Immanuel Kant
21 de Dezembro de 2005 ⋅ História da filosofia

Immanuel Kant

(1724–1804)
Simon Blackburn
Universidade de Cambridge

Filósofo alemão, fundador da filosofia crítica. Filho de um seleiro, Kant nasceu e estudou em Königsberg (Kaliningrado), na Prússia oriental. Depois de acabar a universidade, foi preceptor durante alguns anos, mas ao alcançar o grau de mestre em 1755, começou a ensinar vários assuntos como Privatdozent. As primeiras obras de Kant tratam de física e astronomia: a sua Allgemeine Naturgeschichte und Theorie des Himmels (1755, trad. ing. Universal Natural History and Theory of the Heavens, 1969) previa a existência do planeta Urano, mais tarde descoberto por Herschel em 1881. Em 1770 foi nomeado para a cadeira de lógica e metafísica em Königsberg. Foi depois disto que entrou no seu aclamado período "crítico". A sua vida era de uma regularidade caricatural: nunca deixou Königsberg e nunca casou.

A paisagem intelectual na qual Kant começou a sua carreira era em grande parte dominada por Leibniz, se bem que filtrada por Wolff, que tinha erigido um sistema ordenado e metódico a partir do pensamento daquele. Wolff acreditava que o princípio da razão suficiente, assim como muita da metafísica resultante, poderiam ser conhecidos a priori, apesar de o estatuto deste conhecimento ter sido já nessa altura colocado em dúvida por homens como Crusius. Contudo, achava-se em geral que a "intuição" nos fornecia conhecimento e que era além disso garantida por Deus, de maneira que estava tudo bem. Na sua obra pré-crítica Sonhos de Um Visionário (Träume eines Geistersehers, 1766), a mais hostil à metafísica de todas as suas obras, Kant trata as especulações de Crusius e Wolff, tal como as imagens espirituais de Swedenborg, como algo que gira à volta de nada. O primeiro passo em direcção à filosofia crítica foi a Dissertação de 1770 (título latino: De Mundi Sensibilis atque Intelligibilis Forma et Principiis), na qual Kant revela pela primeira vez a sua ideia de que só podemos ter conhecimento a priori do espaço e do tempo porque estes são formas impostas à experiência pela nossa própria mente. O espaço é um "esquema, assegurando por uma lei constante da natureza da mente a coordenação de todo e qualquer sentido externo". A Dissertação prenuncia temas que seriam aprofundados ao longo dos dez anos seguintes: a origem subjectiva do esquema do espaço e do tempo, a distinção que ela cria entre as coisas tal como são em si e tal como são para nós, e a distinção entre experiência e pensamento.

A Crítica da Razão Pura (Kritik der reinen Vernuft, 1781, conhecida como a primeira Crítica) expande estes temas de maneira a abranger todas as categorias usadas no pensamento. O seu objectivo é "assegurar à razão as pretensões a que tem direito, e afastar quaisquer pretensões sem fundamento, não através de decretos despóticos, mas de acordo com as suas próprias leis eternas e inalteráveis" (Prefácio à primeira edição). Em resposta à sua questão orientadora (como é possível o conhecimento sintético a priori?), a primeira parte da obra isola categorias legítimas e fornece-lhes uma "dedução transcendental", garantindo a sua aplicabilidade objectiva ao mostrar que sem elas a própria experiência é impossível. Um dos passos centrais de Kant é argumentar que a unidade da consciência pressupõe uma experiência organizada segundo leis universais e necessárias. É esta parte da sua obra que constitui a tentativa de resposta ao cepticismo indutivo e à subjectividade da causalidade, ambos deixados por Hume. (A famosa observação de Kant que terá sido Hume a despertá-lo do seu sono dogmático aparece em 1783 nos Prolegómenos a toda a Metafísica Futura, mas na verdade a influência de Hume sobre a primeira Crítica é bastante pequena.) Uma vez estabelecida a origem e autoridade legítima da razão, Kant volta-se, na secção da primeira Crítica intitulada Dialéctica, para os casos em que as pretensões da razão saem frustradas, produzindo assim a metafísica dogmática que procura estabelecer doutrinas sobre a natureza do eu, a constituição do espaço e do tempo como uma ordem independente, e a possibilidade de conhecer de Deus.

