Estaremos a Sonhar?, de Dale Terbush
21 de Agosto de 2004 ⋅ Ensino da filosofia

Entre o pragmatismo e o idealismo

Desidério Murcho

Assiste-se por vezes a um debate entre duas concepções aparentemente opostas de ensino. Podemos chamar-lhes “pragmatista” e “idealista”, se bem que estas duas palavras tenham um significado completamente diferente em filosofia.

A concepção pragmatista vê o ensino como algo totalmente ligado ao mundo empresarial, e ao serviço deste. Destaca a importância de dotar os nossos estudantes dos requisitos profissionais necessários para enfrentarem a vida activa com competência. Sublinha-se a importância que um ensino pragmatista e atento às realidades tem para o desenvolvimento nacional.

A concepção idealista, pelo contrário, insiste na pureza teórica do conhecimento. Defende o valor do conhecimento em si, e não apenas como um meio para produzir riqueza e desenvolvimento. Destaca a importância cultural do conhecimento puramente teórico, sublinhando que as universidades não podem transformar-se em centros de formação profissional.

Neste artigo quero defender uma posição intermédia. Acontece geralmente que é entre duas posições extremas que se encontra a verdade, e este parece-me precisamente um desses casos.

Não há qualquer dúvida que o ensino tem de estar atento às realidades do país e às suas necessidades. Não podemos tranquilamente ir todos estudar matemáticas puras e metafísica, enquanto os prédios e as pontes caem, e os doentes morrem, e o país não se desenvolve porque os seus empresários não sabem ser produtivos.

Mas é uma ilusão pensar que podemos ter bons técnicos seja no que for se não tivermos bons teóricos. É uma ilusão pensar que uma formação sólida em matemáticas puras ou em metafísica em nada ajudam ao desenvolvimento nacional. E é além disso desumanizante, tacanho e o resultado de cegueira cultural pensar que os seres humanos são apenas peças de uma cadeia de montagem — que não são também seres inteligentes e curiosos, que se interessam pelos enigmas mais teóricos e abstrusos estudados nas disciplinas mais abstractas e puras. Afinal, mesmo o burocrata ou o empresário mais tacanho, se ainda não morreu do pescoço para cima, aprecia as artes, a literatura e o pensamento científico, filosófico e religioso — voltando-se muitas vezes, aliás, para estas actividades depois de ter percebido que toda a riqueza que obteve só faz sentido se puder agora transformar isso em algo humanamente mais substancial, se bem que menos pragmático.

Diz-se por vezes que nada há de mais prático do que uma boa teoria e penso que esta é a direcção correcta. Não vejo nenhum problema em inserir nas universidades estudos mais práticos e vejo algumas vantagens em fazer isso, em vez de relegar os estudos mais práticos e formativos para o gueto dos politécnicos. Este apartheid não é uma boa ideia porque os estudos mais teóricos têm a ganhar com os estudos mais práticos e vice-versa, sem que nenhum dos dois perca a sua especificidade. Acontece com o estudo em geral aquilo a que Goodman e Rawls chamaram o “equilíbrio reflexivo”: é necessário calibrar os aspectos mais teóricos das nossas ideias pelas suas consequências práticas, e, inversamente, é preciso confrontar as nossas práticas com os seus pressupostos teóricos. Este processo é enriquecedor para ambas.

O leitor poderá concordar comigo, mas defender que há áreas do estudo universitário (ou da investigação, como pomposamente gostamos de lhe chamar) que são intrinsecamente abstractas e teóricas, sem nenhuma aplicação prática. Alguns ramos das matemáticas são alguns dos exemplos mais evidentes, mas também alguns dos ramos mais abstractos da filosofia ou da musicologia.

É verdade que há áreas extremamente abstractas. E o pragmatista defende que é um desperdício de recursos estudar estas áreas, ao passo que o idealista defende que não. Penso que o idealista tem razão, mas penso que os argumentos que sustentam a sua opinião têm de ser clarificados.

O primeiro argumento é pragmático: nunca podemos vir a saber quando algo que parece extremamente teórico e remoto acaba por ter uma aplicação prática. Isto tem acontecido repetidas vezes ao longo da história do conhecimento humano. Áreas da lógica à primeira vista completamente abstractas estão na origem… do computador em que agora escrevo, e da revolução da informação que estamos a viver. Logo, por motivos pragmáticos, é avisado investir no conhecimento puro, porque nunca sabemos as aplicações que poderão daí advir.

