Caminhando ao Longo do Rio, de Mikael Kihlman
1 de Fevereiro de 2000 ⋅ Opinião

Será o cristianismo um terrível desastre?

Alan Ryan e Christopher Howse

25 de Novembro de 1999

Caro Christopher Howse

À medida que nos vamos aproximando do Natal, vejo-me dividido, como sempre, entre o prazer que retiro dos rituais familiares típicos da quadra e a minha profunda convicção de que, enquanto religião institucionalizada, o cristianismo tem sido um terrível desastre. Sou um ateu assumido, por motivos puramente filosóficos. Penso que não há Deus e, portanto, Cristo não pode ser seu filho, nem mesmo seu parente. Mas esse não é o assunto que está aqui em causa. O meu ponto de vista é que, da mesma forma que o cristianismo pode ser falso como doutrina mas, ao mesmo tempo, útil e atraente como instituição, também pode ser verdadeiro enquanto doutrina e pernicioso enquanto instituição.

Comecemos pela tolerância. De uma maneira geral, o paganismo era tolerante. Claro que nenhum estado clássico tolerava as opiniões que ameaçassem a sua estabilidade, mas sentia-se à vontade para permitir que os indivíduos adorassem os seus deuses preferidos, desde que isso não ameaçasse a ordem social. Os romanos simbolizaram a vontade de aceitar que os povos conquistados viessem a fazer parte do estado romano, ao permitirem os seus deuses em Roma.

Foi o cristianismo que trouxe ao mundo a intolerância religiosa. Não é preciso exagerar; o mundo antigo era dificilmente sensível relativamente a massacres de prisioneiros, violações, roubos e por aí em diante. Mas não impunha uma ortodoxia doutrinal, nem matava aqueles que fossem dissidentes. O conceito de heresia emerge, somente na altura em que o cristianismo passa a usar o poder do estado para impor uma uniformidade doutrinal que a argumentação nunca poderia alcançar.

Foi em revolta contra a intolerância cristã que a primeira lei sobre a tolerância foi decretada por um imperador romano — Juliano, o Apóstata. No final, como salvaguarda, emergiu uma ideia de tolerância nitidamente cristã, que levava a sério a ideia da santidade da consciência. Mas emergiu apenas após ter-se tornado óbvio que nem protestantes, nem católicos tinham um propósito sério de dominar a Europa inteira e imporem os seus pontos de vista aos recalcitrantes.

O que torna o espectáculo da intolerância particularmente repugnante é, contudo, a maldade do credo por intermédio do qual os perseguidores actuavam. O interesse do cristianismo em saber o que pensam os heréticos e os incrédulos está enraizado num ódio ao mundo e à carne que tornou um enorme número de pessoas desnecessariamente miseráveis. Claro que não quero com isto dizer que é preciso ser-se cristão para ter opiniões curiosas sobre sexo, moral e a simples felicidade humana. Platão tinha opiniões curiosas sobre estes três aspectos — o que explica, sem dúvida, a razão pela qual Santo Agostinho achou o platonismo tão conveniente.

O que somos nós chamados a adoptar como padrão moral? Será o bem estar, nesta vida, de todos os que nos rodeiam, até onde conseguirmos chegar? Não. Somos chamados a cuidar da salvação das nossas próprias almas. Esta é uma doutrina de simples egocentrismo — uma espécie de versão transcendental do narcisismo que atormenta os jovens. No entanto, paradoxalmente, a mortificação também é prescrita pelo seu valor intrínseco, enquanto em qualquer ética racional queremos que as pessoas se sacrifiquem apenas por um bem irresistível. E o sacrifício que é geralmente pedido é o sacrifício dos prazeres da vida quotidiana.

Nas sociedades primitivas é útil que as pessoas saibam suportar a dor, sobreviver à perda habitual de familiares, etc. A ênfase nas virtudes estóicas faz sentido; assim como o faz a ênfase na coragem e na apetência militar numa sociedade onde os predadores são uma realidade. Mas o cristianismo personifica um código moral primitivo cuja ideia se perdeu. A sua ideia consiste em satisfazer os ditames de uma divindade arbitrária, que está obcecada com os desejos sexuais da sua criação.

