Convite para uma nova atitude

Desidério Murcho

Há um problema que sempre prejudicou o desenvolvimento da ciência, da cultura e do ensino em Portugal. E que continua a ser um sério obstáculo ao desenvolvimento. Naturalmente, só posso falar do meio que conheço bem: o meio filosófico. Mas não há motivos para pensar que nos outros meios as coisas sejam diferentes; pelo contrário, há motivos para pensar que são semelhantes.

Esse problema é o seguinte: a generalidade das pessoas ligadas ao ensino e à investigação em filosofia não trabalha em prol do bem comum. Isto acontece por dois tipos de motivos.

Por um lado, uma certa "cegueira", aliada a um grande egoísmo, que os faz preferir o que favorece os seus currículos, e não o que é importante para o desenvolvimento da filosofia em Portugal. Sucedem-se assim conferências inúteis e publicações inúteis que, claro, não têm público. Este facto, que deveria merecer a reflexão de todas as pessoas que estão ligadas à filosofia, parece até ser motivo de orgulho, de quem gosta de se sentir superior. É assim que se publicam obras de filosofia para as quais não há leitores, ao passo que as obras verdadeiramente úteis, as obras de carácter introdutório, praticamente não existem. Que fazem os nossos professores universitários? Serão incapazes de escrever obras de introdução às áreas das quais são pretensos especialistas, como acontece no resto do mundo? A resposta infeliz é esta: é muito mais difícil escrever uma boa obra de introdução à filosofia, do que escrever artigos obscuros que ninguém pode perceber que estão cheios de erros — quem faria tal coisa? Os outros "especialistas"? Mas em Portugal "parece mal" corrigir o trabalho de um colega — como se o estatuto de Professor Doutor fosse equivalente ao de um ser que nunca erra.

Por outro lado, as carreiras, as antipatias pessoais, a vontade de se destacar e tudo o que é comezinho na infeliz natureza humana provocam "guerras" surdas de bastidores, com "capelas" autofágicas e rivalidades tolas, segredinhos e parvoíces. A verdadeira rivalidade deveria ser esta: cada pessoa e cada grupo deveria dar o seu melhor em prol da filosofia em Portugal, para que dentro de 10 anos os mais jovens possam encontrar uma situação melhor do que aquela que nós encontrámos. Ao invés, o trabalho de má qualidade — ou simplesmente inútil — vai-se sucedendo, sem que isso seja jamais denunciado.

Associados a estes dois factores há ainda um terceiro: a pretensão. Alguns dos melhores professores de filosofia que conheci são pessoas modestas, que querem apenas — e conseguem! — ser professores competentes de filosofia. Infelizmente, parece que a maioria das pessoas que trabalha em filosofia em Portugal tem pretensões ao estatuto de Grande Pensador, como se estivessem a par dos melhores investigadores internacionais. É preciso compreender que Portugal neste momento precisa muito mais de professores de filosofia competentes, capazes de ensinar correctamente os problemas, argumentos e teorias fundamentais da epistemologia, da ética, da filosofia da religião, etc., do que de Grandes Pensadores.

E a verdade, claro, é que um país em que a maior parte dos estudantes é submetido a um ensino deformador jamais poderá ter investigadores de nível internacional, porque quando as pessoas chegam a doutores já estão de tal maneira deformadas e hipnotizadas, e as suas lacunas formativas são de tal ordem, que são incapazes de compreender um texto introdutório simples de filosofia, quanto mais as grandes obras dos grande filósofos. É por isso que em Portugal se produzem tantos textos académicos de filosofia que não são mais do que jogos de palavras de significado dúbio que repetem mais ou menos o que os grandes filósofos disseram, mas mal; é que na altura em que as pessoas chegam a doutores em Portugal, a filosofia é para elas apenas um conjunto de palavras cujo significado real lhes escapa em grande parte. Os instrumentos básicos e as distinções elementares da filosofia são-lhes estranhos: quantos Grandes Pensadores portugueses sabem usar um simples modus tollens e quantos sabem o que é o carácter factivo do conhecimento? A julgar pelos manuais do ensino secundário, muito poucos; e os autores dos manuais do ensino secundário foram formados pelos nossos Grandes Pensadores. Logo, algo está errado nisto tudo.

Proponho uma nova atitude. Proponho que todas as pessoas que trabalham em filosofia em Portugal procurem dar o seu melhor pelo incremento do ensino e do estudo da filosofia em Portugal — colocando isso à frente dos seus interesses pessoais, das suas carreiras, das suas simpatias e antipatias. Com tolerância, correcção e cordialidade; sem vaidades; modestamente; com rigor e honestidade. Como é óbvio, se um número significativo de pessoas fizer isto, ficaremos todos rapidamente melhor — incluindo portanto essas mesmas pessoas que agora só pensam em si mesmas. Vamos a isso?

Desidério Murcho
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