The Oxford Handbook of Aesthetics
20 de Março de 2004 ⋅ Estética

A estética mente

Desidério Murcho
The Oxford Handbook of Aesthetics, org. por Jerrold Levinson
Oxford: Oxford University Press, 2003, 821 pp.
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Nesta mesma coluna, afirmava-se há duas semanas que, "depois de um longo interregno, a filosofia da arte floresceu como nunca, nos últimos vinte ou trinta anos". Vinha isto a propósito do novo livro de Nigel Warburton, The Art Question (Routledge). Como que para confirmar estas palavras, eis que surge este volumoso Oxford Handbook of Aesthetics, org. por Jerrold Levinson, em cujo prefácio se pode ler que "se, há cinquenta anos, a estética era como que uma área estagnada da filosofia, já não o é, e as interacções em ambas as direcções entre a estética e outros ramos da filosofia — em particular a metafísica, a ética, a filosofia da mente, a filosofia da linguagem e a filosofia política — continua a crescer". A crescer o suficiente para merecer um volume de mais de 800 páginas, depois de, em 1998, a mesma editora ter publicado a Encyclopedia of Aesthetics, org. por Michael Kelly, em quatro volumes, com um total de 2 224 páginas, e depois da publicação, em 2002, da obra The Routledge Companion to Aesthetics, org. por Berys Gaut e Dominic McIver, com 600 páginas. Se este é o ritmo de produção de uma área da filosofia que é ainda das menos estudadas, imagine-se o ritmo das outras áreas da filosofia contemporânea.

Esta obra divide-se em três partes. Na primeira, dois artigos apresentam uma panorâmica geral da disciplina, dos seus problemas, teorias e argumentos, assim como da sua evolução histórica nos últimos cinquenta anos. A segunda parte é dedicada a questões gerais de estética: o problema da definição de arte, a sua ontologia, o problema do realismo ou anti-realismo, o valor da arte, a experiência estética, o papel cognitivo da arte, as suas relações com a moral e a política, a metáfora, ficção, tragédia, etc. A terceira parte é dedicada aos problemas suscitados por várias formas de arte em particular: música, pintura e literatura, mas também o bailado, a poesia, a fotografia (neste caso, a propósito, trata-se de um artigo de Warburton), o teatro, etc. Finalmente, a quarta parte é dedicada a áreas mais recentes desta disciplina, como a estética feminista, a estética ambiental, as relações da estética com a psicologia evolucionista e as ciências cognitivas, a arte popular e avant-garde, etc. Dos diversos autores destacam-se Malcom Budd, Noël Carroll, Denis Dutton (sim, o director de aldaily.com), Gordon Graham, Paul Guyer e Paul Woodruff, entre muitos outros.

Os artigos dirigem-se a um público relativamente conhecedor, e não a um público leigo. Contudo, qualquer pessoa de alguma forma ligada às artes, profissionalmente ou como leigo apreciador, terá muito a ganhar com a sua leitura. Os artigos que lemos são despretensiosos, claros e precisos, rigorosos, imaginativos e estimulantes.

Muitos editores dirão que uma obra desta envergadura não é comercialmente viável. Mas há razões para pensar o contrário. Apesar de editores e livreiros insistirem em insultar o público português, publicando lixo e ao lixo dando destaque nas livrarias, verifica-se um fenómeno interessante: algum lixo vende-se momentaneamente, mas a procura desaparece findos alguns meses. Contudo, os livros de qualidade têm um público fiel, que sabe escolher — e continuam a reeditar-se ao fim de... anos. Pela sua qualidade, utilidade escolar e interesse para o público em geral, há razões para pensar que este livro é precisamente um destes casos.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado no jornal Público (20 de Setembro de 2003)
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