A simples razão de queixa contra tudo isto é achar que tem vindo a causar muitos remorsos e misérias desnecessários — mais do que qualquer outra doutrina moral poderia ter causado. A acusação mais complicada consiste em ter corrompido a nossa compreensão da felicidade humana. Por um lado, as pessoas são incapazes de apreciarem prazeres inofensivos, por os julgarem pecaminosos; por outro, a única coisa que muitas pessoas sentem prazer em fazer é aquilo que é considerado pecaminoso. Sem o conceito cristão de pecado, a abordagem do sexo do tipo "olhem para estes" do jornal Sun seria impossível.

Nestes tempos semi-civilizados, onde a ameaça de uma perseguição sem reservas por parte dos cristãos foi recuando no ocidente enriquecido, se não nos Balcãs, é a vida depois da morte do conceito de pecado que constitui o legado do cristianismo. Em suma, quando o cristianismo teve o poder de oprimir, sempre o utilizou. Quando perde esse poder, mina a procura de uma felicidade humana sensata e sustentável. A estreiteza do seu enfoque na imoralidade sexual mina uma compreensão racional daquilo que a moral deve ser e subverte a luta constante e ascendente para reduzir a quantidade de miséria no mundo. Ah, e só mais uma coisa: não é bom para as pessoas acreditarem naquilo que não é verdade — pelo menos, sistematicamente e em larga escala.

Seu amigo dedicado,

Alan Ryan


28 de Novembro de 1999

Caro Alan Ryan

Eu não estou desejoso dos rituais familiares da quadra: lojas sobreaquecidas, cânticos de Natal e bocados de vómito no passeio. Talvez se ainda celebrássemos o Festival do Sol Invictus, isso fosse mais contido e de bom gosto.

Porém, fico encantado por concordar que é mau as pessoas acreditarem no que não é verdade. É igualmente mau as pessoas professarem aquilo em que não acreditam. Este é um argumento contra os modernistas que dizem o credo com os lábios mas desconfiam de qualquer coisa que lhes pareça improvável, tal como a concepção imaculada, a ressurreição — até mesmo a divindade de Jesus.

Não é surpreendente que, como ateu, seja hostil ao cristianismo. Tem de ser hostil a toda a religião revelada que proponha ensinamentos em que se tem de acreditar: judaísmo, islamismo, cristianismo. Alguns hindus e budistas estão menos incompatibilizados com o ateísmo. De qualquer forma, não vou continuar neste impulso comparativo de montras de religiões. A minha asserção é que o cristianismo é verdadeiro e benéfico.

É surpreendente que afirme que o cristianismo causou mais miséria do que qualquer outra doutrina moral poderia ter feito. Isso é o Pangloss virado ao contrário. O lugar no topo para aqueles que efectivamente causaram miséria tem de ir para os regimes ateus onde a moral é aquilo que convém ao estado: a China de Mao, a União Soviética de Estaline, a Albânia de Hoxha. O hitlerianismo é um caso especial — um perturbador sistema estudado e um inimigo amargo quer do judaísmo, quer do cristianismo.

Estará o cristianismo destinado conduzir as pessoas ao Céu? Sim. Chama a isso egocentrismo e narcisismo. Mas os cristãos só alcançam o Céu se obedecerem ao mandamento de amarem a Deus e ao seu próximo. Os egocêntricos estão excluídos. É verdade que é difícil avaliar os resultados do cristianismo se o objectivo é levar as pessoas para o Céu. Não sabemos até que ponto tem sido bem sucedido. Você diria que não pode ter sido bem sucedido, porque não há Deus, nem há Céu.

Mas levar as pessoas para o Céu, não constitui o único objectivo. O cristianismo é também uma religião de mistérios: lida com realidades para lá da compreensão humana (mas não contrárias a ela). O primeiro dever consiste em venerar Deus. Uma vez que o Deus do cristianismo é absolutamente bom e verdadeiro, este dever tem efeitos secundários que beneficiam quem O venera.

