Palavra e Objeto
16 de Março de 2010 ⋅ Filosofia da linguagem

Proposições e frases eternas

W. v. O. Quine
Tradução de Desidério Murcho

No capítulo anterior prevaleceu um certo ar de inovação, mas apenas o mais diáfano. Mostrou-se maneiras de parafrasear frases para ganhar clareza de estrutura e economia de construções com pouco ou nenhum custo exceto a brevidade e familiaridade da expressão. As paráfrases foram feitas de maneira a responder à maior parte ou a todos os propósitos prováveis em função dos quais as frases originais podem ser usadas, exceto na medida em que tais necessidades incluam a brevidade e a familiaridade. Nenhumas ou quase nenhumas locuções foram excluídas sem que isso trouxesse o benefício de uma paráfrase adequada. O mais próximo disso foi talvez a exclusão da quantificação para o interior de construções opacas, mas mesmo neste caso não houve qualquer perda óbvia, uma perda que seria sentida como tal de qualquer ponto de vista muito plausível; os casos úteis de aparente quantificação para dentro de contextos opacos foram geralmente resgatados pela paráfrase. Não se excluiu objetos abstratos com base em escrúpulos nominalistas; não se excluiu objetos intensionais com base em escrúpulos extensionalistas; nem se excluiu palavras indicativas com base em escrúpulos de absolutismo. Neste capítulo estes temas começarão a vir à superfície.

Uma frase não é um acontecer de uma elocução, mas antes um universal: um padrão sonoro repetível, ou uma norma repetidamente aproximável. A verdade não pode no seu todo ser vista como um traço, nem mesmo um traço transitório, de uma frase apenas; é um traço transitório de uma frase para um homem. “A porta está aberta” é verdadeira para um homem quando uma porta está de tal modo situada que ele a tomaria como a referência momentânea natural de “a porta” e está aberta (quer ele o saiba quer não). O acontecimento individual da elocução pode mesmo assim ser descrito como absolutamente verdadeiro, dado que um momento do tempo e um homem lhe são específicos; mas falar de frases verdadeiras para homens em momentos do tempo é mais abrangente, pois inclui casos nos quais a frase não é proferida pelo homem em questão no momento em questão.

A relativização a momentos de tempo e a pessoas pode ser estranha por conta das especificações complementares com que nos rodeia continuamente. Esta é sem dúvida uma razão pela qual os filósofos têm gostado de postular entidades abstratas complementares — proposições — como veículos de verdade substitutos. Feito isto, dizem que a frase exprime ora uma proposição ora outra para um ou para outro homem, ao mesmo tempo que permitem que cada uma dessas proposições se mantenha constantemente verdadeira ou falsa sem que o seja relativamente a pessoas.

Este postulado não é completamente culpa do filósofo. A linguagem comum tem as suas orações “que”, e tais orações (com “que” como conjunção, e não como um pronome relativo ou demonstrativo)a funcionam gramaticalmente como termos singulares (exceto quando precedidas de “tal”), pretendendo assim evidentemente designar algo. Os objetos pretendidos são aquilo a que o filósofo deita mão e chama, com alguns refinamentos, proposições. É por causa do lugar ocupado pelas orações “que” em questão na linguagem comum que foi adequado para o espírito algo acrítico do capítulo anterior reservar um lugar na notação canônica para o que chamamos abstração proposicional, reconhecendo provisoriamente objetos, chamados “proposições”, para serem o objeto de designação dos termos singulares formados desse modo. Dado que um uso proeminente das orações “que” é enquanto objetos gramaticais dos chamados verbos de atitudes proposicionais, demos conosco a tomar proposições em particular como as coisas em que as pessoas acreditam e que afirmam, desejam, etc. O termo de Russell, “atitude proposicional”, faz-nos recordar que não fomos os primeiros a fazê-lo.b

É irrelevante que a notação da abstração proposicional, juntamente com termos singulares que não em geral as variáveis, tenha desaparecido na § 38. Nenhuma das eliminações de termos singulares das §§ 37 e 38 eliminou objetos. Dada a própria natureza da técnica da eliminação, as proposições continuaram como habitantes do universo aludido no “tudo” e “algo” de “(x)” e “(∃x)”; como valores, em suma, das variáveis.1 O objeto x em causa na notação “xOp” que substituiu “x = [p]” é ainda a proposição [p], por mais que fique sempre sem nome. Em qualquer caso, não tenho qualquer intenção de aderir a uma notação canônica sem termos singulares além das variáveis; é suficiente que tenhamos visto como podemos mudar para essa notação. (Cf. § 39.)

O propósito agora sugerido para as proposições, servirem de sucedâneos de veículos de verdade, exige que as proposições resistam à variação de valor de verdade, mas esta exigência estava já implícita no seu uso como objetos das atitudes proposicionais. Para que se considere que a frase:

1) Tom acredita [a porta está aberta]

tal como afirmada numa ocasião, se aplica, ainda que momentaneamente, aos objetos Tom e [a porta está aberta], então certamente que os dois objetos têm decididamente de ser muitíssimo específicos, por mais inadequadamente selecionados que sejam pelas palavras de 1. Tom tem de ser o ocupante humano específico de um par de sinuosos anos-esteres algures no espaço-tempo do passado e do futuro, apesar de termos de depender fortemente do nosso próprio conhecimento das circunstâncias da elocução 1 ao decidir entre vários seres humanos com o mesmo nome; e [a porta está aberta] tem de ser uma proposição específica quanto à porta e ao momento do tempo em causa, apesar de, uma vez mais, termos de depender do nosso conhecimento das circunstâncias da elocução 1 para decidir qual delas é. Vagueza, ambigüidade, fugacidade da referência, são características das formas verbais e não se aplicam aos objetos referidos.

Se queremos identificar Tom elaborando explicitamente 1, em vez de deixar essa tarefa às circunstâncias da elocução, podemos fornecer o sobrenome e o endereço ou outros pormenores. Se queremos identificar [a porta está aberta] elaborando explicitamente 1, em vez de deixar essa tarefa às circunstâncias da elocução, podemos especificar onde está a porta, e que horas se tem em mente. Em geral, para especificar uma proposição sem depender das circunstâncias da elocução, pomos no lugar do “p” de “[p]” uma frase eterna: uma frase cujo valor de verdade permanece fixo ao longo do tempo e de locutor para locutor.

As frases eternas são frases constantes (§ 9) de um tipo extremo; muitas frases constantes, e.g. “Chegou o Times”, não são eternas. Frases teóricas na matemática e nas outras ciências tendem a ser eternas, mas não têm qualquer direito exclusivo à distinção. Relatos e previsões de acontecimentos únicos específicos são também eternos quando os momentos do tempo, lugares ou pessoas em causa são objetivamente indicados ao invés de se deixar que variem com a referência dos primeiros nomes, descrições incompletas e palavras indicativas. As frases eternas não precisam também de ser vazias de significado de estímulo; um locutor pode muito bem ser levado por um estímulo a assentir a uma frase eterna e por outro a dissentir. Mas quando isto acontece, ele diz que estava enganado e que mudou de idéias à luz de novos indícios, e não que a frase mudou de valor de verdade, como acontece habitualmente com “O Times chegou”.

É de esperar que uma frase eterna não tenha palavras indicativas, mas nada impede que contenha nomes, por mais que sejam analisados gramaticalmente (§ 37), ou outros termos aprendidos ostensivamente. Termos presentes podem muito bem ter sido aprendidos com a ajuda de palavras indicativas.

