11 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Há mar e mar

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Há pensar e pensar, e voltar a pensar. Há quem esteja afogado num lodaçal de lugares-comuns, incapaz de pensar com o mínimo de autonomia. Se lhes ensinaram que tudo é a preto e branco, por mais que tenham cores à frente do nariz, recusam-se a vê-las. O meu artigo intitulado "Comprar e Vender Ideias" teve o efeito de suscitar precisamente o tipo de reacções que eu previa. Realidades desagradáveis, o melhor é não pensar nelas — este é o mote de uma parte substancial da humanidade.

O problema de fundo da sustentabilidade de muitas actividades intelectuais que muitos de nós valorizamos é chato em parte porque põe a nu realidades desagradáveis que muitas pessoas se recusam a ver. É o que acontece quando as pessoas criticam as fortunas dos jogadores de futebol famosos (esquecendo os muitos que têm amor ao futebol e não ganham fortunas), ao mesmo tempo que lamentam a falta de valorização de outras profissões que têm intrinsecamente mais valor, como a de arqueólogo ou astrónomo. O que as pessoas se recusam a ver é que o comércio é o grande soro da verdade. Pessoas como os futebolistas famosos sempre ganharam mais dinheiro do que qualquer arqueólogo ou astrónomo famoso, e sempre vão ganhar, pelo simples facto de haver muitíssimas mais pessoas interessadas no futebol do que em arqueologia ou astronomia. Curiosamente, quando alguém afirma depois que a generalidade da humanidade é uma palermice que não vale um chavo furado, as pessoas revoltam-se. Mas das duas uma: ou bem que a humanidade está bem e se recomenda, e então o futebol é realmente muitíssimo mais valioso do que a arqueologia e a astronomia, ou grande parte da humanidade é palerma porque valoriza mais o que devia valorizar menos, e quase não valoriza o que devia valorizar. Sem mentir não é possível manter a ideia de que a humanidade se recomenda e ao mesmo tempo dizer que há algo de profunda e sistematicamente errado com as preferências da maior parte dela.

Assim que vemos as coisas com esta clareza, as mentiras ficam à mostra. É o caso da ideia de que Sócrates acusava os sofistas de ensinar para ganhar dinheiro. Lembro-me de ouvir os meus professores, que não compreendiam muito bem o que estava realmente em causa, papaguear este tipo de acusação que Platão põe na boca de Sócrates, contra o que o primeiro chama ofensivamente de sofistas. Surpreendentemente (ou não, se tivermos em conta a mentira em que a humanidade gosta de chafurdar), não ocorria aos meus plácidos professores que se eles são herdeiros de alguém é dos sofistas, e não de Platão nem de Sócrates, pois qualquer professor é hoje exactamente o que eram os sofistas: professores pagos. O mais interessante é pensar se seria melhor isto não ser assim — pois imediatamente se vê que se não fosse assim, só as pessoas economicamente auto-subsistentes poderiam ser professores, para poderem ser professores de borla, e como tais pessoas não têm maior tendência para se interessar pela cultura do que as outras, quase não haveria professores.

A crítica de Platão aos sofistas, claro, é outra. Apesar de grande parte do que Platão afirma sobre os sofistas, pela boca de Sócrates, destilar claramente um ódio palerma, compreende-se que um filósofo genuíno visse com desalento pessoas que não mostravam qualquer interesse na investigação paciente das coisas, limitando-se a preparar muito bem os seus estudantes para serem persuasivos ao discursar publicamente, e nos tribunais, defendendo fosse o que fosse, mais ou menos como ocorre hoje em dia nos debates públicos, no parlamento, na Internet, nos jornais e na televisão: produz-se lixo verbal em grande quantidade, com o mais profundo desprezo pela investigação paciente das coisas. Uma vez mais, o que faziam os sofistas é muito mais parecido com os professores actuais do que o que fazia Platão. A generalidade dos professores actuais de qualquer coisa — astronomia ou filosofia, direito ou sociologia — jamais pensou um pensamento por si; tudo o que faz é transmitir laboriosamente aos seus alunos os preconceitos académicos que lhe foram transmitidos por sua vez a si, agarrados dogmaticamente a meia dúzia de livros que constituem o seu parco horizonte mental. E, claro, fazem o seu serviço exclusivamente por dinheiro, e no dia em que lhes sair a lotaria, param imediatamente de dar aulas (dar? Vender!). Preocupação com a verdade? Investigação? Isto são luxos tanto hoje como no tempo de Platão. E esta é uma das muitas realidades desagradáveis que poucos querem ver.

