Filosofando
30 de Julho de 2011 ⋅ Filosofia

Bricolagem filosófica

Sérgio R. N. Miranda
Universidade Federal de Ouro Preto
Filosofando: Introdução à Filosofia, de Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins
São Paulo: Moderna Editora, 2009, 480 pp., 4.ª ed.
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Em 2012 serão distribuídos pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) livros didáticos para o ensino de filosofia na rede pública. Um dos livros selecionados para a distribuição foi este. O seu projeto gráfico foi renovado para a quarta edição e está excelente. O livro ficou moderno, muito bem organizado graficamente, repleto de ilustrações que reproduzem obras de arte famosas, fotos de belas paisagens e de figuras históricas, histórias em quadrinhos, etc.

A proposta didático-pedagógica do Filosofando também não é má. A intenção principal é incentivar a reflexão dos alunos sobre questões filosóficas e questões cotidianas, evitando a mera imposição de conteúdos e a sua reprodução sem compreensão. Com esse propósito, as autoras apresentam a filosofia em sete unidades, que contêm em média cinco capítulos com claras divisões entre as suas seções. Cada capítulo contém uma exposição direta sobre algum tema ou questão filosófica, além de sugestões para reflexão, explicações de termos, pequenas biografias, etc. Ao final de cada capítulo há ainda trechos para leitura e discussão em classe, resumos, revisões e sugestões de atividades envolvendo os conceitos aí abordados, além de algumas questões retiradas de exames de admissão nas universidades brasileiras. A primeira impressão que temos do livro é, pois, a melhor possível.

Há atualmente a tendência de organizar os livros didáticos de filosofia por temas e não por período histórico. Quando o livro é organizado segundo as etapas da história da filosofia, o professor sente-se forçado a começar do começo, e devido à carga horária reduzida da filosofia nas escolas brasileiras, além de problemas como a substituição freqüente de professores nas escolas públicas, sem falar no seu despreparo ou falta de motivação, o máximo que o aluno aprende de filosofia é a pré-filosofia dos pré-socráticos, quando não é penalizado com a repetição sucessiva da velha e vazia conversa sobre a passagem do mito ao logos. A tendência de organizar os livros didáticos de filosofia por temas é então saudável, porque permite ao professor selecionar aquele tema que mais lhe interessa ou que julga mais apropriado para os seus alunos, sem ter de pressupor que o aluno já tenha estudado todos os capítulos anteriores. Além disso, para permitir a reflexão do aluno e evitar a mera reprodução, a organização temática parece ser mais apropriada do que a organização por período histórico. Evidentemente, a abordagem por temas não exclui a leitura dos clássicos e nem diminui a importância de autores como Platão, Agostinho, Kant ou Hegel; apenas enfatiza que a compreensão dos problemas filosóficos e a capacidade de avaliar as respostas que lhes são dadas são condições para a leitura e apreciação dos clássicos.

As autoras do Filosofando procuram seguir essa tendência, mas sem muito sucesso. As unidades do livro são as seguintes:

  • Descobrindo a filosofia;
  • Antropologia filosófica;
  • Conhecimento;
  • Ética;
  • Filosofia política;
  • Filosofia da ciência;
  • Estética.

Falta uma unidade para a Metafísica. As questões metafísicas estão dispersas no livro, como é o caso do problema do determinismo e do livre-arbítrio, que é tratado num capítulo da unidade de Ética. De modo geral, parece que as autoras sentem pouco apreço por esse tipo de questão ou simplesmente desconhecem a área. Contrariamente, a unidade de Antropologia Filosófica é um excesso, pois o fato de as questões aí discutidas dizerem respeito ao ser humano não basta para estabelecer uma unidade, induzindo inclusivamente ao erro, uma vez que pode levar alguém a pensar que toda e qualquer questão ou teoria, pelo simples fato de tratar de um fenômeno que está relacionado com ou é peculiar ao ser humano, seria filosófica. Algumas das questões dessa unidade poderiam ser discutidas nas unidades de Ética e Metafísica, por exemplo. Outras são de pouco interesse filosófico, ou são incompreensíveis para os alunos do ensino médio.

Mas essa falta ou excesso não é o principal problema do Filosofando. Embora as autoras digam que a sua opção é temática, boa parte dos temas são discutidos de um ponto de vista histórico. A unidade sobre o conhecimento, por exemplo, é em grande parte organizada em termos históricos, começando com os pré-socráticos, passando pela metafísica da modernidade e pela crítica à metafísica, e terminando com a chamada “crise da razão” e com o pós-modernismo.