Já na § 36 supusemos que a flexão fora banida da linguagem canônica. Mas as vantagens dessa jogada não incluíram a conversão para frases eternas. O efeito em 1 de banir a flexão é meramente a inserção de “agora” duas vezes e classificar os dois verbos como aflexivos. Para acabar a tarefa de eternizar a frase entre parênteses, temos de substituir o “agora” por uma data e uma hora ou algo do gênero, e temos de pôr algo mais na descrição “a porta”. Se quisermos, podemos prosseguir eternizando também as partes exteriores, substituindo o seu “agora” do mesmo modo e alargando também a referência a Tom. (Mas veja-se a § 45 para um obstáculo à eternização de afirmações de atitudes proposicionais desta maneira no caso geral.)

Não sei de qualquer boa razão para não pensar que toda a proposição é nomeável aplicando parênteses a uma ou outra frase eterna. Um plano alternativo seria permitir proposições inexprimíveis, mas isso não serviria qualquer propósito evidente.2 Uma razão mais corriqueira para supor que as proposições ultrapassam as frases eternas poderia ser que há muitas proposições tais que as frases eternas que lhes são apropriadas, apesar de poderem ser proferidas, nunca são, por acaso, proferidas (ou escritas). Esta idéia está errada, mas vale a pena examiná-la, pois a sua resposta é também importante para lá deste aspecto.

Prima facie, a resposta é que uma frase não é um acontecimento de elocução mas uma forma lingüística que pode ser proferida muitas vezes, uma vez ou nunca; e que a sua existência não fica comprometida caso não haja elocução. Mas não temos de aceitar esta resposta sem considerar mais precisamente o que são estas formas lingüísticas. Se uma frase fosse tomada como a classe das suas elocuções, então todas as frases improferidas reduzir-se-iam a uma só, viz., a classe vazia; bem poderiam não existir, no que respeita às proposições, pois todas as distinções entre si desaparecem. Nem gostaria de encarar uma frase como um atributo de elocuções; pois na § 43 argumentarei a favor do abandono de atributos. Mas há outra maneira de encarar as frases e outras formas lingüísticas que permite que nem a sua existência nem as suas diferenças sejam postas em causa pela inexistência de elocuções. Podemos encarar cada forma lingüística como a seqüência, num sentido matemático, dos seus caracteres ou fonemas sucessivos. Uma seqüência a1, a2, …, an pode explicar-se como a classe dos n pares <a1, 1>, <a2, 2>, …, <an, n>. (Sobre pares veja-se a § 53.) Podemos continuar a encarar cada caráter componente ai como uma classe de acontecimentos de elocução, não havendo aqui qualquer risco de inelocução.

W. v. O. Quine

Tradução de Desidério Murcho, retirada de Palavra e Objeto, de W.v.O. Quine, §40 (Vozes: 2010)

Notas do autor

  1. Comentários críticos errados impedem-nos de esquecer que há quem considere que a expressão matemática “valores das variáveis” quer dizer “termos singulares substituíveis pelas variáveis”. Ao invés, é o objeto designado por tal termo que conta como um valor da variável; e os objetos permanecem como valores das variáveis ainda que os termos singulares sejam afastados.
  2. Para uma consideração deste aspecto veja-se Pap, “Belief and propositions”, p. 134.

Notas do tradutor

  1. Em inglês, a expressão equivalente é “that”, que ao contrário do “que” português pode ser um pronome relativo ou demonstrativo. Quine está a falar de locuções como a seguinte: “O Asdrúbal acredita que Sócrates era grego”. A parte depois do “que” parece constituir o objeto da crença de Asdrúbal, e se isso fosse verdade o candidato natural para tal objeto seria uma proposição.
  2. Russell, contudo, não defendia que o objeto da crença de Sócrates, quando este acreditava que Atenas era bonita, era a proposição que Atenas é bonita. A teoria do juízo de Russell evita este resultado, que teria depois de enfrentar o problema de saber que gênero de objetos poderiam as crenças falsas ter. Cf. Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia (1921), trad. port. de Desidério Murcho (Edições 70, 2008).
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