Philosophical Analysis in the Twentieth Century Philosophical Analysis in the Twentieth Century
12 de Novembro de 2005 ⋅ História da filosofia

Filosofia e análise no séc. XX

Desidério Murcho
Philosophical Analysis in the Twentieth Century, de Scott Soames
Princeton, NJ: Princeton University Press, 2005, 2 vols., 411 + 479 pp.
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Scott Soames acaba de publicar dois volumes únicos de história da filosofia do séc. XX. Estes volumes abrangem alguns dos mais importantes filósofos, de Moore a Kripke, passando por Russell, Wittgenstein, os positivistas lógicos, Quine, Ryle, Strawson, Hare, Ross, Austin, Grice e Davidson, entre outros. Os dois volumes dão uma ênfase especial às áreas da filosofia da linguagem e da lógica filosófica, tocando em alguns aspectos associados de metafísica e epistemologia. As teorias éticas dos primórdios da filosofia analítica são igualmente discutidas (nomeadamente o emotivismo de Stevenson e Ayer, e o prescritivismo de Hare). Apesar das suas quase 900 páginas, os dois volumes não contemplam vários filósofos importantes, como Frege, Goodman, Putnam, Kuhn e Popper, deixando igualmente por tratar algumas áreas da filosofia, como a teoria do conhecimento, a filosofia da religião ou a filosofia da ciência. Estas lacunas são, contudo, bem-vindas, pois permitem um tratamento aprofundado das obras estudadas.

Scott Soames é um eminente filósofo de Princeton conhecido sobretudo pelo seu trabalho sobre teorias da verdade e sobre o problema da referência em filosofia da linguagem. Do seu ponto de vista, as duas mais importantes características da filosofia do período abrangido por estes volumes (sensivelmente de 1900 a 1975) são o reconhecimento de que a teorização filosófica "tem de estar fundada no pensamento pré-filosófico" e a "compreensão, e separação, das noções metodológicas fundamentais de consequência lógica, verdade lógica, verdade necessária e verdade a priori" (p. xi). No final do segundo volume, ao fazer o balanço, Soames acrescenta duas características importantes no desenvolvimento da filosofia: o regresso à tradição realista inaugurada por Russell e Moore, recusando os diferentes idealismos que marcaram a filosofia até meados do séc. XX; e a fragmentação da disciplina, um pouco como aconteceu com as ciências da natureza depois de Newton, produzindo-se cada vez mais resultados importantes extremamente sofisticados. Soames pensa que esta especialização progressiva exige que cada vez mais se apresente de forma clara e lúcida as ideias filosóficas mais importantes de modo a que leigos e especialistas de outras áreas possam acompanhar o que se está a fazer na disciplina — precisamente o mesmo que levou os cientistas a escrever livros de ciência para o grande público.

Não se pense, contudo, que este livro apresenta apenas uma visão geral da história da filosofia do séc. XX, com mais historietas do que filosofia. Pelo contrário, a abordagem do autor é simultaneamente muito pormenorizada e muito argumentativa: coloca o leitor em contacto com os problemas, teorias e argumentos centrais dos filósofos estudados, esmiuçando cuidadosamente as articulações e pormenores fundamentais, que são posteriormente discutidos de forma crítica. O objectivo é mostrar os becos sem saída e os avanços significativos da filosofia durante este período. Quem quiser conhecer parte importante da filosofia do séc. XX, assim como os aspectos centrais hoje discutidos, encontra nesta obra um guia inestimável.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (28 de Maio de 2005).
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