O leitor pode perceber que as autoras do Filosofando fazem uma leitura puramente histórica das questões acerca do conhecimento, e vêem essa história de maneira parcial e tendenciosa, nos capítulos iniciais dessa unidade, que aparentemente seriam discussões temáticas. A discussão sobre o conhecimento é introduzida pela definição de conhecimento como um “modo pelo qual o sujeito se apropria intelectualmente do objeto,” que é uma definição tão interessante, útil e instrutiva quanto dizer que a digestão é o modo pelo qual o sujeito se apropria fisicamente do objeto. Grande parte do capítulo é dedicada à discussão da noção de verdade, terminando com uma breve exposição do pensamento dos chamados “mestres da suspeita,” i.e., Freud, Marx e Nietzsche, que colocariam em causa a noção de verdade como representação e correspondência com a realidade. Há ainda dois capítulos dedicados à lógica, sem qualquer nexo com qualquer outro capítulo do livro. Tudo isto deixa claro que o desconhecimento da área e o despreparo das autoras para discutir filosoficamente e apresentar de forma didática temas como a definição, o valor e as fontes do conhecimento e da justificação epistêmica.

A situação não é diferente no resto do livro. Na unidade dedicada à Ética, por exemplo, as autoras introduzem um capítulo sobre o livre-arbítrio. Mas quando têm de apresentar as teorias éticas normativas, a opção volta a ser histórica, começando então com a reflexão grega, passando pelos medievais, pelos modernos, pelos filósofos do iluminismo e, não se esquecendo das ilusões da consciência, chegando até as éticas contemporâneas, cujo melhor representante, na perspectiva das autoras, seria Habermas. O mesmo se passa com as unidades Descobrindo a Filosofia, Filosofia Política e Estética. A unidade sobre Filosofia da Ciência sequer tem esse núcleo histórico, perdendo-se em exposições superficiais que mitificam a chamada “crise das ciências” e destacam disciplinas — como a psicanálise — cujo estatuto de cientificidade é muitíssimo controverso.

Os recursos didáticos, como o uso de ilustrações com reproduções de obras de arte, fotos de personagens históricas, sugestões para reflexão, explicação de termos, citações e sugestão de leituras, também não funcionam no Filosofando. Para o leitor ter uma idéia clara das deficiências do livro, coloque-se na pele de um estudante do ensino médio que pela primeira vez irá estudar filosofia, e evidentemente quer saber o que é a filosofia. Vejamos com que tipo de resposta você irá se deparar.

O primeiro capítulo deveria dar-lhe uma resposta clara à sua questão. Quando você o abrir, irá inicialmente deparar-se com ilustrações de obras de Salvador Dali, Modigliani e Picasso, com uma introdução das autoras explicando que a reflexão é uma tentativa de “ordenar o nosso pensamento para nos proteger do caos,” e com um texto de Deleuze e Guattari ressaltando a relação entre o caos e a poesia. As autoras propõem então o seguinte exercício:

“Agora, reescreva com suas palavras o que os filósofos Deleuze e Guattari afirmam sobre a função do artista e do filósofo de “abrirem fendas no guarda-sol das opiniões prontas.” Em que sentido eles “instauram o caos”? Que tipo de caos?”

Nada há na citação dos filósofos Deleuze e Guattari que relacione o artista e o filósofo, mas você aceita que eles possam ter feito isso, mesmo considerando que a insistência de que o filósofo é um artista não é esclarecedora, visto que você conhece alguns artistas e eles não lhe parecem muito filosóficos. Mas você tem outro motivo para preocupação: a sugestão implícita de que a filosofia é o avesso da reflexão, uma vez que a reflexão é a tentativa de proteger do caos, e o que faz o filósofo é instaurar o caos. Pelo pouco que você sabe, não pode ser assim.