Isto não quer dizer que tenha o direito de dizer: "Ah, está a falar de um efeito religioso. Eu estou à procura de uma realidade mensurável." É de esperar que o efeito seja religioso, e os seres humanos têm fome da divindade. Muitas pessoas que não são cristãs partilham das suas expressões de visão espiritual. Veja-se a música. Bach é um apologista cristão, simplesmente através da sua música; a liturgia cristã diz coisas através da expressão artística que não podem ser transmitidas através de silogismos. Isto também se aplica a Frei Angélico ou Dante.

Temos uma dificuldade. A civilização ocidental é claramente cristã, mas também é influenciada pelo mundo clássico. Os actos mais escandalosos dos cristãos — terem escravos, apurarem as suspeitas sob tortura — são legados do mundo pagão. O cristianismo só lentamente se foi libertando dessas práticas tão pouco divinas. As guerras continuam porque os governantes enfurecidos não ouvem os pregadores. O cristianismo é, de certa forma, uma cultura vítima do paganismo.

O cristianismo refere-se sempre a Jesus: uma figura histórica, um homem — que era Deus. Mas este homem que era Deus não veio no seu poder pleno. Foi crucificado. Os cristãos encontram a razão de ser do sofrimento ao participarem no Seu sofrimento. Mais, pelo sacrifício de Jesus, as pessoas do mundo, feridas pela perversão moral (assassínio, roubo, ódio) reconciliam-se com Deus. Os ateus têm de tentar encontrar uma resposta diferente para o sofrimento e a perversão moral. Francis Bacon pintava imagens que alguns julgam serem representações do pior dos horrores deste século não cristão, mas ele era uma alma jocosa, sempre pronto para uma bebida e, no caso dele, um pouco de sexo masoquista.

O que nos conduz ao seu queixume repetido de que o cristianismo está obcecado por sexo. Não penso que isso seja verdade. Os antigos consideraram alguns actos sexuais vergonhosos e outros ridículos, como indubitavelmente o são. Posto de forma clara, o cristianismo proíbe a actividade genital fora do casamento. Muitos pagãos têm tabus mais estranhos. Não quero pôr-me agora a falar da circuncisão feminina.

O que considero ofensivo é a asserção que o sistema moral cristão é "primitivo". O cristianismo retirou o Decálogo do judaísmo, mas o entendimento judaico de Deus não é, de forma alguma, primitivo — é uma crença num criador único, imaterial, todo-poderoso e bom.

Há inúmeras culturas "primitivas" que ainda subsistem por aí, com os seus aspectos melhores e piores. Mary Douglas descobriu que as mulheres Lele se tornaram cristãs porque na sociedade Lele tradicional tinham de sofrer a desagradável experiência de serem as "esposas da aldeia": a monogamia cristã constituiu, obviamente, uma alternativa atraente.

Quanto ao facto de o paganismo ser tolerante — bem, será que foi? Os Aztecas glorificavam com sacrifícios humanos. Roma tolerava a escravatura, o infanticídio, o homicídio num circo como mero divertimento, a prostituição ritual. Roma não tolerava judeus que derrubassem as imagens romanas no Templo.

Quase ninguém é ateu — ou qualquer outra coisa — devido a princípios puramente filosóficos. Grande parte das pessoas adquire as crenças da cultura que as rodeia. As coisas já são suficientemente más, sem que se lhes negue a esperança luminosa do cristianismo.

Seu amigo,

Christopber Howse


29 de Novembro de 1999

Caro Christopher

Diz, acertadamente, que têm existido imensos não cristãos e ateus perversos; eu abstenho-me de observar que Estaline emergiu de um seminário ortodoxo, e nada digo acerca das raízes cristãs e, mais especificamente, católicas do anti-semitismo.

Poderia dizer que é exactamente o excesso de crença que conduz aos excessos totalitários de uma espécie ou de outra, mas o meu alvo de momento é a crença cristã. E devo esclarecer um mal-entendido. Quando falo na miséria que a moral cristã causa, refiro-me àqueles que se agarram a opiniões morais cristãs. Claro que a miséria sexual é amplamente menos importante que o sofrimento no Gulag ou num campo nazi; mas estes últimos não constituem feridas auto-infligidas. É do repúdio gratuito da felicidade do mundo que me queixo.

