Dicionário de Filosofia John R. Searle
1 de Abril de 2006 ⋅ Filosofia

Auto-retrato filosófico

John R. Searle
Universidade da Califórnia, Berkeley

A maior parte do meu trabalho em filosofia foi dedicada a diferentes aspectos de uma única questão: como conciliamos aquilo que sabemos acerca do modo como o mundo é, o mundo de factos em bruto descrito pela física e pela química, com uma concepção que temos de nós próprios enquanto animais conscientes, cientes, intencionais, racionais, sociais, que executam actos de fala e têm livre-arbítrio? Trabalhei neste problema em pelo menos quatro conjuntos diferentes de questões.

1) Significado e Atos de Fala. O problema essencial na filosofia da linguagem é simplesmente este: quando falo, a minha boca emite uma carga acústica. Também executo actos de fala com significado, tais como fazer afirmações, promessas, perguntas, etc. Como passamos dos factos em bruto da física para os factos semânticos do ato de fala? Respondo a esta pergunta e outras relacionadas no livro Speech Acts: An Essay in the Philosophy of Language (1969) (Os Actos de Fala 1984). Esse livro deixou sem resposta uma série de perguntas acerca da metáfora, de actos de fala indirectos, ironia, ficção, etc., que abordo num segundo livro, Expression and Meaning: Studies in the Theory of Speech Acts (1979) (Expressão e Significado 2002).

2) A Mente: Consciência e Intencionalidade. Usando resultados da minha teoria dos actos de fala, abordei o problema da intencionalidade, a propriedade da mente que a faz visar objectos ou estados de coisas no mundo, ou ser acerca deles, em Intentionality: An Essay in the Philosophy of Mind (1983) (Intencionalidade 2002). Nesta obra, trato a intencionalidade como um fenómeno biológico, natural, no mesmo sentido em que a fotossíntese e a digestão são fenómenos biológicos naturais. Isto permitiu-me apresentar, de passagem, uma solução para o problema da mente-corpo. Os estados mentais são simultaneamente causados por processos neurobiológicos no cérebro e realizados nestes. Chamo “naturalismo biológico” a esta tese, que tanto rejeita o dualismo como o materialismo. A discussão conduz naturalmente a uma análise da consciência, e escrevi diversos livros que discutem a consciência, entre eles The Rediscovery of the Mind (1992) (A Redescoberta da Mente 2006) e The Mystery of Counsciousness (1997) (O Mistério da Consciência 1998).

Enquanto trabalhava nestas questões, descobri quão intensamente as minhas teses estavam em desacordo com a filosofia da mente dominante. Na sua maioria, os meus contemporâneos negaram a irredutibilidade da consciência e da intencionalidade e aceitaram várias formas de “materialismo”, como o comportamentalismo, o fisicismo, o funcionalismo e o computacionismo. Penso que todas estas perspectivas são falsas, e, na verdade, assentam todas no mesmo erro de aceitar as categorias cartesianas. Discuti estes tópicos em A Redescoberta da Mente e noutros livros, dos quais Minds, Brains and Science (1984) (Mente, Cérebro e Ciência 2000) é talvez o mais conhecido. Também levanto estas questões em Mind: A Brief Introduction (2004).

3) Realidade Social. Pressupondo que apresentara pelo menos as linhas gerais de uma solução para os problemas que me preocupavam acerca da linguagem e da mente, passei para a realidade social e institucional. Que modo de existência têm fenómenos sociais como o dinheiro, a propriedade, o governo e o casamento, num mundo que consiste inteiramente de partículas físicas e campos de forças? Procurei resolver esta questão em The Construction of Social Reality (1995). Afirmo que a noção crucial na compreensão da realidade social é a de uma função de estatuto, uma função que uma pessoa ou um objecto pode desempenhar, não em virtude da sua estrutura física, mas em virtude de a sua comunidade aceitar colectivamente que tem um certo estatuto, como ser presidente ou uma nota de vinte dólares.

4) Racionalidade. Num livro recentemente publicado, Rationality in Action (2001), critico aquilo a que chamo “modelo clássico de racionalidade”, segundo o qual todas as acções racionais são causadas por crenças e desejos. Proponho uma concepção alternativa que sublinha o papel do livre-arbítrio, daquilo a que chamo “o hiato”, e o papel, na compreensão do comportamento racional humano, de razões para a acção que são independentes de desejos.

O meu principal objectivo na filosofia foi sempre construtivo, e não polémico. Penso que a filosofia numa era pós-cartesiana, pós-céptica deve ser teórica, sistemática e abrangente. Todavia, encontrei uma série do que me parecem perspectivas falsas, e empenhei-me em determinados debates amplamente publicitados. Talvez o mais conhecido destes seja o Argumento do Quarto Chinês, em que procuro refutar as afirmações daquilo a que chamo Inteligência Artificial Forte, a tese de que ao criar o tipo correcto de programa de computador estamos automaticamente a criar uma mente, que a computação é constitutiva da consciência e da intencionalidade.

Tive debates com pragmatistas, pós-modernistas, desconstrucionistas e multiculturalistas. Destes, o mais importante, creio, tem a ver com o ensino superior. Defendo uma certa concepção tradicional do ensino superior como uma questão de procurar a correcção intelectual e não política. Escrevi um livro sobre a revolta estudantil, The Campus War (1971).

Iniciei a minha formação universitária na Universidade do Wisconsin, e com dezanove anos fui para Oxford na qualidade de bolseiro do Rhodes Trust. Recebi quase toda a minha formação filosófica em Oxford, e quando acabei a graduação tornei-me leitor em Christ Church, Oxford. Lecciono em Berkeley desde 1959.

John R. Searle

Retirado de Dicionário de Filosofia, dir. de Thomas Mautner (Lisboa: Edições 70, 2010)
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