Duas mulheres à mesa
21 de Outubro de 2008 ⋅ Opinião

Filosofemos

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

A filosofia é fundamentalmente especulação — consiste em tentar saber o que não sabemos como podemos saber nem sequer se podemos saber. Na verdade, tentar saber o que podemos saber e como podemos saber é um dos problemas de uma disciplina filosófica chamada "epistemologia". Precisamente porque a filosofia é uma disciplina tão radical é difícil compreender a sua natureza. É uma tentação declarar os problemas da filosofia meras ilusões insusceptíveis de serem conhecidas, mas é esta tentação que é uma ilusão pois trata-se em si mesma de uma posição filosófica que declara incoerentemente que nenhuma posição filosófica é legítima.

Substituir a filosofia pela história planante das ideias gerais é um dos sinais mais inequívocos de que se cedeu à tentação, pois trata-se de olhar para todas as tentativas de todos os filósofos como meros reflexos do seu tempo histórico, palermices vãs que as pessoas de bem não levam a sério. A filosofia transforma-se assim num entretenimento de fim-de-semana e ninguém quer num entretenimento desses ocupar-se de chatices como saber se um argumento funciona, se há contra-exemplos, quais são os pontos fracos de uma ideia e que alternativas plausíveis podemos conceber. A abordagem filosófica tradicional, que consiste precisamente em ocupar-se destas chatices, é então vista como tecnicista — o equivalente esquizofrénico a desejar assistir de poltrona a boas execuções da Sinfonia Júpiter sem ter qualquer interesse nos pormenores e insistindo que esses pormenores não constituem a verdadeira música. Acontece que sem esses pormenores — como interpretar as pautas, como executar o violino, como coordenar dezenas de músicos — não haveria realmente música para lá das suas manifestações mais pueris. A filosofia não é história da filosofia, e ainda menos história planante das ideias gerais, tal como a música não é história da música.

Conceber a filosofia como um desporto que os outros praticam e a que nós assistimos da bancada é uma automenorização inaceitável. Fazer relatórios académicos do pensamento alheio, com maior ou menor sofisticação e erudição, faz parte da vida académica — mas se a vida académica se esgotar aí, algo de errado aconteceu. É preciso também filosofar: saber articular ideias e argumentos originais, saber avaliar definições e teorias alheias, saber argumentar e avaliar os argumentos dos outros filósofos.

Nada disto se pode fazer enquanto a mentalidade autoritária não for erradicada. Segundo esta mentalidade, é uma ousadia dizer que a teoria do conhecimento de Kant está errada, ou que o idealismo de Hegel não é plausível. Mas os filósofos são os primeiros a não aceitar as ideias uns dos outros e a criticá-las cuidadosamente. Pensar que não podemos fazer o mesmo é pensar que somos inferiores, não podemos ser filósofos, só podemos ser comentadores, historiadores, professores de filosofia — mas não filósofos. Que se dane tudo isso. Filosofemos — mal, sim, a princípio. Mais vale filosofar mal do que não filosofar de todo em todo.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (21 de Outubro de 2008)
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