Mas gostava de debater consigo a noção de uma religião de mistérios. A ideia que os prodígios de Bach são claramente cristãos é algo que não posso subscrever. Repare no jovem e réprobo Mozart, com os seus entusiasmos escatológicos. A sua Missa Requiem é maravilhosa, mas será que exprime uma visão manifestamente cristã da vida, da morte e da perseverança — diferente pela forma como usa as palavras da liturgia cristã? Não me parece. Richard Strauss era, provavelmente, pelo menos um nazi meio convicto: serão as Quatro últimas Canções um adeus nazi à vida? Stravinsky tinha razão em ser céptico acerca da ideia que a música, enquanto música, quer dizer alguma coisa.

É verdade que muitas coisas nos parecem misteriosas. A maior parte dos filósofos ainda estão perplexos com o fenómeno da consciência. Ainda assim, o progresso intelectual consiste em remover o mistério. A causa da febre tifóide foi misteriosa; hoje que sabemos o que a provoca, podemos curá-la. Espero que o mesmo venha a acontecer depressa com a doença de Parkinson e de Alzheimer.

Ser indulgente com o mistério está, se é que o posso dizer de forma inofensiva, ligeiramente próximo da preguiça intelectual: compreender como funciona o mundo é uma questão de desvendar os segredos da natureza, e não de fechar ainda mais o véu à volta deles. O mundo não perde nada em ser compreendido e não há razão para julgarmos que vamos sofrer se tivermos uma melhor compreensão, tanto dele como de nós. O mundo não precisa da convicção de que existe um mistério no âmago do próprio ser; precisa antes, de mais senso comum.

O que me traz de regresso ao ponto de partida. Eu não adquiri a minha descrença devido a princípios puramente filosóficos; antes, nunca me pareceu remotamente possível a existência de uma divindade do tipo da que é descrita na Bíblia, nem que quando morrêssemos pudéssemos fazer algo mais do que morrer. Mas a minha principal razão de queixa é contra o cristianismo institucionalizado, uma força retrógrada tanto política, como intelectual — nem sempre, mas certamente mais vezes do que menos; seguramente melhor que os regimes loucos e cruéis pagãos ou ateus, mas igualmente e seguramente pior que os melhores. Não vou mencionar a Irlanda do Norte nestes tempos de optimismo moderado — mas os meus colegas perdoar-me-ão se termino por assinalar o quase fanatismo letárgico que caracterizou Oxford até que o repúdio dos Test Acts permitiu que os descrentes animassem o local.

Os melhores cumprimentos,

Alan


1 de Dezembro de 1999

Caro Alan

"Preguiça intelectual" é um conceito engraçado. Provavelmente não é nada intelectual, mas deriva ou do medo (daquilo que possa vir a ser descoberto) ou da ociosidade que faz negligenciar os exercícios de piano, ou o lavar da louça. Não penso que o conceito de mistério contribua para este vício; bem pelo contrário.

Admito que usei "mistério" de forma imprudente, se não preguiçosa, ao apelidar ambiguamente o cristianismo de "religião de mistérios". Os mistérios do culto cristão são ritos que os cristãos acreditam ser a reconciliação entre Deus e o homem. A palavra latina para esse mistério é sacramento: um acto físico que significa e concretiza as realidades espirituais. A oração e a veneração são actividades humanas de excelência. Incluo-as entre os benefícios do cristianismo, não as considerando indulgentes, nem miseráveis.

