Fernando Gil
20 de Março de 2006 ⋅ História da filosofia

Fernando Gil (1937–2006)

Sofia Miguens
Universidade do Porto

Morreu ontem, em Paris, o filósofo Fernando Gil. Tinha 69 anos e muita coisa a fazer, com o ânimo de sempre. Foi interrompido.

Fernando Gil licenciou-se em Direito na Universidade de Lisboa e em Filosofia na Sorbonne, onde se doutorou em Lógica. Foi também doutor em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa (UNL). Em Portugal, leccionou na Faculdade de Letras de Lisboa e foi professor catedrático de Filosofia do Conhecimento, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da UNL. Em França, leccionou na Universidade de Paris-XI e, desde 1989, na École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris). Foi ainda professor visitante e conferencista em várias universidades de diversos continentes. Foi membro da direcção de instituições ligadas aos estudos filosóficos e à investigação científica, tendo sido responsável pela coordenação de diversos projectos. Assumiu ainda as funções de júri em vários prémios e desempenha cargos na área editorial. Foi fundador e director da revista de filosofia Análise.

Foi consultor do Ministro da Ciência e Tecnologia, José Mariano Gago, e do Presidente da República, Mário Soares, durante os seus dois mandatos. Da obra publicada, destacam-se La Logique du Nom (1972), Mimésis e Negação (1984), Viagens do Olhar (1998) e Mediações (2001). Participou também na direcção de obras colectivas. Além de numerosos prémios ensaísticos, recebeu, em 1993, o Prémio Pessoa. Foi Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1992) e Chevalier de l'Ordre des Palmes Académiques (1995).

Fernando Gil foi uma figura absolutamente invulgar em Portugal. Vivendo entre Portugal e a França, conseguiu fazer muito por Portugal. Inspirou e entusiasmou gerações de alunos e discípulos. Trouxe respeito e admiração para a filosofia de muita gente de fora da disciplina. Nunca em torno dele havia a sensação do "pequeno país onde é impossível fazer coisas", ou "os outros são melhores do que nós". Era orgulhoso e intempestivo, certamente, e as suas fúrias lendárias. Um homem apaixonado. Mas de quê, senão dessa fibra, se faz o pensamento e a vida das pessoas?

A sua obra é difícil de enquadrar, e não tinha ainda acabado. Não era um homem que respeitasse escolas, e as escolas tornam as coisas mais reconhecíveis. No meio da sua erudição, Fernando Gil era sobretudo livre no que pensava e escrevia. No entanto, nos seus livros e nas suas aulas vislumbrava-se não apenas um pensador original mas também o melhor da tradição filosófica, tornada criativa.

Portugal e a filosofia ficaram mais pobres ontem. Homens assim não aparecem muitas vezes.

Sofia Miguens
smiguens@netcabo.pt
Sofia Miguens foi estudante de mestrado e doutoramento de Fernando Gil.
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