Colagem em Metal, de Billy Alexander
12 de Setembro de 2010 ⋅ Opinião

“Que tem a música a ver com filosofia?”

Vítor Guerreiro
Universidade do Porto

Suponhamos que alguém crê equivocadamente que a sociologia é a arte de ser sociável. Provavelmente essa pessoa franzirá o sobrolho ao ouvir alguém associar sociologia e, digamos, estatística. A estatística não serve para criar ambiente e é pouco apropriada para conversas ligeiras.

A relação entre música e filosofia é vítima de um equívoco verbal semelhante. A filosofia é para muitos a arte de ser sociável através de palavras caras, afirmações vagas e muitas citações de indivíduos que já morreram e cujos nomes têm uma sonoridade mística. De modo que as crenças das pessoas a respeito desta relação tendem a distribuir-se por dois extremos (chamemos-lhes liberais e cépticos): há os que acreditam que uma sequência de sons musicais pode ser literalmente filosofia, e há os que acreditam que a relação entre música e filosofia é inexistente. Quer por pensarem, no caso dos primeiros, que qualquer associação de ideias é “filosófica” (e compor música envolve sempre a associação de ideias musicais), quer por pensarem, no caso dos segundos, que a música é algo cujo domínio exige disciplina e rigor, e pouco tem a ver com o tipo de “socialização” indisciplinada a que me referi. Já a relação entre a música e outras áreas de investigação, em particular as de cariz empírico, é muito menos vítima deste género de equívoco.

Que tem a música a ver com a história? Não é difícil ver a ligação. A história estuda os acontecimentos do passado. As convenções musicais em que os músicos e compositores trabalham, o modo de construir instrumentos, o tipo de instrumentos que se constrói, a notação musical, o ensino da música sofrem transformações ao longo do tempo e estudar essas coisas com a metodologia do historiador ajuda-nos a compreender a sua evolução. Ajuda-nos a responder a perguntas como: “por que há orquestras?”, “de onde vem a notação musical?”, “como surgiram as escalas e modos actuais?” A ligação com outras áreas, como a psicologia e a sociologia é também fácil de compreender. Sabendo qual o objecto de estudo dessas disciplinas e como nelas se trabalha, compreende-se facilmente quais os aspectos da música que podem ser produtivamente tratados pela psicologia e pela sociologia. Conseguimos imaginar sem dificuldade o género de perguntas a que estes investigadores tentam responder — “como funciona a aprendizagem musical?”, “o que acontece nas nossas cabeças quando ouvimos música?”, “que formas de música estão relacionadas com estas ou aquelas actividades ou classes sociais?”

Estas perguntas têm em comum o facto de, para lhes darmos resposta, termos de fazer mais do que reflectir cuidadosamente. Supõem o uso de procedimentos empíricos e o único modo de conhecermos a verdade das respostas é inspeccionando indícios físicos, informação experimental e estatística. Podemos não conhecer com exactidão o género de trabalho que se faz em psicologia da música ou em sociologia da música, mas compreendemos intuitivamente o interesse que a música pode ter para um psicólogo ou um sociólogo, tal como compreendemos intuitivamente o objecto da musicologia evolucionista (mesmo quando ouvimos a expressão pela primeira vez), o interesse que a música pode ter para um biólogo que estuda o canto das baleias ou das aves ou a origem da música humana.

Ao passo que é difícil imaginar claramente o género de perguntas a que um filósofo da música pode tentar responder, há uma uniformidade de expectativas quanto ao que deviam ser as suas respostas: ou respostas filosóficas para problemas empíricos (uma inversão do cientificismo, que envolve querer dar respostas empíricas a problemas filosóficos) ou juízos valorativos sobre composições e interpretações particulares. Aqui as opiniões dividem-se novamente entre os liberais e os cépticos, que partilham as mesmas expectativas relativamente à filosofia mas discordam quanto à capacidade desta para chegar a resultados. Assim, por exemplo, pode-se achar ou que a filosofia responderá a perguntas como “Qual a origem da música nos seres humanos?” (que é uma pergunta empírica e não filosófica), ou que não responderá a esse género de perguntas mas que devia fazê-lo, se fosse cognitivamente interessante. As expectativas e desilusões são semelhantes no que respeita à emissão de juízos críticos particulares.

Isto explica-se pela incompreensão do que seja um problema filosófico e pelo facto de na escola termos sido treinados para resolver ou problemas empíricos cuja solução foi já testada, ou problemas cuja resolução envolve procedimentos formais, como fazer cálculos. Por isso é tão comum confundir objectividade com escrutínio de factos e medições, imaginando-se a filosofia da música ou como uma rival das disciplinas empíricas, ou como algo “subjectivo”, muito semelhante à crítica musical mas com mais palavras caras por centímetro quadrado.

A filosofia da música não procura substituir-se à investigação empírica sobre música nem à crítica musical. Procura resolver problemas que envolvem perplexidades reais e exigem solução, não são meramente verbais; e problemas insusceptíveis de serem resolvidos empiricamente. De que género de problemas se trata? Por exemplo, i) a definição de música; ii) explicar o facto de a mesma obra poder ter várias ocorrências sonoras cujas propriedades diferem, sem que isso afecte a sua identidade; iii) explicar em que consiste o poder expressivo da música; iv) saber o que é “compreender” uma obra musical; v) saber se a música tem conteúdo representacional; vi) se tem propriedades morais; vii) saber o que é o valor da música. Embora não seja exaustiva, a lista representa o género de problemas a que o filósofo da música procura responder. Trata-se de problemas acerca da realidade das entidades musicais (composições, obras, interpretações, improvisações), das suas propriedades e estatuto ontológico (que género de entidades são) e problemas acerca do conhecimento e experiência que temos delas. A estética musical é um subconjunto desses problemas. Não se confunde com coisas como a “defesa de uma estética...” em que no lugar vazio colocamos um adjectivo qualquer, por exemplo, “vanguardista”, “conservadora”, “realista”, etc. Também não se confunde com elogios às atitudes políticas de um compositor. A estética musical ocupa-se de problemas como os seguintes: saber em que consiste a beleza musical; o que distingue as experiências musicais, se algo o faz; que propriedades de uma obra ou performance são relevantes para a apreciação estética e, já agora, o que isso é.

Vítor Guerreiro
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