Mas você decide dar crédito às autoras e prosseguir. Na página seguinte você se depara com outra imagem. Há a sugestão de que a filosofia é um olhar de estranheza diante de tudo o que parece óbvio, uma constante disposição para se surpreender e indagar. Novamente, você fica na mesma, pois acha ridículo olhar com estranheza algumas coisas que lhe parecem óbvias, e a constante disposição para se surpreender e indagar não seria algo que pertence só ao filósofo. De fato, essa suspeita é confirmada pelas citações que você encontra logo a seguir de um filósofo chamado Sponville e de outro chamado Antonio Gramsci. Aqui você começa a desconfiar que a filosofia é afinal algo bem banal, pois filósofos que merecem ser citados nada dizem que já não lhe tenha passado pela sua cabeça, e que lhe parecem trivialidades.

Mas note que nesse ponto as autoras perderam a oportunidade de dizer-lhe algo interessante. Elas observam que a filosofia é uma tentativa de responder a certos problemas por meio de conceitos e argumentos rigorosos. Porém, isso não é reforçado. A explicação do que é um argumento só aparecerá nove capítulos adiante, escondida no meio da exposição da lógica aristotélica, e a idéia de análise conceitual não é sequer mencionada no livro.

Na continuação, você lê que a filosofia é “perigosa” porque pode vir a desafiar e desestabilizar o status quo, sendo o filósofo por isso temido pelos ditadores, “que os fazem calar, pela censura, porque bem sabem quanto eles ameaçam o seu poder.” Parece-lhe legal desafiar os ditadores. Mas isso não lhe dá ainda uma idéia clara da especificidade da filosofia e do trabalho filosófico, uma vez que também lhe parece óbvio que existam pessoas que desafiam o status quo, mas nem por isso são filósofas. A citação que você lê de Châtelet não ajuda muito.

Seguindo em frente, você encontra mais um filósofo, o espanhol Fernando Savater, que estabelece uma diferença entre informação, conhecimento e sabedoria. As autoras explicam essas diferenças por meio de um exemplo. Introduzem uma notícia de jornal sobre a gravidez não planejada em adolescentes. Isso pertenceria à classe das informações. Há conhecimento quando as informações são explicadas pela ciência; por exemplo, o fato do aumento da gravidez na adolescência a partir da década de 1970 pode ser explicado pela história e pela sociologia, enquanto a biologia pode explicar os problemas biológicos nesse tipo de gravidez. Ninguém lhe diz que a filosofia seria a sabedoria, mas isso lhe parece óbvio por exclusão. Aí finalmente ocorre uma questão que lhe parece filosófica e que você gostaria de discutir filosoficamente: que atitude tomar, manter a gravidez ou abortar? Esse lhe parece um problema autêntico e as autoras indicam tratar-se de um problema ético. Entretanto, o seu entusiasmo rapidamente é frustrado, pois a discussão que as autoras irão propor não diz respeito à ética do aborto, mas à liberdade de escolha, e elas sugerem a leitura de dois textos bastante difíceis, um de Simone de Beauvoir e outro de Georges Gusdorf. Os textos afirmam explicitamente que as crianças e adolescentes não têm liberdade autêntica. O exercício sugerido é relacionar os textos citados com a notícia de jornal. Esse exercício parece-lhe vago, pois o problema do aborto não é sequer mencionado no artigo de jornal e você não vê a relação entre o artigo e o problema da escolha livre e autêntica de que fala Beauvoir e Gusdorf.

Mas talvez você não tenha entendido direito! Há na página que você lê uma imagem pouco nítida, na qual há um letreiro luminoso com a frase “Protect me from what I want,” e um texto explicativo logo abaixo. Você acredita que ler esse texto possa ajudá-lo a compreender melhor a proposta do exercício. Então você o lê e descobre que se trata de uma obra de Jenny Holzer, e a sua arte deveria produzir indagações filosóficas, como, por exemplo: “Quero que alguém me proteja?” ou “Sou eu mesmo que devo fazê-lo?” ou “Por que haveria eu de me proteger do meu desejo?” ou “Qual é a relação entre o desejo e a razão?.” Você continua a achar que o exercício é muito vago, e decide ignorá-lo definitivamente.

Na seqüência, você lê o seguinte: o filósofo alemão Husserl diz que sabe o que é a filosofia e que não sabe, e que apenas pensadores pouco exigentes se contentam com definições cabais. Depois encontra uma citação de outro alemão, Kant, que dizia que não era possível ensinar filosofia, mas só a filosofar, “exercer o direito de refletir por si próprio, de confirmar ou rejeitar as idéias e os conceitos com os quais se depara.” Finalmente, um filósofo brasileiro, Dermeval Saviani, define a filosofia como uma reflexão radical, rigorosa e de conjunto. Nesse momento, as autoras sugerem um exercício sobre ética prática perguntando-se sobre as responsabilidades humanas pelo destino do planeta. Depois você lê sobre Sócrates, sobre a Grécia antiga, o seu julgamento e a sua afirmação “Só sei que nada sei.” Finalmente, você chegou ao fim do capítulo. Mas foram tantos nomes, opiniões contraditórias e questões simplesmente lançadas no ar que você fica confuso e decide fazer uma pausa.

