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24 de Janeiro de 2005   História da filosofia

As dores do mundo

Leandro Anésio Coelho
On the Suffering of the World
de Arthur Schopenhauer
Penguin, 2004, 144 pp.

Arthur Schopenhauer (1788-1860) nasceu em Dantzig. Filósofo alemão de personalidade conturbada, sua vida ou, melhor dizendo, o seu modo de viver, reflete de forma evidente na sua produção filosófica. Suas considerações acerca das mulheres denotam a sua desordenada convivência com sua mãe da mesma forma que, pode-se entender, sua aversão à filosofia acadêmica como uma conseqüência dos embates com professores da academia da sua época. Um desses embates deu-se com Hegel, que agremiava um grande número de alunos enquanto Schopenhauer não tinha público.

O filósofo alemão era só: não tinha uma mãe que o amasse, nem esposa, nem filhos e nem país, já que se colocou a percorrer o mundo e a morar em pensões. Sua única companhia era um cão chamado Atma, que significa alma do mundo. Schopenhauer experimentou como pouquíssimos filósofos a solidão, muito mais, experimentou-a ao extremo, algo que é perceptível em sua filosofia. Um homem que além de não ter o amor de sua mãe obtinha o seu ódio.

Apesar de nunca ter tido a pretensão de ganhar a vida escrevendo, Schopenhauer não se propôs a fazer outra coisa senão isso. Era filho de um comerciante bem sucedido que, antes de morrer ainda novo, queria ver o filho na mesma profissão. Após ter ganhado de seu progenitor uma longa viagem pela Europa, Schopenhauer se pôs a estudar o comércio, atendendo à vontade do pai, estudos esses que cessaram logo após a morte desse. Dessa forma o filósofo alemão sobreviveu administrando com sucesso a sua herança que lhe deu a oportunidade de se dedicar à filosofia sem a preocupação prática de ganhar dinheiro para sobreviver. Esse é mais um ponto peculiar de Schopenhauer: embora não tivesse como propósito manter-se com recursos oriundos do que escrevia, não teve que fazer mais nada senão isso, pois a herança recebida de seu pai o sustentou a vida inteira. É célebre a comparação entre a administração da herança por Schopenhauer e por sua mãe e irmã. Enquanto aquele obteve lucros, essas duas últimas perderam dinheiro para investidores. Dessa forma, Schopenhauer adverte que não se deve lidar com o filósofo como se esse fosse um desavisado.

A obra magna de Schopenhauer é O Mundo Como Vontade e Representação, que mais tarde seria lida por Friedrich Nietzsche e influenciaria o início de sua filosofia. O autor tem vários outros ensaios, mas esses fazem uma volta à obra principal em pontos específicos, esclarecendo-os melhor. Sua obra principal não fez sucesso e não foi acolhida pelas cátedras, algo que só veio a acontecer no final da vida do autor. Nela, Schopenhauer expõe a sua filosofia e o seu pessimismo diante da existência: viver é sofrer e a felicidade é pequenos momentos, flashes que visitam a vida do homem. Tudo o que existe é Vontade, uma Vontade não deliberada; o homem é pura Vontade assim como o mundo.

Schopenhauer não separa o sujeito e o objeto como fazem os materialistas (negam o sujeito e o reduzem à matéria) e os idealistas (assim como Fichte, que negam o objeto e o reduzem ao sujeito). Sujeito e objeto existem cada um com o outro e não se pode entendê-los separadamente. O mundo é uma representação do sujeito e para o filósofo alemão o

"mundo, como nos aparece em sua imediaticidade considerando como a realidade em si, é na verdade um conjunto de representações condicionadas pelas formas a priori da consciência, que, para Schopenhauer, são o tempo e espaço e a causalidade" (REALE, 1991. p. 226).

Aqui interessa-nos não essa obra de Schopenhauer, mas outra posterior intitulada Dores do Mundo, na qual ele trabalha os assuntos mais diversos, a saber, amor, morte, arte, moral, religião e política, assuntos esses que compõem o subtítulo da obra. Tem-se o intuito de, com base nos tópicos da obra Dores do Mundo, tocar em pontos cruciais da filosofia de Schopenhauer que certamente o leitor atento os encontrará na obra magna desse mesmo autor. Concomitantemente, provocar uma curiosidade tal no leitor que o leve a realizar a leitura da obra que aqui expomos e perpassar os principais pontos da filosofia schopenhaueriana.