O outro significado de "mistério" é aquele usado num "crime misterioso". Na sua maneira de ser, consistentemente ateia, a única forma de mistério que admite é uma medida desconhecida — a resposta a uma pergunta como "O que causa a doença de Parkinson?" No meu vocabulário existem mistérios que transcendem a natureza e não são totalmente cognoscíveis pelo intelecto humano, mesmo quando este está bem exercitado. A reconciliação da humanidade com Deus, pelo sacrifício de Jesus, Deus e o homem — o mistério central do cristianismo — são um exemplo primordial. Penso que o perigo não é tanto a preguiça intelectual, mas o reducionismo. Da mesma forma que a pessoa humana não é explicável através das variações electroquímicas do cérebro, também, de forma análoga, o significado da religião cristã não se esgota na ciência. Seguramente que não na ciência empírica, mas nem mesmo na ciência metafísica. Se Deus é aquilo que os cristãos afirmam que é (puro acto, intelecto infinito e por aí fora), então não pode ser explicável por uma fórmula, ainda que muito poderosa. Isto não implica uma antipatia com os esforços filosóficos. O cristianismo não é amigo do anti-intelectualismo; como sabe, a Summa de São Tomás de Aquino coloca a questão: "Será que Deus existe? Aparentemente não". E mesmo que Ockham e Descartes tenham tido influências perniciosas, eram cristãos e filósofos, filósofos cristãos.

Mas continua a objectar que o cristianismo torna as pessoas infelizes por não lhes permitir sexo suficiente, ou formas de sexo mais convenientes. É claro que não advoga toda a espécie de actividade sexual em toda e qualquer circunstância. Mas eu julgava que querer fazer algumas coisas (como, digamos, ter uma família estável e feliz) implicasse abstermo-nos de fazer outras coisas (esquemas de uma noite). Não sei que tipo de sexo é que realmente deseja — uma vez que foi você que puxou o assunto.

Estou mais preocupado com a sua antipatia pelo "excesso de crença". Mencionei Estaline e Mao, não enquanto indivíduos perversos que eram, e por coincidência, ateus, mas enquanto pessoas que criaram sistemas ateus que foram cruéis. Eles não acreditavam demasiado, mas acreditavam nas coisas erradas — coisas que provocaram consequências desastrosas para outros. Penso que se conseguir derrubar o cristianismo, virá a encontrar outra ideologia perversa que florescerá como uma erva daninha no seu lugar.

Faz muito bem em viver a sua moral ryanista inteligente, tolerante e cuidadosa em Oxford. O problema é que a alternativa que implicitamente oferece para o cristianismo — e o totalitarismo — parece padecer grandemente de falta de idealismo.

O cristianismo caracteriza-se por uma energia intelectual, um sublime na arte, uma regularidade na veneração, um equilíbrio na moral pessoal, mas também, entre os seus mais respeitados praticantes desde São Francisco à Madre Teresa, numa vontade de fazer o bem aos outros.

Tenha um mês feliz,

Christopher


2 de Dezembro de 1999

Caro Christopher

Bem, sim e não. Claro que à medida que prosseguimos começo a agarrar-me as minhas inclinações filosóficas, bem como às minhas ansiedades sociológicas, e começo a dizer que tudo depende. Nesta disposição de pensamento, sinto-me seguramente tentado a concordar que quando as pessoas não acreditam em laivos de doutrinas de uma fé tradicional, não acreditam em nada, mas em absolutamente tudo.

Mas primeiro o sexo, a felicidade e o que pode ser a moral e o que a pode sustentar. Claro que não penso que todas as formas de comportamento sexual devam ser apoiadas; nem mesmo penso que todas as formas de actividade sexual entre adultos e por consentimento mútuo sejam correctas, embora me incline a pensar que a lei deve permanecer à margem. Apenas observo que a tradição cristã fez uma mau trabalho ao ensinar as pessoas a autopromoverem a sua felicidade e a dos outros e que tentou, em troca e com demasiado sucesso, instaurar a culpa, o medo e a miséria.

E a causa em que está enraizado este problema é pensar-se que a moralidade consiste num número determinado de mandamentos decretados por uma divindade, em vez de um número determinado de regras sensatas para a vivência em comunidade e algumas sugestões úteis sobre autodomínio e auto-estima. Como medida de segurança, muitas morais do cristianismo moderno sobrepõem-se a outras éticas seculares sensatas; John Stuart Mill assegurou-nos que Aristóteles era um utilitarista, e que o espírito utilitarista estava imbuído dos ensinamentos de Cristo. A minha nota de rodapé é que deveríamos afastar o que é distintamente cristão. A simples felicidade é aquilo a que damos menos importância.

