John Stuart Mill
16 de Novembro de 2005 ⋅ História da filosofia

John Stuart Mill

(1806–1873)
Simon Blackburn
Universidade de Cambridge

Filósofo e economista inglês, é o pensador liberal mais influente do século XIX. Filho de James Mill, John Stuart recebeu uma educação particular intensiva, a qual o iniciou no grego com três anos de idade e no latim (bem como em seis dos diálogos de Platão) com oito anos de idade (o próprio Mill comenta que o Teeteto talvez tenha sido um pouco demais para ele). Viveu a sua adolescência imerso nos interesses filosóficos e políticos do seu pai, até que um colapso nervoso, aos vinte anos de idade, o conduziu a uma reavaliação e a uma moderação da sua posição benthamiana. Daí em diante, influenciado por Saint-Simon e por outros, Mill defendeu uma apreciação mais sofisticada da influência das forças históricas na formação das ideias das pessoas e uma perspectiva menos cínica sobre as forças de reacção. A partir de 1831, a sua amizade com Harriet Taylor, uma senhora casada, foi determinante para a sua vida. Em 1849, após a morte do seu marido, casaram. Harriet Taylor morreu em 1858, em Avignon. A natureza da sua influência no pensamento de Mill é interessante e complexa.

Na filosofia em geral, Mill era um empirista cujo objectivo consistia em construir um sistema de conhecimento empírico genuíno, para uso tanto nas questões sociais e morais como na ciência. Com este fim em vista, começou por resgatar a doutrina das suas reminiscências cépticas humianas. A sua principal discussão acerca dos fundamentos do conhecimento e da inferência está patente na obra System of Logic (1843), cujos seis livros tratam da inferência dedutiva em geral, do conhecimento matemático, da indução, da observação, da abstracção e classificação, das falácias e finalmente das ciências sociais, políticas e morais. A sua distinção entre conotação e denotação, e entre termos gerais e termos singulares, influenciaram a semântica posterior de Frege (que, contudo, rejeitou inteiramente a sua concepção empirista "vulgar e de mau gosto" da aritmética), enquanto a sua obra acerca da indução constitui ainda o fundamento das metodologias de descoberta de leis causais. Como se pode ver numa das suas últimas obras, Examination of Sir William Hamilton's Philosophy (1865), o projecto de Mill pertence ao que viria mais tarde a ser baptizado como epistemologia naturalizada: a tentativa de compreender as operações mentais como o resultado da acção de leis conhecidas da psicologia sobre os dados da experiência.

Na ética, Mill é conhecido sobretudo pelas suas obras Utilitarianism (1861 na Fraser's Magazine, 1863 numa publicação separada, trad. Utilitarismo, 1976) e On Liberty (1859, trad. Ensaio sobre a Liberdade, 1964). Cada uma delas é um clássico do seu género, embora o Utilitarismo padeça de uma tensão vitoriana, pela sua combinação de hedonismo com distinções de qualidade entre os prazeres, bem como pela difícil mistura entre elementos de utilitarismo dos actos e utilitarismo das regras. Foi o principal alvo de todos os críticos do utilitarismo posteriores, e especialmente dos idealistas Green e Bradley. Da Liberdade é a defesa clássica do princípio da liberdade de pensamento e de discussão, argumentando que o "único fim pelo qual a humanidade está autorizada, individual ou colectivamente, a interferir na liberdade de acção de qualquer um dos seus é a sua própria protecção". Entre outras obras, Mill escreveu Principles of Political Economy (1848) e Subjection of Women (1861, publicado em 1869).

Simon Blackburn

Texto retirado de Dicionário de Filosofia (Lisboa: Gradiva, 1997).
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