Holocausto
12 de Novembro de 2004 ⋅ Filosofia

O fedor de Heidegger

Richard Rorty
Universidade de Stanford

As recentes tentativas de rejeitar Heidegger como "filósofo nazista" assemelham-se às tentativas nazistas de rejeitar a teoria da relatividade de Einstein como "física judaica". Em ambos os casos, pede-se que confrontemos um corpo de pensamento, não a outros corpos de pensamento, mas a algo de mais facilmente acessível — nossas intuições morais. Se você estiver de antemão convencido de que a própria noção de relatividade é fruto da decadência cultural, terá fugido ao esforço de, primeiro, atravessar um sem-número de equações, para só então decidir se os fenômenos físicos podem ser explicados de modo não-relativístico. Se você estiver certo de que as próprias idéias de "experiência autêntica" ou de "nostalgia pela voz do Ser" são inerentemente fascistas, ter-se-á poupado o trabalho de comparar a versão heideggeriana da história da filosofia ocidental às versões de Hegel, Dewey, Popper e Blumenberg, entre outros; isso para não falar das etimologias fantasiosas e dos neologismos idiossincráticos do autor alemão. E, afora tudo isso, você estará livre para deixar de lado os livros daqueles que se deixaram influenciar por Heidegger — Derrida, De Man, Foucault —, incluindo-os sob a rubrica de tralha desacreditada.

O próprio Heidegger era mestre nesse tipo de rejeição apressada. Tal como Nietzsche, que dizia ter um olfato capaz de lhe dizer se um livro era digno de reflexão, Heidegger arrogava-se a capacidade de farejar o "autêntico" e o "primordial". Heidegger pôs de lado todos os esforços por alcançar mais felicidade humana ou por proporcionar oportunidades iguais para um maior número de pessoas como meros sintomas de "humanismo", outros tantos signos de nosso "esquecimento do Ser". De modo que, quando os Nazistas subiram ao poder, Heidegger não se sentiu obrigado a comparar suas propostas com as dos partidos católicos ou social-democratas, a se perguntar qual espécie de futuro a Alemanha poderia esperar do regime nazista, a matutar se não seria melhor continuar a viver dentro dos limites do Tratado de Versalhes, a perceber o dano que a demissão de professores judeus causaria às universidades alemãs. Os nazistas cheiravam-lhe bem; havia algo de autêntico ao seu redor.

Graças ao livro de Hugo Ott, sabemos agora que a busca heideggeriana pela autenticidade andou mesclada a uma boa dose de ambição pessoal. Sabemos também que, quando foi chamado a prestar contas, ele mentiu descaradamente. Mas os juízos políticos equivocados, a ambição e a hipocrisia covarde — e mesmo, creio eu, a profunda antipatia pela democracia — não nos incomodariam tanto, não fosse pelo silêncio de Heidegger face ao destino dos judeus europeus. Muitos dentre nós estamos prontos a desconsiderar a vaidade, a altaneira e os negócios escusos de pensadores e escritores originais (aquele tipo de coisa que recheia livros como Intellectuals, de Paul Johnson) com o fito de perguntar: "Apesar de tudo, o que podemos aprender desses sujeitos? O que eles podem fazer por nós? O que podemos tirar deles?" Esta seria a atitude corrente em torno a Heidegger, não fosse por seu silêncio sobre o Holocausto, por sua recusa em sequer reconhecer sua existência. É como se de repente descobríssemos que certos poemas, originais e fantásticos, foram redigidos por um torturador em seus momentos de folga. Desse momento em diante, haveria um certo mau odor a rondar esses poemas.

Não obstante, creio que deveríamos tampar nossos narizes, separar a vida da obra e adotar face aos livros de Heidegger a mesma atitude que assumimos para com outros autores. Deveríamos confrontá-los, não às nossas intuições morais, mas a outros livros. Não é todo dia que se encontra uma história original da filosofia no Ocidente, tal como não é fácil dar com um livro original sobre os movimentos celestes ou a estrutura da matéria. Uma perspectiva original sobre a nossa tradição filosófica deve tentar explicar porque usamos as palavras tal como o fazemos e, por essa via, porque nos ocorrem as intuições morais que temos. Não podemos nos dar ao luxo de desprezar tentativas dessa natureza. Só deveríamos fazê-lo se tivéssemos por nossos narizes a mesma confiança egomaníaca que Nietzsche e Heidegger nutriam pelos seus. Talvez essa espécie de fé seja condição necessária para a produção de obras de gênio; mas nós, que não o somos e que nos consideramos tolerantes e abertos, faríamos melhor em nos livrarmos dessa fé.