É nesse livro também que se evidencia a vida como sofrimento para Schopenhauer. Em todos os tópicos perceber-se-á o quanto o homem sofre enquanto vive, mas ele vive porque existe uma Vontade (lembra-se, não deliberada) que o impele para isso.

No primeiro tópico do livro, com o mesmo título desse, o autor compara a vida sofrida e seus momentos de felicidade com os anos da história: ela revela-nos guerra e sedições e os anos de paz são poucos momentos. Trabalho, tormento, desgosto e miséria fazem parte da vida inteira do homem, mas se não fossem esses, ou seja, se todos os desejos do homem fossem realizados, a vida perderia sentido e seria patética. A vida é laboriosa e não cabe à filosofia consolar, mas esclarecer o homem a esse respeito, pensar a vida como ela realmente é, ou seja, enquanto sofrimento. O homem na primeira metade da vida vive na esperança de que tudo de bom ocorra, na felicidade; na segunda metade frustra-se, entendendo a vida como desgosto e sofrimento.

"Nos meus anos de mocidade, uma campainha à porta causava-me alegria porque pensava: "Bom! É qualquer coisa que sucede." Mais tarde, experimentado pela vida, esse mesmo ruído despertava-me um sentimento vizinho do medo; dizia de mim para mim: "Que sucederá?"" (SCHOPENAHUER, s/d. p. 30).

Ao falar do amor (o autor segue a seqüência de assuntos que compõem o subtítulo da obra), ressalta que esse era reservado aos poetas e romancistas, mas que também é um assunto que deve ser tratado pela filosofia e estudado na vida real. O amor é importante, um interesse universal que se origina no instinto sexual e tem por finalidade a procriação: a Vontade expressa-se aí, no desejo de permanência e infinitude, faz o homem colocar no mundo outra vida, outro ser que sofrerá assim como ele e assim a espécie permanecerá. A espécie humana é egoísta, escolhe o outro para reprodução de acordo com as suas preferências morais e físicas, tendo como fim último a superioridade da espécie, não contabilizando aí a felicidade das pessoas. Por tudo isso, Schopenhauer enxerga os amantes como traidores, pois ao perpetuar a vida eles perpetuam a dor, deixando a Vontade vir à tona e o desejo de continuar existindo, mesmo que através de outro ser.

Neste mesmo tópico, sobre o amor, o filósofo faz o que ele chama de "esboço acerca das mulheres". Ele não as tem com grande apreço, as considera uma beleza passageira e privada de inteligência. Vivem o momento presente como ninguém e têm uma inclinação maior para a piedade do que para a justiça. As mulheres, para Schopenhauer, mentem e assim fazem como defesa frente à sua fraqueza. Não podem se entregar aos trabalhos pesados e nem às investigações, por limites intelectuais. A mulher "paga" sua sobrevivência apenas com a dor do parto e passa a vida gastando as riquezas que os homens produzem. Alguns estudiosos pretendem traçar um paralelo desse ponto da filosofia schopenhaueriana, sobre as mulheres, com a sua relação tumultuada com a mãe que, como já dito, o odiava.

Assim como o sono para o indivíduo é a morte para a espécie humana. Schopenhauer valoriza a morte e a tem como a musa inspiradora da filosofia:

"A morte é o gênio inspirador, a musa da Filosofia... Sem ela ter-se-ia dificilmente filosofado." (SCHOPENHAUER, s/d. p. 99).

O indivíduo morre mas não a espécie, pois essa perpetua; assim, o que a faz perpetuar eternamente é a Vontade que também é eterna.

Mas se viver é sofrer e a todo o momento que sofre é a Vontade que se manifesta no homem e esse tem flashes de felicidade, como explicar, ou melhor, como acontecem esses momentos de felicidade? Se o homem tem um pequeno tempo de felicidade, o que fez ele para se livrar do sofrimento naquele determinando momento? Para Arthur Schopenhauer o homem deixa de sofrer quando aniquila a Vontade e isso só ocorre em poucos instantes, quando é tomado pela arte, daí essa ser uma espécie de redenção, pois ela livra momentaneamente o homem da Vontade e esse, por um momento, deixa de sofrer. Só a arte torna as imagens da vida cheias de encanto, nos diz o filósofo, e é na admiração da arte que o homem se torna feliz, se livra por um instante da dor que é viver.