Quanto à reconciliação, só se existir um Deus que por alguma razão escolheu tornar a vida da humanidade difícil (porque Adão e Eva andaram na apanha das maças na árvore errada) é que se torna necessária a reconciliação. Mas, o que devemos pensar do dono de um pomar que perpetrou o seu ressentimento ao longo de vários milhares de anos?

E por que razão deixar que o seu próprio filho seja assassinado por governadores romanos ociosos e uma multidão sedenta de derramamento de sangue constitui uma forma de alcançar a reconciliação? Suponhamos que aceitamos tudo isto como uma alegoria elaborada — é uma alegoria de quê? Se é uma alegoria da necessidade que muitos sentimos, à medida que envelhecemos, de estarmos prontos a embrulhar as nossas vidas, acertarmos as nossas contas morais, fazermos as pazes com os nossos inimigos e dizermos aos nossos amigos o quanto os estimamos — então por que razão não deitamos mãos à obra, em vez de nos deixarmos confundir com esta alegoria duvidosa?

Em suma, quero Bach e Mozart, mas rejeito que a crença cristã seja o preço a pagar. Pela mesma moeda, quero equilíbrio na crença, um respeito verdadeiro pelo valor da vida humana e uma seriedade decente acerca da vida — mas rejeito que o cristianismo seja o melhor fundamento para isto, e muito menos algo essencial. Comecei como um ateu intuitivo, prossegui como ateu filosófico e, no fim da meia idade cheguei à conclusão que não gostaria que Deus existisse — ainda que somente porque teríamos de o julgar por crimes contra a humanidade.

Com os melhores cumprimentos,

Alan


3 de Dezembro de 1999

Caro Alan

A sua alternativa ao cristianismo parece-me desanimadora, perigosa e aborrecida. Santo Deus! Imagine a vida num mundo com as regras morais traçadas por John Stuart Mill!

Muito bem, pode ficar com o seu sexo. Que lhe faça bom proveito. Mas duvido que lhe traga felicidade. Também pode ficar com as tragédias de Sófocles mas não pode ficar sequer com a tragédia Dr. Fausto de Marlowe. Não pode reivindicar Bach, nem mesmo Mozart, e ainda menos Dante ou Frei Angélico. O que quer é uma moral racional, não uma moral dada por Deus. Certamente que a moral deve ser razoável. Mas onde vai encontrar alguém que concorde com o sistema que inventou? Os cristãos acreditam que há uma lei que está escrita no coração dos homens; mas muita gente ignora-a e ninguém parece ter força para a seguir pelos seus próprios meios.

Você não quer a libertação do materialismo de São Francisco, nem a hospitalidade de São Benedito, nem as inspirações de São Tomás de Aquino, nem o amor incondicional de Madre Teresa. Em vez disso, que benefícios utilitaristas podemos almejar? A prisão circular, a casa de correcção, a pesquisa embrionária? Está grato por Deus não existir, caso contrário teria de o culpar pelos males do mundo. Ao menos reconhece que algo de definitivamente mau se passa com o mundo; como poderemos livrar-nos disso? Acusa os cristãos de "ódio ao mundo" — embora na sua Bíblia leiam que o criador, Deus, "viu que era bom". Mas o Deus que inventou, maniqueísta e culpado de tudo, não é o Deus do cristianismo.

O povo judeu seguia uma lei moral sem ter a esperança certa numa vida futura. Os cristãos têm as mesmas obrigações e, apesar das suas acções perversas, esperam pela misericórdia e pela felicidade eterna. O que é um grande bónus. Gostava de o encontrar lá.

Feliz milénio,

Christopher

Alan Ryan é reitor do New College, em Oxford, e autor de Liberal Anxieties & Liberal Education
Christopher Howse é editor de obituários do Daily Telegraph
Cartas originalmente publicadas em The Prospect.
Trad. portuguesa de Carla Ferreira Castro originalmente publicada em O Independente.
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