(No meio da confusão há um pequeno quadro no qual são nomeadas as áreas da investigação filosófica: Lógica, Metafísica, Teoria do Conhecimento, Ética, Estética, etc. Infelizmente, essas áreas de investigação não são detalhadas, e o quadro simplesmente passa-lhe despercebido. E seria justamente isso o tipo de coisa que você gostaria e precisaria saber para começar a estudar filosofia!)

Passado o atordoamento, você volta para a leitura do texto complementar à discussão sobre o que é a filosofia. O texto em questão — originalmente publicado na Folha de São Paulo — é a reflexão de uma psicanalista sobre a reação da população a um caso famoso de infanticídio. A sugestão de exercício é a seguinte:

“O autor fornece pistas para a reflexão sobre a vida (a sabedoria) e, portanto, para o filosofar. Por exemplo, leva-nos a indagar “O que é a justiça”? Na mesma linha, identifique outros questionamentos por ele sugeridos.

Reúna-se com seu grupo para discutir um dos temas filosóficos sugeridos no item acima. Façam um resumo com os principais tópicos da discussão para apresentar à classe.”

Péssima sugestão, uma vez que o texto trata de um crime antigo, que muitos dos seus colegas nem se lembram, e você não sabe dizer ainda o que é a filosofia e muito menos é capaz de identificar quais são os temas filosóficos relevantes e importantes que o artigo, quando muito, poderia sugerir. Seria bem melhor se as autoras colocassem aqui um texto de alguém dizendo o que é a filosofia. Você ainda não notou, mas há aqui uma falha que percorre todo o livro. A escolha das leituras complementares não é nem um pouco criteriosa. A seleção é muito má, sem qualquer preocupação com a clareza e facilidade do texto — por exemplo, o texto de Merleau-Ponty que deveria ilustrar o problema do livre-arbítrio é obscuro e inadequado para um aluno do ensino médio —, ou a relevância do autor — por exemplo, para ilustrar a metafísica da modernidade seria fácil escolher um texto e um autor clássico ao invés de um comentador e historiador da filosofia —, ou mesmo a pertinência para a questão que deveria a princípio ilustrar — por exemplo, a leitura complementar à discussão sobre as éticas normativas é uma parte do texto de Kant “O que é o Esclarecimento” onde sequer ocorre a palavra “ética”! No final de todo o percurso, a filosofia parece-lhe algo muito desinteressante, porque ora é trivial, ora é incompreensível, e você então decide estudar outra coisa.

Mas antes de ir note o seguinte. O problema não é seu ou da filosofia, mas do Filosofando, que não oferece leituras complementares adequadas, interessantes e acessíveis aos alunos do ensino médio, além de ser muito confuso, com excesso de menções a autores e filósofos pouco conhecidos, citações inúteis, sugestões vagas de problemas que muitas vezes não são sequer problemas filosóficos, e isso sem contar a sua superficialidade e a falta de unidade. O Filosofando é uma bricolagem filosófica mal feita. Ao adotar este livro, o professor pode pensar que ensinará filosofia, mas não ensinará coisa alguma, enquanto o aluno pensará que aprenderá filosofia, e não aprenderá seja o que for.

Sem dúvida, a melhor explicação para a reimpressão de um livro didático é que ele tem boa aceitação entre alunos e professores. Espera-se que essa aceitação seja devida ao fato de o livro proporcionar um ensino e um aprendizado de boa qualidade. Mas nem sempre é assim. Apenas um milagre pode explicar o fato de o livro Filosofando estar agora na sua quarta edição. As deficiências do livro superam em muito as boas qualidades que se espera de um livro didático de filosofia. E apesar de, ao folheá-lo, encontrarmos aspectos à primeira vista positivos, depois de uma leitura atenta percebemos que muitos desses aspectos são irrelevantes ou nos afastam da meta principal que é ensinar filosofia.

Sérgio R. N. Miranda
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