Egoísmo, piedade e ascetismo são os três graus da moral para Schopenhauer. Entendendo-se esses três graus, o egoísmo é o mais presente na vida do homem: para dissimulá-lo, existe a delicadeza e para coagi-lo, o Estado. A moral, ponto de intercepção de todos os homens e de todos os seres, fundamenta-se na piedade. Embora a moral se fundamente na piedade, o ascetismo é que salva o homem do sofrimento: trata-se de uma elevação que se traduz como negação total, até do próprio viver, o que permite o sujeito permanecer na castidade, ou seja, nega-se a perpetuar a espécie, a Vontade e o sofrimento. A arte aniquila a Vontade, mas é um momento apenas; o ascetismo é a libertação definitiva da Vontade que faz o homem sofrer e por isso traz a paz eterna ao homem. Em outras obras Schopenhauer entende como asceta perfeito, que negou a Vontade e atingiu essa elevação, São Francisco de Assis.

A morte é bem-vista novamente para Schopenhauer no tópico sobre a religião, sendo considerada a mãe desta. Desponta-se aqui a necessidade metafísica do homem que é suprida ou pela religião ou pela filosofia. Entende o autor que os mais bem dotados intelectualmente têm essa metafísica suprida pela filosofia e a maioria não dotada encontra refúgio na religião. O filósofo critica a religião católica ao dizer que ela é uma

"instrução para mendigar o céu, que seria muito incômodo merecer. Os padres são intermediários dessa mendicidade." (SCHOPENHAUER, s/d. p. 143).

Já sobre o embate entre religião e filosofia,

"qualquer religião positiva é a usurpadora do trono que pertence à Filosofia. Por isso os filósofos hão de estar sempre em hostilidade com ela, embora tenham de a considerar como um mal necessário, um amparo para a fraqueza mórbida do espírito da maior parte dos homens." (SCHOPENHAUER, s/d. p. 144).

A política é o último assunto que figura na obra Dores do Mundo. O homem é visto como um animal selvagem, um mal, e a política como um meio de controlá-lo.

"O Estado não é mais do que o açamo cujo fim é tornar inofensivo esse animal carnívoro, que é o homem, e dar-lhe o aspecto de um herbívoro" (SCHOPENHAUER, s/d. p. 145).

O mundo civilizado é uma máscara para esconder esse homem mau e selvagem, uma amizade caricata. O autor considera como único e verdadeiro amigo do homem o cão que, por coincidência, era a única companhia de Schopenhauer, o cão chamado Atma.

A grande produção filosófica de Arthur Schopenhauer está na obra O Mundo Como Vontade e Representação. No entanto, outras obras do autor visitam aquela e expõem de forma significativa e clara alguns pontos. Assim acontece com Dores do Mundo. Nessa obra Schopenhauer trabalha de forma sucinta e em conformidade com O Mundo Como Vontade e Representação os temas do amor, morte, arte, moral, religião e política, todos reveladores da Vontade que move o mundo e de quanto o homem sofre, apresentando-nos a vida enquanto sofrimento. O homem ama e perpetua a Vontade como forma de sobreviver; a morte é a inspiração da filosofia; a admiração da arte é uma "válvula de escape" para o sofrimento do homem; a moral tem o egoísmo como essência do homem, a piedade é um ponto de encontro na espécie e o ascetismo a libertação definitiva da Vontade, ou seja, do sofrimento; a religião suprime a necessidade metafísica daqueles que não são dotados de capacidade para a filosofia; a política é uma mera máscara e controladora para que esse homem-mal consiga viver em grupo, ou seja, em sociedade.

Leandro Anésio Coelho

Referências

ANTISERI, Dario; REALE, Giovanni. História da Filosofia. v.1. São Paulo: Paulus, 1990.

BARBOZA, Jair. Schopenhauer. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

SCHOPENHAUER, Arthur. Dores do Mundo: O Amor, A Morte, A Arte, A Moral, A Religião, A Política. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.

SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo Como Vontade e Representação. Porto: Rés, s/d.