Ética

Toureiro: assassino ou agente cultural?

Pedro Madeira

1. O debate

No passado dia 5 de Junho, pela hora de almoço, vi a parte final de um debate entre António Saleiro, deputado socialista, e alguém que me pareceu ser um representante do Movimento Anti-Touradas de Portugal (MATP), no canal SIC Notícias. Uma das últimas frases que tive a oportunidade de ouvir foi de Saleiro: "Ninguém gosta tanto do touro como o toureiro" (transcrição literal). Em resposta, o representante do MATP disse que "o toureiro gosta tanto do touro como o assassino ou o pedófilo das respectivas vítimas", ao que Saleiro respondeu que "não se podem misturar as coisas" (querendo dizer, concerteza, que achava que não era lícito estabelecer uma analogia entre o caso da tourada e os casos do assassínio e da pedofilia porque os dois tipos de casos não eram relevantemente semelhantes, isto é, porque diferiam em aspectos que Saleiro pensava serem relevantes para que se pudesse considerar que a analogia estabelecida entre os dois tipos de casos era pertinente e útil para clarificar a situação).

2. O que eu pretendo com este artigo

O meu objectivo com este artigo é mostrar que, 1) embora haja diferenças entre o caso da tourada e os casos do assassínio e da pedofilia, essas diferenças não são tão relevantes como, à primeira vista, possa parecer; e que 2) a analogia estabelecida pelo presumível representante do MATP entre o caso da tourada e os casos do assassínio e da pedofilia é muito mais pertinente do que Saleiro julga. Passo, em seguida, a analisar aquelas que me parecem ser as duas diferenças mais óbvias que existem entre o caso da tourada e os casos do assassínio e da pedofilia (certamente aquelas que Saleiro tinha em mente), após o que mencionarei uma de que as pessoas, provavelmente, não se lembram.

3. Primeira diferença

Em primeiro lugar: enquanto que as touradas gozam de bastante popularidade nalguns países (nomeadamente nos latinos), tanto os assassínios como os actos de pedofilia são veementemente condenados por todos os países desenvolvidos, o que leva os assassínios e os actos de pedofilia a serem cometidos, geralmente, da forma mais discreta possível, ao contrário das touradas, que decorrem sob o olhar atento de uma plateia, unida em ambiente de festa. Será que resulta daqui que as touradas não sejam relevantemente semelhantes aos assassínios e aos actos de pedofilia? Não necessariamente, porque não podemos dizer que uma coisa seja boa ou, sequer, moralmente permissível (isto é, que a sua realização é, em termos morais, neutra: nem má nem boa) simplesmente porque a maior parte da população acha que essa coisa é boa ou que é moralmente permissível. Para se ver isto, não é preciso ir-se muito longe; basta pensar-se no exemplo das lutas de gladiadores realizadas sob a égide do Império Romano. Os romanos iam ver as lutas encarniçadas e violentíssimas dos gladiadores com a mesma emoção com que, se calhar, nós hoje vamos assistir a um jogo de futebol. No entanto, hoje em dia, todos achamos que essas lutas eram coisas horríveis.

(O leitor ou leitora que achar que as lutas dos gladiadores foram coisas boas ou moralmente permissíveis no seu tempo porque a sociedade romana as aceitava está a defender que os valores morais são sempre relativos a uma sociedade. Para se ver como esta posição é difícil de defender, veja-se o artigo "Ética e Relativismo Cultural," de Harry Gensler.)

Ora, é provável que o defensor das touradas tente usar as minhas próprias palavras contra mim, dizendo que as touradas também não são uma coisa má só porque está na moda protestar contra elas. Eu aceito esta objecção: se estar contra as touradas fosse apenas uma questão de moda, não se poderia dizer, só por isso, que as touradas eram uma coisa má. Mas o facto é que, pelo menos para mim, protestar contra as touradas não é uma questão de moda: é uma postura ética reflectida, a qual estou disposto a alterar se me derem boas razões para tal. Reconheço que é capaz de haver algumas pessoas para as quais ir para manifestações anti-tourada se resuma a ir com amigos reclamar por alguma coisa, ainda que não se saiba muito bem o quê nem porquê. Para outras pessoas, estar contra as touradas talvez seja uma espécie de atitude religiosa que não admitem pôr em causa. Todavia, para que analisemos seriamente esta questão, é preciso que não nos deixemos cegar pelas emoções. Recusar discutir seriamente esta questão é sinal de tacanhez e acomodamento intelectual (quer seja um defensor das touradas a ter este tipo de posição, quer seja um opositor das touradas, como é óbvio). Não devemos condenar as touradas só porque gostarmos muito de animais e nos faz pena o sofrimento do touro. Só devemos condenar as touradas se, reflectindo cuidadosamente sobre esta questão, encontrarmos boas razões para as condenarmos. O meu caso é exemplificativo: não gosto especialmente de animais; no entanto, parece-me haver boas razões para considerar que a tourada é uma coisa má. É por isso que sou contra as touradas.

