Opinião

Filosofia e Internet

Desidério Murcho

A Internet pode constituir um aliado da filosofia, se professores, estudantes, investigadores e curiosos a quiserem aproveitar. Nos meus tempos de estudante de licenciatura, tinha de esperar 6 meses por um livro estrangeiro. Mas, pior do que isso, não tinha forma de saber que livros estavam publicados lá fora que me poderiam interessar. Agora, com a Internet, encomenda-se um livro numa boa livraria on-line estrangeira e ele chega-nos a casa uma ou duas semanas depois. E essas mesmas livrarias informam-nos de tudo o que vai saindo na área da filosofia. E podemos ainda visitar os sites das casas editoras mais importantes na área da filosofia. O endémico isolamento cultural nacional, e consequentemente filosófico, começa a quebrar-se.

Ou talvez não. Parece haver uma grande resistência por parte dos professores em relação à Internet. Na minha experiência como criador da Crítica tenho verificado que a maior parte das pessoas que me contactam são estudantes ou curiosos; raramente um professor de filosofia português se manifesta, ou usa sequer a possibilidade que a todos é oferecida de aqui publicar críticas a livros, materiais didácticos, etc.

Não sei a que se deve esta resistência. Mas talvez um dos factores seja o seguinte: o modelo de Internet mais conhecido reduz este poderoso meio de comunicação a uma imitação dos meios de comunicação tradicionais, como a televisão e os jornais — além, claro, das lojas de discos, livros e software. Ora, este modelo informativo não é realmente apropriado à filosofia — nem a qualquer outra área do conhecimento, como a biologia ou a história. No entanto, a Internet não tem de se reduzir a este modelo de consumo rápido e ligeiro, superficial e volátil. A Internet pode e deve ser também encarada como uma enorme biblioteca, onde podemos encontrar textos de perfil menos imediatista: textos didácticos, ensaios e até livros e enciclopédias. Felizmente, alguns professores portugueses de filosofia já compreenderam este aspecto da Internet. Infelizmente, são uma pequeníssima minoria.

Desidério Murcho
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