Filosofia e análise no séc. XX
Desidério MurchoPrinceton, NJ: Princeton University Press, 2005, 2 vols., 411 + 479 pp.
Comprar: Vol. I, Vol. II
Scott Soames acaba de publicar dois volumes únicos de história da filosofia do séc. XX. Estes volumes abrangem alguns dos mais importantes filósofos, de Moore a Kripke, passando por Russell, Wittgenstein, os positivistas lógicos, Quine, Ryle, Strawson, Hare, Ross, Austin, Grice e Davidson, entre outros. Os dois volumes dão uma ênfase especial às áreas da filosofia da linguagem e da lógica filosófica, tocando em alguns aspectos associados de metafísica e epistemologia. As teorias éticas dos primórdios da filosofia analítica são igualmente discutidas (nomeadamente o emotivismo de Stevenson e Ayer, e o prescritivismo de Hare). Apesar das suas quase 900 páginas, os dois volumes não contemplam vários filósofos importantes, como Frege, Goodman, Putnam, Kuhn e Popper, deixando igualmente por tratar algumas áreas da filosofia, como a teoria do conhecimento, a filosofia da religião ou a filosofia da ciência. Estas lacunas são, contudo, bem-vindas, pois permitem um tratamento aprofundado das obras estudadas.
Scott Soames é um eminente filósofo de Princeton conhecido sobretudo pelo seu trabalho sobre teorias da verdade e sobre o problema da referência em filosofia da linguagem. Do seu ponto de vista, as duas mais importantes características da filosofia do período abrangido por estes volumes (sensivelmente de 1900 a 1975) são o reconhecimento de que a teorização filosófica "tem de estar fundada no pensamento pré-filosófico" e a "compreensão, e separação, das noções metodológicas fundamentais de consequência lógica, verdade lógica, verdade necessária e verdade a priori" (p. xi). No final do segundo volume, ao fazer o balanço, Soames acrescenta duas características importantes no desenvolvimento da filosofia: o regresso à tradição realista inaugurada por Russell e Moore, recusando os diferentes idealismos que marcaram a filosofia até meados do séc. XX; e a fragmentação da disciplina, um pouco como aconteceu com as ciências da natureza depois de Newton, produzindo-se cada vez mais resultados importantes extremamente sofisticados. Soames pensa que esta especialização progressiva exige que cada vez mais se apresente de forma clara e lúcida as ideias filosóficas mais importantes de modo a que leigos e especialistas de outras áreas possam acompanhar o que se está a fazer na disciplina — precisamente o mesmo que levou os cientistas a escrever livros de ciência para o grande público.
Não se pense, contudo, que este livro apresenta apenas uma visão geral da história da filosofia do séc. XX, com mais historietas do que filosofia. Pelo contrário, a abordagem do autor é simultaneamente muito pormenorizada e muito argumentativa: coloca o leitor em contacto com os problemas, teorias e argumentos centrais dos filósofos estudados, esmiuçando cuidadosamente as articulações e pormenores fundamentais, que são posteriormente discutidos de forma crítica. O objectivo é mostrar os becos sem saída e os avanços significativos da filosofia durante este período. Quem quiser conhecer parte importante da filosofia do séc. XX, assim como os aspectos centrais hoje discutidos, encontra nesta obra um guia inestimável.