O segundo argumento é também pragmático, mas é menos usado no nosso país. Os estudos extremamente abstractos e teóricos, como certas áreas da filosofia, da matemática ou da cosmologia poderão nunca vir a produzir quaisquer benefícios directos, mas produzem um benefício indirecto: quem é capaz de pensar competentemente sobre as questões mais abstractas e teóricas de uma dada disciplina sem se deixar confundir e enlamear em formalismos ocos ou jogos de palavras fica com uma formação que lhe permite pensar competentemente sobre as questões mais pragmáticas. É por esse motivo que a filosofia, quando bem estudada, é uma das disciplinas mais valiosas das humanidades, precisamente porque dá aos seus estudantes uma competência crucial em qualquer actividade: ser capaz de tomar decisões, pesar alternativas, fazer escolhas, considerar argumentos, resolver problemas. É por isso que em países onde a filosofia é ensinada de forma competente os estudantes desta disciplina são, dos estudantes de humanidades, os mais requisitados pelo mercado de trabalho. Uma empresa que contrata alguém que sabe pensar rigorosamente sabe que tem um trabalhador de futuro; alguém que não só absorverá rapidamente a formação técnica específica para aquela empresa, mas que será também capaz de se adaptar a novos desafios, uma pessoa que será inovadora e autónoma, e cujas decisões serão melhores para a empresa do que alguém que erra sistematicamente ao pensar e se deixa confundir.

Todavia, a posição idealista chega aqui e pára, satisfeita por ter refutado o pragmatista. Mas o pragmatista sente-se defraudado, e com razão. Porque a prática subsequente das universidades, que o pragmatista critica, continua intacta: uma prática autista, de costas voltadas para o mundo, altiva e tão arrogante quanto tonta e inútil. E aqui tenho de dar a razão ao pragmatista; mas ele tem razão apenas porque a prática universitária é má, e não por ser teórica e pura.

As universidades e o sistema de ensino em geral não têm de pedir desculpa por serem teóricos e aparentemente remotos e afastados do dia-a-dia; é essa a natureza do estudo competente, e compreende-se que assim seja quando compreendemos que um juiz não pode andar a discutir na televisão os casos que julga. O calor do envolvimento e da discussão distorce a imparcialidade do pensamento e é por isso que os estudos mais teóricos e abstractos das universidades terão sempre de ter uma dose elevada de afastamento. Mas uma dose elevada de afastamento não é a mesma coisa do que o completo isolamento, e ainda menos do que o ambiente tumular que se vive em algumas universidades, onde discutir ideias é meio caminho para se ficar mal visto.

A necessidade de confrontar as nossas melhores ideias teóricas e abstractas com problemas práticos é enriquecedora para o estudo teórico e abstracto. E é um excelente antídoto para o pior problema que temos no nosso ensino universitário, e que depois se reflecte negativamente no ensino secundário: o formalismo. O formalismo é o que permite a professores fazer o contrário do que deveriam fazer. Para explicar o que isto quer dizer preciso de mais um parágrafo.

O conhecimento, quando nasce, vem sempre desnecessariamente complicado e enredado em ruído. Uma obra de lógica de um milhar de páginas do século XIX, cheia de curvas e contra-curvas, repleta de símbolos e excepções, pode agora ser expressa numa obra introdutória com apenas 2 centenas de páginas, obra que qualquer estudante de 18 anos compreende com o esforço a que está habituado em qualquer disciplina. Todavia, para o autor da obra original, pode ter representado um esforço de décadas, e os seus contemporâneos podem ter levado anos a compreender completamente a sua teoria. Faz parte do conhecimento esta capacidade para simplificar retendo o essencial, clarificar, tornar mais rigoroso e fácil de compreender. Se não fosse assim cada estudante levaria uma vida para compreender o que levou a Darwin, Newton, Einstein e Russell uma vida para compreender. E se fosse assim, não seria possível o progresso. Faz parte das obrigações do professor simplificar retendo o essencial, clarificar, corrigir deslizes, tornar mais rigoroso e fácil de compreender. Claro que para o professor poder fazer isso tem ele próprio de compreender o que está em causa, tem de ser capaz de distinguir o essencial do acessório, tem de ter capacidade de simplificação, tem de saber reconhecer os deslizes e de saber corrigir os erros — tem, em suma, de tratar a área da sua especialidade por “tu”.

Infelizmente, assiste-se em Portugal ao contrário disto. O professor, por não compreender cabalmente o que precisa de ensinar, ao invés de simplificar, complica, ao invés de se concentrar no essencial e eliminar o ruído do acessório, perde aulas inteiras com pormenores irrelevantes que só confundem os estudantes — e o resultado disto é o formalismo. O formalismo consiste em repetir pormenores sem compreender a floresta, e é isso que aparta o estudante e os investigadores portugueses da grande discussão internacional de ideias. E é por isso que são os estrangeiros que fazem avançar o mundo das ideias em física, matemática, filosofia e história, e não os portugueses. Porque o formalismo é paralisante, impede o desenvolvimento, exige anos de aprendizagem para uma coisa que competentemente ensinada se faz em 6 meses.

É por isso que o pragmatista está enganado. Os defeitos que ele aponta não resultam do facto de se tratar de estudos abstractos e meramente teóricos, mas da mera falta de competência dos agentes de ensino. E é aqui que proponho a minha ideia ao pragmatista: uma forma de combatermos a falta de qualidade é precisamente as universidades terem lado a lado os estudos mais teóricos e os mais aplicados. Vejamos um exemplo de como isto pode ter um efeito saudável na qualidade do ensino.