(Note-se, no entanto, que ainda não procurei mostrar que a tourada é uma coisa má, mas apenas que não é por um grande número de pessoas acharem que ela é uma coisa boa ou por acharem que é uma coisa moralmente permissível que ela o é, necessariamente. Só a seguir procurarei mostrar que é duvidoso que a tourada seja uma coisa boa ou, sequer, moralmente permissível.)

4. Segunda diferença

Outra diferença entre o caso da tourada e os casos do assassínio e da pedofilia (e, certamente, a que mais salta à vista) é o facto de, num caso, a vítima ser um animal humano e, no outro, ser um animal não humano (o touro). É agora que as coisas se começam a tornar polémicas. Por que razão, segundo os defensores das touradas, nos será permitido fazer sofrer os touros numa arena só porque nos divertimos com isso? Uma resposta comum será, talvez, a de que "as pessoas são pessoas, os animais são animais". Ora, esta ideia foi-nos legada pela tradição judaico-cristã; podemos vê-la no seguinte excerto da Bíblia: "Deus disse ainda: "Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança. Que ele tenha poder sobre os peixes do mar e as aves do céu; sobre os animais domésticos e selvagens e sobre todos os bichos que andam sobre a Terra'" (Génesis, 1, 26). O problema com esta ideia é o de que, se formos ateus ou se professarmos uma crença religiosa que não defenda a superioridade do animal humano face aos outros animais, então não temos qualquer razão para aceitar este argumento.

O defensor das touradas que queira fazer um ataque mais elaborado à minha posição poderá, sem recorrer a razões de índole religiosa, dizer que é a nossa grande inteligência que nos separa dos restantes animais. Contudo, esta razão também não serve, porque há animais não humanos com inteligência bastante superior a alguns seres humanos. Um gorila adulto é, provavelmente, bem mais inteligente que um bebé humano recém-nascido. E depois também há o problema dos deficientes mentais profundos. Será que temos o direito de os matar apenas para nos divertirmos? Parece-me que não, e estou em crer que os defensores das touradas concordarão comigo, o que fragilizará a sua defesa da tourada; lembremo-nos de que um touro adulto (e, em geral, qualquer mamífero) tem, provavelmente, uma inteligência bastante superior a qualquer deficiente mental profundo.

Se eu estiver certo, então os factos de um ser não ter a mesma inteligência que um ser humano médio ou de um ser não pertencer à nossa espécie não são, por si só, elementos suficientes, à partida, para decidirmos se é eticamente necessário preocuparmo-nos ou não com o bem-estar desse ser.

5. Terceira diferença

Para além do mais, não nos esqueçamos de que há, ainda, uma outra diferença, esta de peso, entre os casos do assassínio e da pedofilia e o caso da tourada: enquanto a família do assassinado e a vítima de pedofilia e a sua família têm tribunais aos quais podem apresentar queixa, o touro não tem nada disso. O touro nunca poderá interpor qualquer processo aos seus agressores. Sob este aspecto, a situação do touro é, até, mais grave: precisa que reclamemos por ele.

Quer isto dizer que considero que matar um animal humano em plena posse das suas faculdades mentais é exactamente a mesma coisa que matar um touro? Não, também não vou tão longe. Embora ainda não tenha reflectido o suficiente sobre esta questão particular, inclino-me para achar que é mais grave matar um animal humano em plena posse das suas faculdades mentais do que qualquer outro animal, embora não possa dizer que esta seja a minha opinião definitiva; talvez sejam, apenas, os meus preconceitos a falar. (Mas, pelo menos, Peter Singer, um reputado filósofo australiano, considera que é mais grave matar um ser humano que outro animal qualquer devido ao maior grau de consciência do ser humano.)

