Não me F**** o Juízo
14 de Fevereiro de 2009 ⋅ Opinião

Psicofoda

Colin McGinn
Universidade de Miami

Foi a discussão inovadora que Harry Frankfurt fez da treta, no seu ensaio apropriadamente intitulado Da Treta, que me levou a empreender uma investigação semelhante acerca de um conceito relacionado (mas distinto): o conceito de foder o juízo ou psicofoda. Ambos têm ampla circulação, mas, por várias razões, não se articulou sistematicamente os seus significados. Têm alguma importância intelectual e cultural e não se deve confundi-los com outros conceitos associados. Tal como Frankfurt argumenta, convincentemente, que pregar tretas não é o mesmo que mentir, assim argumentarei que foder o juízo não é o mesmo que pregar tretas, embora os três conceitos pertençam à mesma família, na medida em que cada um implica uma certa violência sobre a verdade (que tipo de violência, é uma das principais questões a responder). O conceito de psicofoda é de lavra mais recente que o de treta — sem dúvida que aquela palavra é mais jovem — e talvez esteja ainda em vias de se estabelecer, de modo que se pode encarar a minha investigação como a consolidação de um conceito que ainda está na sua infância. Mas, como a treta, a psicofoda é um aspecto predominante da cultura contemporânea, e é uma boa ideia procurar uma compreensão articulada do mesmo. Tal como todos já ouvimos tretas, uma vez ou outra, é provável que nos tenham fodido o juízo uma série de vezes — e não poderá fazer-nos mal compreender o que assim foi perpetrado em nós. Conhecer o próprio inimigo é sempre um excelente conselho.

Fui pela primeira vez confrontado com a expressão "foder o juízo" em contexto académico há cerca de quinze anos. Dera uma palestra pública em Nova Iorque, sobre o problema da mente-corpo e da consciência, na qual apresentei uma tese radical concebi-da para abalar a complacência do meu auditório a respeito deste assunto tão desconcertante, e um amigo contou-me que um dos seus alunos se referiu à minha apresentação dizendo que lhe "fodera o juízo". Compreendi de imediato o que isto queria dizer, embora nunca tivesse ouvido a expressão neste contexto: conhecia a natureza do argumento que dei na palestra e conseguia ligar a minha apreensão lexical das palavras "juízo" e "foder" de modo a compreender a que características da minha apresentação se aludia com esta impressionante locução. A expressão agarrou-se-me (pode-se dizer que a expressão "foder o juízo" me fodeu ligeiramente o juízo naquela ocasião) e comecei a reparar noutros usos da mesma, normalmente de carácter mais negativo. Mas foi só ao ler o deambulante Da Treta, de Frankfurt, que me ocorreu investigar o conceito mais detalhada e sistematicamente. Parece-me agora um conceito com futuro (a palavra "treta", embora ainda amplamente usada, claro, soa-me um pouco à América da década de 1950): ainda vamos ouvir falar bastante no conceito de foder o juízo. Duvido que se saiba quem introduziu esta expressão (tal como quem inventou a palavra "treta" está agora perdido nas brumas do tempo) mas, fosse quem fosse, ele ou ela tropeçaram em algo importante. Há aqui um fenómeno da vida humana que exige um nome distinto, bem como uma análise concomitante.

Colin McGinn

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