Hoje em dia, os estudantes estão habituados a ouvir acriticamente o que os professores dizem, sem nunca se perguntarem que querem aquelas coisas dizer. Para o estudante, transformado em funcionário público, cinzento e murcho, o que se diz nas aulas e o que se lê nos livros não quer dizer nada; são só fileiras de palavras para decorar e fazer testes e trabalhos, para ter uma nota e um canudo. Do ponto de vista do estudante, é tudo uma completa fantasia, sem qualquer interesse real. Infelizmente, os estudantes têm na maior parte das vezes razão. E é isto que urge mudar rapidamente.

Uma forma de essa mudança ocorrer é os estudantes começarem a perceber que o que lêem e o que ouvem nas aulas são ideias reais sobre coisas reais e que tanto podem estar certas como erradas, tanto podem ser mais prováveis como menos, tanto podem ser mais aceitáveis como decididamente inaceitáveis. Quando eles tiverem esta atitude o ensino terá despertado do seu português sono dogmático secular e haverá esperança para o nosso país. Porque os estudantes começarão a pensar nas ideias, a ver os seus pontos fracos, a procurar superar esses pontos fracos — começarão, em suma, a fazer o que fazem os seus colegas estrangeiros: a inovar e a produzir conhecimento, em vez de se limitarem a comprá-lo em saldos no estrangeiro, em livros estrangeiros muitas vezes mal traduzidos. Quando isso acontecer, Portugal terá saído da menoridade cultural e académica em que se encontra há séculos, e que sempre foi denunciada pelos nossos melhores intelectuais, de Eça de Queirós a Fernando Pessoa.

E faço do pragmatista meu aliado, porque se ao lado dos estudos mais teóricos e abstractos, houver estudos mais práticos e concretos, os estudantes poderão começar a perceber que ambos os estudos fazem parte de uma mesma família; que a diferença entre eles é de grau e não de espécie. E que as teorias morrem ou sobrevivem no confronto com a realidade. É o próprio estudo em geral que tem a ganhar com a integração dos estudos mais práticos nas universidades, mantendo embora os estudos mais abstractos.

Eis um exemplo, que conheço melhor por ser formado em filosofia. Quem se passear pelos departamentos de filosofia do nosso país para ler teses de mestrado verificará uma coisa curiosa. Há várias teses de mestrado que parecem ter algum interesse público e prático, pelos seus títulos e temas, mas que depois se revelam completamente abstrusos e irrelevantes. O leitor poderá com curiosidade folhear uma tese sobre bioética. Excelente! Precisamos de pensar seriamente nos problemas éticos da eutanásia, do aborto, da clonagem, da experimentação em fetos, etc. Mas rapidamente o seu entusiasmo esmorecerá. Ao invés de encontrar estudos que digam realmente algo que nos ajudem a pensar melhor sobre esses problemas, encontra estudos abstrusos e abstractos que, com palavreado muito caro, dizem basicamente que estas “problemáticas” são muito problemáticas e que temos de pensar nos limites da aplicação da ciência e até, eventualmente, de procurar orientação em Deus. E o leitor pergunta-se, e com razão, se acaso era necessário escrever 300 páginas com centenas de citações de grandes autoridades deste pequeno mundo para uma conclusão tão trivial.

É no confronto com a realidade que as piores práticas académicas caem pela base. É quando pensamos no que querem realmente dizer todas aquelas citações e palavras caras que as coisas mudam. Se os cursos de ética das faculdades tiverem de responder às necessidades concretas da sociedade, que precisa de profissionais que possam pensar sobre estas matérias com rigor e imparcialidade, terão de fazer melhor do que parafrasear afirmações que dizem coisas triviais de maneira complicada, e que vivem de jogos de palavras e associações selvagens de ideias. Os estudiosos terão de ser responsáveis pelas suas ideias, e terão de as defender com rigor e correcção lógica. As teorias da linguagem de Derrida, por exemplo, são excelentes para citar em teses infinitas, mas não explicam uma coisa tão simples como a questão de saber como um nome próprio, como “Sócrates”, refere a pessoa que refere. As teorias éticas de Levinas, por exemplo, são também excelentes para encher páginas de citações e para entrar em êxtase delirante, mas de nada nos serve se queremos saber se a ética tem algum fundamento racional, ou se o aborto é permissível, ou qual é a relação entre a motivação e a acção ética.

Estarei a ser injusto? Talvez. Talvez Derrida, Levinas e outros pensadores deste género sejam afinal interessantes. Mas este é um debate que só poderá prosseguir com os pés assentes na terra, para não nos embrenharmos em metáforas que nada dizem, em jogos de palavras perfeitamente aleatórios e em associações infantis de ideias. E uma maneira de termos os pés assentes na terra é termos ao lado dos estudos mais teóricos os estudos mais práticos — e ambos terão de se alimentar e enriquecer entre si. Sempre foi e sempre será nesta dialéctica entre o mais concreto e imediato e o mais abstracto e mediato que as grandes ideias humanas se desenvolveram — infelizmente, raramente em Portugal.

Desidério Murcho
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