No entanto, note que não é por eu achar que matar um touro não é tão mau como matar uma pessoa que eu vou achar que matar um touro não seja uma coisa má. Não é pelo facto de roubar não ser tão grave como matar que se vai achar que roubar não tem problema. Digo isto porque já ouvi pessoas dizer qualquer coisa como isto: "Mas porque é que vocês se preocupam com os touros quando há pessoas a morrer à fome?" Ora, este é um argumento muito fraco pelo seguinte: será que, pelo simples facto de eu me preocupar com o bem-estar dos touros, não me posso preocupar com o bem-estar dos timorenses? É óbvio que não podemos estabelecer esta relação causal. Eu posso preocupar-me com as duas coisas ao mesmo tempo. Posso ir a manifestações anti-tourada e boicotar os produtos das empresas que patrocinam touradas e posso enviar arroz e os meus antigos livros escolares para Timor. Uma coisa não impossibilita a outra.

6. Conclusão

De tudo o que disse concluo, portanto, que é, pelo menos, muito duvidoso que nos seja lícito ferir (já para não falar em matar) um touro na arena apenas por divertimento. Acho que consegui mostrar que a analogia entre o caso da tourada e os casos do assassínio e da pedofilia é pertinente e útil para clarificar a situação, ao contrário do que Saleiro pensa. Isto significa que acho que a tourada devia ser proibida por lei e que os responsáveis pela realização clandestina de touradas deviam estar sujeitos ao cumprimento de pena e ao pagamento de coimas suficientemente pesadas para serem realmente dissuasivas.

(É óbvio que, se fossemos analisar cuidadosamente todas as implicações do que eu disse, logo se nos poriam outras questões, nomeadamente a de saber se temos ou não o direito de matar os animais para os comermos. Mas não quero ir por aí; este pequeno artigo ocupa-se, apenas, do problema moral que a tourada representa.)

Há que dizer que a posição de Saleiro de que "Ninguém gosta tanto do touro como o toureiro" (a qual, afinal de contas, me levou a escrever este artigo) é, um pouco, a que está retratada em O Velho e o Mar, de Hemingway. O velho pescador trata, por várias vezes, o grande peixe que está a tentar pescar como "peixe-irmão", devido à valorosa luta que o peixe lhe oferece — um pouco à semelhança do que os comentadores tauromáquicos costumam dizer de um touro quando este dá luta: "está a bater-se com galhardia/bravura/valentia!" A "luta" do velho pescador com o peixe e a "luta" do toureiro com o touro simbolizam o esforço constante do homem para dominar a natureza. Não é claro até onde podemos exercer esse domínio. E acho que, com a realização de touradas (quer estas impliquem a morte do touro, quer não: desde que impliquem o sofrimento do touro), ultrapassamos largamente o que nos é moralmente permissível, como procurei mostrar atrás.

Confesso que esta posição de Saleiro de que "Ninguém gosta tanto do touro como o toureiro" me parece, a todos os títulos, absolutamente ridícula. Por que razão havíamos de matar aqueles que amamos ou de que somos amigos? Fará algum sentido dizer que gostamos de alguém que estamos dispostos a fazer sofrer só porque isso nos apetece? Será a vida um jogo trágico de forças em conflito e uma delas tem que sofrer? Francamente. O Sr. deputado Saleiro vai continuar muito por baixo na minha consideração enquanto continuar com este tipo de discurso populista e bairrista.

7. Conto consigo!

Bem, caro leitor ou leitora, se, na altura em que começou a ler este artigo, achava que não fazia sentido nenhum estabelecer uma analogia entre o caso da tourada e os casos do assassínio e da pedofilia, é provável que esteja, neste momento, um pouco confuso. É perfeitamente natural que esteja a olhar com desconfiança para este artigo; pôr em causa os nossos valores não é nada fácil. No entanto, note que os meus argumentos 1) estão à mostra (o que significa que são criticáveis e que estou disposto a pô-los de parte se me mostrar que estão errados) e 2) não dependem de emoções cegas (pelo que não podem ser atacados recorrendo a emoções cegas).

Estou completamente aberto a objecções e comentários da sua parte. Não hesite em mandar-me um email.

Pedro Madeira
pedro.madeira@kcl.ac.uk

Nota: Agradeço a Pedro Galvão os pertinentes comentários que fez ao artigo, e que me levaram a introduzir melhoramentos significativos na sexta secção.

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