trabalhos especializados, fruto da sua própria investigação.)

Este debate, algo ingénuo, é aprofundado e tornado interessante por alguns filósofos, sendo Karl Popper e Thomas Kuhn os seus precursores e ainda hoje duas referências cruciais para os dois campos opostos. Segundo Karl Popper, a melhor ciência aproxima-se assimptoticamente da verdade das coisas; segundo Thomas Kuhn, o próprio conceito de verdade só faz sentido no interior de um "paradigma". Por "paradigma" Kuhn entende coisas subtilmente diferentes em passagens diferentes, mas em geral é um conjunto de ideias que condicionam o modo como outras ideias serão entendidas. A noção de paradigma torna impossível afirmar, segundo Kuhn, que a física de Newton é realmente melhor do que a de Aristóteles; são apenas diferentes, como diferentes filmes ou diferentes romances.

Ao estudar a história da teoria da evolução pela selecção natural, Ruse procura determinar quem tem razão neste debate. Mas não se pense que se trata de um livro para especialistas; pelo contrário, é um livro de divulgação, que pode ser lido unicamente para ganhar informação histórica sobre o desenvolvimento da biologia evolucionista. Com clareza, humor e articulação, Ruse expõe os aspectos fundamentais da história da biologia evolucionista. E o resultado que alcança não é surpreendente: como todas as outras ciências, a biologia evolucionista começa por ser uma ideia vaga, mais ideologia do que ciência, transformando-se a pouco e pouco, graças aos esforços de muitos cientistas, numa ciência tão objectiva quanto possível, que responde às mais rigorosas restrições epistémicas.

E é neste sentido que o livro de Ruse não agrada nem a gregos nem a troianos, mas é tão mais fascinante precisamente por isso. Ao mostrar que a ciência não é a Torre de Marfim que muitos cientistas apregoam, mas que também não é uma mera ficção, como alguns pensadores e sociólogos afirmam, Ruse permite concluir que a ciência é uma actividade cognitiva como qualquer outra, sem mais prerrogativas do que a história ou a crítica literária, não se confundindo todavia com mitologia, ficção ou religião.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (1 de Fevereiro de 2003)
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