Creio que será mais fácil separar a vida e a obra de um autor na medida em que concebamos o caráter moral — nosso ou alheio — como variável independente do curso dos nossos talentos. Vale aqui recordar uma lição freudiana: o caráter moral de um indivíduo (seu grau de sensibilidade ao sofrimento alheio) é moldado por eventos aleatórios ao longo de sua vida. Com freqüência, e talvez mesmo habitualmente, a sensibilidade varia independentemente dos projetos de autocriação que o indivíduo leva a cabo em sua obra intelectual.

Tentarei esclarecer o que quero dizer por "eventos aleatórios" e "variação independente" por meio do esboço de um mundo possível ligeiramente diferente — um mundo em que Heidegger une-se a Thomas Mann, seu companheiro de anti-igualitarismo, na resistência anti-hitlerista. A fim de visualizar melhor como esse outro mundo possível poderia ter sido real, imagine que, no verão de 1930, Heidegger subitamente se apaixona perdidamente por uma aluna de filosofia, uma moça bonita, vibrante e adorável, de nome Sarah Mandelbaum. Sarah é judia, mas Heidegger, tonto de paixão, mal se apercebe. Em 1932, após um doloroso divórcio de Elfride, sua primeira esposa — processo que lhe custa a amizade do casal Husserl, entre outros —, Heidegger casa-se com Sarah. Em janeiro de 1933, nasce o primeiro filho, Abraham.

Em tom de brincadeira, Heidegger diz a Sarah que o filho não recebeu o nome em homenagem ao patriarca bíblico, mas sim em honra a Abraham à Santa Clara, o único outro filho de Messkirch a se dar bem na vida. Sarah vai à biblioteca examinar os escritos anti-semitas de Abraham à Santa Clara, e a piadinha de Heidegger torna-se pretexto para a primeira briga séria do casal. Pelo final de 1933, Heidegger já não faz piadas do mesmo teor: Sarah faz-lhe ver que os funcionários judeus — inclusive seu sogro — foram demitidos. Heidegger lê artigos a seu próprio respeito no jornal dos estudantes; percebe que seus dias estão contados. Pouco a pouco ele se dá conta de que seu amor por Sarah custou-lhe muito prestígio, e mais cedo ou mais tarde lhe custará o emprego.

Mas ele ainda a ama, e acaba por abandonar suas montanhas natais por causa dela. Em 1935, Heidegger está lecionando em Berna, mas tão-somente como professor visitante. Todas as cátedras de filosofia na Suíça estão ocupadas. É quando chega um convite do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton. Heidegger passa dois anos aperfeiçoando lenta e trabalhosamente seus conhecimentos de inglês, suspirando por uma sala de aula repleta de alunos atentos e devotados. A chance aparece em 1937, quando alguns de seus colegas emigrados conseguem-lhe um emprego permanente na Universidade de Chicago.

É lá que Heidegger conhece Elizabeth Mann Borgese, que por sua vez o apresenta a seu pai. Heidegger acaba por superar sua desconfiança inicial frente ao filho-do-papai hanseático, e Mann supera sua desconfiança inicial face ao filho de roceiro da Floresta Negra. Ambos percebem que compartilham — e ainda com Adorno e Horkheimer — uma visão dos Estados Unidos como reductio ad absurdum das esperanças iluministas, como terra sem cultura. Mas seu desprezo pelos EUA não os impede de enxergar Hitler como ruína da Alemanha e, futuramente, da Europa.. Os empolgantes discursos radiofônicos anti-hitleristas de Heidegger permitem-lhe gratificar sua necessidade de oferecer uma auto-imagem heróica às massas humanas - a mesma necessidade que, noutras circunstâncias, ele poderia ter gratificado por meio de um discurso de posse como reitor.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o casamento de Heidegger está em destroços. Sarah Heidegger é uma social-democrata engajada, adora os EUA e é uma sionista apaixonada. Com o passar dos anos, veio a encarar seu marido como um grande homem, de coração frio e impermeável, um coração que, anos antes, abriu-se para ela mas que permanece fechado a seus anseios sociais. Despreza o egoísta na mesma medida em que admira o filósofo e o polemista anti-nazi. Separam-se em 1947, e ela segue para a Palestina junto com Abraham, que agora conta 14 anos. É ferida na guerra civil mas, após a independência, acaba por se tornar professora de filosofia na universidade de Tel-Aviv.

Heidegger retorna triunfalmente a Freiburg em 1948. Ele ajuda seu velho amigo Gadamer a conseguir um emprego, apesar de seu ácido desprezo pela aquiescência deste quando da investida nazista sobre as universidades alemãs. Casa-se pela terceira vez, agora com uma viúva de guerra, mulher que faz seus amigos lembrarem de Elfride. Quando morre em 1976, sua esposa deposita em seu caixão a Medalha Presidencial da Liberdade, a medalha da ordem Pour le Mérite, e a medalha dourada do Prêmio Nobel de Literatura. Este último fora-lhe concedido um ano depois da publicação da breve mas pungente elegia para Abraham, morto nas Colinas de Golan em 1967.

Que livros Heidegger terá escrito nesse outro mundo possível? Quase exatamente os mesmos que escreveu no mundo real. Conta a mesma história sobre a perda gradual da abertura primordial para o Ser ao longo do caminho que leva de Parmênides a Nietzsche. No outro mundo, entretanto, sua Introdução à Metafísica inclui uma identificação desdenhosa do movimento nacional-socialista ao niilismo inconseqüente da tecnologia moderna, assim como a observação de que Hitler está arrastando a Alemanha para o mesmo nível metafísico da Rússia e dos EUA. Seus seminários sobre Nietzsche são basicamente os mesmos, exceção feita a uma longa digressão sobre o horror de Nietzsche ao anti-semitismo, digressão que, aliás, representa um convergência surpreendente com um escrito contemporâneo e independente de Sartre, o Retrato do Anti-Semita.

Nesse outro mundo, Heidegger escreve quase todos os ensaios que conhecemos, além de interpretações de trechos de Thoreau e Jefferson, redigidos por ocasião de conferências em Harvard e na Universidade da Virgínia, respectivamente. Essas conferências transferem o pathos de suas pastorais ambientadas na Floresta Negra para o Monte Monadnock e a Serra Azul da Virgínia. Em suma: nesse mundo, seus livros são documentos do mesmo esforço que presenciamos no mundo real: o esforço por escapar à tradição filosófica ocidental e assim "cantar uma nova canção". Esse ímpeto pessoal rumo à pureza e à originalidade, essa tentativa de ver o Ocidente de uma perspectiva nova e radicalmente diversa constituiu o cerne de sua vida. Um ímpeto que não se deixou desviar pelo amor por uma outra pessoa ou pelo engajamento nos acontecimentos políticos do seu tempo.

Em nosso mundo, Heidegger não fez qualquer declaração política depois da guerra. No mundo possível que estou esboçando, ele investiu seu prestígio como anti-nazista na tarefa de tornar respeitável a direita alemã. É adorado por Franz Joseph Strauss, que lhe faz visitas respeitosas em Todtnauberg. Social-democratas como Habermas lamentam que Heidegger se encontre repetidamente no lado errado da política alemã; por vezes, em conversas privadas, dão vazão à suspeita de que, sob circunstâncias ligeiramente diferentes, Heidegger teria sido um nazista dos bons. Mas jamais sonhariam em afirmar publicamente uma coisa assim, ainda mais a respeito do maior pensador europeu do nosso tempo.

Em nosso mundo, Heidegger foi nazista, covardemente hipócrita, e ainda assim o maior pensador europeu do nosso tempo. Naquele outro mundo possível, ele tem a sorte de dar de cara com o tormento dos judeus europeus, o que acabou por despertar seus sentimentos de piedade e vergonha. Nesse mundo, ele teve a sorte de não ter podido tornar-se nazista, livrando-se assim de alguns convites à hipocrisia e à covardia. No mundo real, ele deu as costas aos fatos e acabou por recorrer à negação histérica, que por sua vez acarretou seu silêncio indesculpável. Mas a negação e o silêncio não dizem muito sobre os livros que escreveu — e vice-versa. Em ambos os mundos, o único liame entre suas posições políticas e seus livros está em seu desprezo pela democracia, compartilhado aliás com gente como Eliot, Waugh e Paul Claudel — gente que (tal como previu Auden) acabamos por perdoar em vista dos grandes livros que escreveram. Poderíamos, do mesmo modo, ter perdoado a Heidegger seu desprezo pela democracia, se isso fosse tudo. Mas neste mundo sem Sarah, neste mundo em que Heidegger teve o azar de viver, havia muito mais em jogo.

Richard Rorty

Originalmente publicado no Portal Brasileiro da Filosofia com tradução anónima e sem indicação da fonte original
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