A primeira Crítica é uma preparação para o problema da razão prática, sobre o qual deteve depois a sua atenção. Uma vez lançados os fundamentos para uma filosofia crítica, Kant produziu a Fundamentação da Metafísica dos Costumes (Grundlegung zur Metaphysik der Sitten, 1785, trad. 1960) e a Crítica da Razão Prática (Kritik der praktischen Vernunft, 1788, trad. 1985 e conhecida como a segunda Crítica). Kant afirmou que "duas coisas inspiram à mente uma admiração e um temor tanto maiores quanto mais vezes e mais detidamente reflectimos sobre elas: o céu estrelado por cima de nós, e a lei moral dentro de nós" (conclusão da segunda Crítica; uma fórmula idêntica pode encontrar-se em S. João Crisóstomo, que deriva por sua vez do Salmo 19). A sua ética é baseada, sem quaisquer compromissos, na procura de um único princípio supremo da moralidade, um princípio, para mais, com autoridade racional, conduzindo as paixões, em vez de se deixar conduzir por elas, e a si sujeitando todas as criaturas racionais. A origem de todas as acções encontra-se num princípio subjectivo, ou máxima, e o valor moral de um indíviduo depende inteiramente da máxima da sua acção consistir no respeito pela lei e no dever de obedecer ao imperativo categórico. As aplicações que o próprio Kant faz deste teste proíbem a mentira, o suicídio, a revolta contra a ordem política estabelecida, o sexo solitário e a venda do nosso próprio cabelo para fazer perucas, mas a questão de saber até que ponto se consegue destrinçar a sua ética da sua matriz luterana é controversa. A restrição do valor moral a um tipo específico de preocupação como o dever, efectuada por Kant, parece frequentemente denegrir as virtudes humanas normais, tais como a benevolência, mas os comentadores tentam encontrar um Kant mais humano por detrás da ética severa e rigorosa do respeito pela lei. A associação da liberdade com a capacidade de autocontrolo e autolegislação, e a necessidade prática de pensar em termos de um Deus justo que sustenta a ordem moral são alguns dos outros componentes contestados do seu sistema ético.

A terceira Crítica, a Crítica da Faculdade do Juízo (Kritik der Urteilskraft, 1790) confronta a dificuldade de tornar objectivos os juízos estéticos, quando eles não são feitos de acordo com uma regra, mas em resposta ao prazer subjectivo. Kant relaciona o nosso direito de exigir o acordo das outras pessoas em tais matérias com uma concepção teleológica da natureza, orientada por fins, uma ideia partilhada pelo romantismo deste período, e ao qual ele emprestou a sua enorme autoridade (ver também estética). A preocupação de Kant com as bases da metafísica e do conhecimento não tinha no entanto desaparecido, uma vez que foi nesta altura que ele produziu os Fundamentos Metafísicos da Ciência da Natureza (Metaphysishe Anfangsgründe der Naturwissenschaft, 1786). Esta obra trata da natureza do movimento, da matéria e da massa, e expõe uma espécie de teoria de campo que acabaria por exercer alguma influência na física do século XIX. A Religião nos Limites da Simples Razão (Die Religion innerhalb der Grenzen der bloßen Vernunft, 1793, trad. 1992), com a qual Kant acabaria por ter problemas com a censura religiosa repressiva de Frederico Guilherme II da Prússia, a Paz Perpétua (Zum ewigen Frieden, 1795) e Die Metaphysic der Sitten, 1797 (trad. geralmente como A Metafísica dos Costumes, mas que muitas vezes aparece em duas partes distintas: Princípios Metafísicos do Direito e Princípios Metafísicos da Virtude), são algumas das suas últimas obras.

Apesar da dificuldade notória de ler Kant, tornada mais aguda pela sua tendência para a sistematização escolástica e para a terminologia obscura, o seu lugar como o maior filósofo dos últimos três séculos é indisputável. Foi ele que rompeu pela primeira vez decisivamente com o empirismo sensacionista que prevaleceu no século XVIII, mas sem no entanto se refugiar num racionalismo indefensável. Apesar de a sua confiança no a priori e na estrutura do seu idealismo terem sido largamente rejeitados, não estaremos a exagerar se dissermos que toda a epistemologia, metafísica e até a ética modernas foram implicitamente afectadas pela arquitectura por si criada.

Simon Blackburn

Texto retirado de Dicionário de Filosofia (Lisboa: Gradiva, 1997).
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