Flood
19 de Dezembro de 2009 ⋅ Livros

A humanidade meteu água

Desidério Murcho
Flood, de Stephen Baxter
Londres: Gollancz, 2009, 544 pp.
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Enquanto os cientistas rendidos ao politicamente correcto teimam em usar os seus modelos baseados na hipótese do aquecimento global, o nível do mar continua a crescer muito para lá das piores previsões. Uma mulher, contudo, desafia a ciência politicamente correcta e faz modelos que batem certo com a realidade, mas que são más notícias para toda a gente: o nível do mar vai subir muito para lá do que pior se esperava — porque resulta da libertação de reservas de água subterrâneas, muito abaixo da crosta terrestre. Sobre as suas causas últimas, contudo, ela não especula e também por isso não é ouvida: não está obviamente relacionado com a expressão politicamente mágica “aquecimento global.”

Este é o ponto de partida de Flood, de Stephen Baxter (n. 1957), autor britânico de ficção científica que teve a honra de escrever livros em parceria com o lendário Arthur C. Clarke, incluindo a continuação do enigmático 2001. Arrisquei a leitura deste livro com alguma resistência, depois da farsa que foi o Galileo's Dream, de Kim Stanley Robinson (que depois de um primeiro capítulo magnífico, entra em completo delírio e perde a direcção). Baxter não é apenas um autor de ficção científica — narrativas fortemente baseadas em especulações ou hipóteses científicas — mas um ficcionista capaz de nos transportar para lugares e situações arrebatadoras, e capaz de desenhar com precisão personagens credíveis.

Flood lê-se de um só fôlego, apesar das suas quase 550 páginas. As soluções narrativas de Baxter são engenhosas: começamos com cinco pessoas que foram sequestradas por terroristas espanhóis. Depois da sua inesperada libertação do cativeiro forçado de quatro anos, encontram um mundo constantemente ameaçado por cheias, dada a subida do nível do mar. Prometendo, depois da sua terrível experiência, nunca perder contacto e ajudar-se sempre que possível, estes ex-sequestrados constituem o fio de Ariadne da narrativa que se estende de 2016, quando o nível do mar aumenta cinco metros, a 2052, quando todos os continentes desaparecem sob o mar, que subiu entretanto oito quilómetros. Além de usar os ex-sequestrados como fio condutor, Baxter faz engenhosos cortes temporais em cada uma das cinco partes da narrativa, para assim abranger os quase cinquenta anos que o dilúvio demora a cobrir toda a face da Terra, incluindo o pico dos Himalaias.

As diferentes estratégias de sobrevivência, usadas por governos e privados, vão sucumbindo uma a uma, à medida que o mar continua a subir para lá de todas as previsões relacionadas com o aquecimento global. A civilização tecnológica e científica é destruída, dela restando apenas jangadas onde flutuam as novas gerações de seres humanos que nunca conheceram outra realidade, e que rejeitam qualquer formação escolar, vivendo uma existência de sobrevivência diária. Os velhos, muitos deles médicos ou outros produtos de uma civilização científica, culta e tecnológica, são olhados com simpatia e respeito pelos mais novos, mas como aberrações que falam de realidades irrelevantes para o dia-a-dia.

Se quer passar um fim-de-semana de diversão, enfronhado nas páginas de uma narrativa vertiginosa, e solidamente ancorada no melhor conhecimento científico actual, agarre-se a este livro.

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto
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