A Internet, os blogs, a televisão, os jornais, e cada vez mais a escola e a universidade, são vistos como extensões de uma vida inane dedicada ao entretenimento frívolo, à boca fácil, à opinião requentada servida como se fosse novidade. Tudo é impreciso, rápido, mero eco do que anda por aí vagamente. E por aí vagamente andam muitas mentiras sobre o valor superlativo das artes e da cultura, das ciências e da filosofia — valor superlativo que depois, quando chega a altura de abrir a carteira, afinal não é assim tão valorizado. Temos jornais pejados de publicidade e com notícias mentirosas? Sim, temos. Mas porquê? Porque se não for assim, os poucos arautos da cultura e da informação de qualidade não estão dispostos a pagar o jornal a cinco vezes o preço actual. Mesmo os jornais que querem ser mais sérios têm de ser economicamente viáveis, e para o serem têm de ter muita circulação porque vivem da publicidade (e vivem da publicidade porque os pretensos amantes da informação de qualidade não estão dispostos a dar cinco euros, em vez de um, pelo jornal), e a publicidade só é rentável para o jornal se este tiver grande circulação — daí os títulos mentirosos, as notícias enganadoras e a imensidão de frivolidades, mesmo nos jornais mais sérios, sobre futebol, tolices políticas sem significado, actores de cinema, e tudo o que seja palhaçada luzidia.

Estas mentiras que a humanidade gosta de cultivar têm curiosas consequências educativas. Muitos jovens desencantam-se com a escola precisamente porque de repente descobrem que foram enganados na infância. Inventaram-lhes um mundo de aprendizagem, leitura, conhecimento, como coisas de valor superlativo; e depois chegam à adolescência e descobrem que a maior parte das pessoas, incluindo os adultos, não valoriza os livros, nem a escola, nem a aprendizagem, e que o mais importante é ter dinheiro e carros caros para mostrar que se tem dinheiro, sendo a vida humana fundamentalmente dedicada a frivolidades. E têm razão, claro; a mentira é óbvia e só não a vê quem não quer, pois basta sair de um estádio de futebol e passar por uma livraria ou biblioteca para ver a diferença de afluência de público. Mesmo na livraria, basta ver que livros se vendem mais: quase sempre as mais inanes frivolidades. E basta passar por uma banca de revistas para ver quantas revistas de frivolidades há, e quantas revistas de ciências ou de filosofia há.

Isto mostra outra verdade desagradável. Ou somos muito democráticos e admitimos que a maioria tem razão ao desvalorizar as artes, a filosofia, as ciências, e ao valorizar os jogos de computador, o futebol e as novelas — acontece apenas que nós mesmos temos gostos diferentes da maioria e apreciamos coisas sem valor; ou somos muito elitistas e dizemos que a esmagadora maioria da humanidade é palerma. A alternativa mais comum a este dilema chato é outra ideia feita: tudo é relativo, especialmente "os valores". Mas se tudo é relativo, especialmente "os valores", para que raio andamos a mentir às crianças dizendo-lhes que é superlativamente importante o que a maior parte da humanidade não valoriza? E por que andamos a tirar dinheiro às pessoas, através de impostos, para financiar o que elas não valorizam? A ansiedade com que os adultos gostam de inculcar nas crianças os "valores", as ideias ecológicas politicamente correctas, e o amor pela aprendizagem e pelo conhecimento é quase de certeza proporcionalmente inversa à importância real, e não meramente verbal, que esses mesmos adultos dão a essas coisas. Porque se afinal tantos adultos dessem importância a essas coisas, o mundo não seria tão frívolo, os problemas ecológicos seriam coisa do passado e a vida seria em geral mais saudável e bonita.

A mentira social e política nasce na desvontade de olhar firmemente para realidades desagradáveis. E gera a hipocrisia de exigirmos honestidade aos outros — nomeadamente, políticos e jornalistas — quando não somos nós mesmos honestos na intimidade do nosso pensamento.

Desidério Murcho
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte