A Cultura da Subtileza
Filosofia

A fragmentação da cultura filosófica

M. S. Lourenço
A Cultura da Subtileza: Aspectos da filosofia analítica, de M. S. Lourenço
Gradiva, 1995, 231 pp.
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Baseado num programa de Rádio onde todas as semanas M. S. Lourenço — responsável pela introdução do estudo da lógica moderna e da filosofia analítica no nosso país — discutia alguns pontos de vista com diferentes convidados, A Cultura da Subtileza oferece-nos a possibilidade de assistir à actividade típica da filosofia: a discussão detalhada em busca de uma melhor compreensão do tópico em causa. Abordando várias áreas da filosofia, desde a lógica até à filosofia da arte, este pequeno livro oferece uma visão plural da filosofia. O seu carácter intermédio faz dele uma leitura apetecível para estudantes, leigos e profissionais.

Cada capítulo começa por uma introdução ao tópico em causa, seguindo-se um ensaio original do convidado e o registo do que constituiu então um debate radiofónico. Os capítulos terminam com algumas indicações bibliográficas.

Prefácio

Um facto crucial no desenvolvimento da filosofia do século que agora termina foi a fragmentação da cultura filosófica europeia no que na verdade se pode considerar duas culturas filosóficas separadas, como se reflecte imediatamente na análise da literatura produzida neste século: há manifestamente uma cultura filosófica das línguas românicas (ou dos países destas línguas) cuja teoria e prática é irreconciliável com a cultura filosófica que partindo do Círculo de Viena se veio a generalizar aos países anglo-saxónicos e hoje a uma parte considerável da produção contemporânea de língua alemã. Sem querer entrar agora numa caracterização pormenorizada das diferenças que separam as duas culturas, gostaria no entanto de escolher dois critérios que facilmente isolam os aspectos vivamente antagónicos das duas culturas filosóficas, um primeiro critério de carácter cognitivo e um segundo de carácter estético ou estilístico. Assim, do ponto de vista cognitivo, a filosofia que é geralmente associada com a literatura de línguas românicas prossegue um objectivo que se pode, à falta de melhor, designar por especulativo, no sentido em que em geral se pretende à custa da associação de certas palavras ou grupos de palavras evocar pensamentos e conceitos, não sendo no entanto de todo possível provar que tal evocação é univocamente realizada pelo grupo de palavras escolhido para a representar. Em contraste, a cultura filosófica que hoje se implantou nos países anglo-saxónicos e num número crescente de universidades de língua alemã, conhecida através da designação de filosofia analítica, tem uma finalidade estritamente cognitiva, no sentido em que os seus cultores procuram através de um argumento válido demonstrar um aspecto até agora irreconhecido da estrutura do nosso conhecimento, sujeitando-se para isso a um veredicto sobre se a sua pretensão cognitiva é de aceitar ou de recusar. Os clássicos deste modo de escrever filosofia erigiram em instrumento decisivo para o refinamento dos seus argumentos o culto da subtileza, a partir do qual também se torna possível avaliar uma teoria filosófica como interessante por ser subtil ou trivial por não ter o grau suficiente de subtileza que permita distinções conceptuais diferenciadas. E assim, passando agora para o ponto de vista estético ou estilístico, esta cultura filosófica tem que ser expressa numa prosa de recorte conceptista e não é por isso de admirar que Wittgenstein seja ao mesmo tempo um paradigma desta cultura e um artista da prosa de língua alemã deste século. Quanto à caracterização estilística da filosofia que é em geral produzida nos países de línguas românicas, ela parece ser uma reencarnação do estilo de Villemain, sobre o qual Baudelaire fez a análise definitiva no seu ensaio L'Esprit et le Style de M. Villemain:

Horreur congéniale de la clarté, dont le signe visible est son amour du style allusionel... La phrase de Villemain, comme celle de tous les bavards qui ne pensent pas... commence par une chose, continue par plusieurs autres, et finit par une qui n'a plus de rapporte avec les précédantes que celleci entre elles.

O meu subtítulo “Aspectos da Filosofia Analítica” foi escolhido para sublinhar o carácter incompleto da apresentação feita da teoria e da prática da filosofia analítica, em particular nas suas relações com as subdisciplinas tradicionais da filosofia, uma incompletude que tem uma origem puramente contingente ou circunstancial. Das subdisciplinas tradicionais falta acima de tudo uma apresentação do que é o tipo de trabalho da filosofia analítica na ética, sobre o qual existe uma literatura copiosíssima e da qual se pode dizer que os seus resultados têm um grau de originalidade — e assim de subtileza — igual ao que foi atingido na filosofia da linguagem. Falta a seguir a apresentação da nova subdisciplina filosófica que se pode com direito dizer que foi uma criação da filosofia analítica em geral e de Wittgenstein em particular, nomeadamente aquilo a que ele chama filosofia da consciência e que foi fatal e erroneamente traduzida em inglês como philosophy of mind. Por último falta um relato do que tem sido o progresso feito em áreas da filosofia aplicada, como a filosofia do direito, a filosofia política e a filosofia da ciência em geral, uma designação que hoje exclui a filosofia da matemática. Chego assim propriamente ao momento da captatio benevolentiae, por meio do qual procuro arguir que a escolha apresentada é apesar de incompleta no entanto suficientemente representativa do espírito e da letra da filosofia analítica de modo a merecer um estudo, por parte do leitor interessado, do que diz respeito às subdisciplinas da lógica, teoria do conhecimento, estética e filosofia da linguagem.

A origem imediata deste trabalho foi um programa de rádio, o qual era suposto ter uma segunda série na qual as omissões a que acabo de me referir seriam corrigidas e daí o seu carácter contingente mencionado acima. Esta origem explica também a inclusão de um diálogo compilado a partir do que foi então ao vivo a disputa entre os dois pontos de vista, o do expositor e o do inquiridor, uma situação que se pode considerar como um arquétipo da própria origem da filosofia. Enquanto que a intenção subjacente a todos os ensaios é a da exposição fidedigna de conceitos e problemas correntes tendo em vista mais a acessibilidade do que a tecnicidade, no diálogo a ênfase é toda posta justamente na capacidade de fazer distinções subtis, na procura e na antecipação de contra-argumentos que levem precisamente a um refinamento da formulação original.

Com esta iniciativa a Rádio Cultura-RDP 2 veio juntar-se àquelas estações europeias como a BBC-Programa 3, a Rádio Difusão Austríaca e a Rádio Difusão da Baviera que emitem programas sobre filosofia analítica — os quais depois resultaram em livros de grande circulação — e é ao seu então Director, engenheiro João Paes, a quem tenho de agradecer a oportunidade criada. A transformação dos programas num texto legível é o resultado do trabalho do Dr. Desidério Murcho, do programa de Mestrado em Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

M. S. Lourenço

Índice

Prefácio

PARTE I — PERPLEXIDADE, DIÁLOGO E CONFLITO

1. A miséria do essencialismo (excerto)
Com Manuel Maria Carrilho

2. A concepção de filosofia de Wittgenstein
Com António Zilhão

3. A filosofia apresenta resultados?
Com António Marques

4. Por que escreveu Platão diálogos?
Com José Trindade Santos

PARTE II — LÓGICA E METAFÍSICA

1. O papel da lógica na filosofia
Com João Sàágua

2. Lógica, filosofia e matemática
Com Fernando Ferreira

3. Modalidade e existência
Com João Branquinho

PARTE III — ESTÉTICA E FILOSOFIA DA ARTE

1. A origem da obra de arte literária: o caso de Proust
Com Miguel Tamen

2. Mimese, a representação da realidade
Com António M. Feijó

3. A representação da realidade na música
Com Sidónio de Freitas Branco Paes

4. Tempo musical e tempo afectivo
Com João Paes

5. A fronteira da arte
Com João Bénard da Costa

Bibliografia

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