O Atiçador de Wittgenstein
21 de Julho de 2005 ⋅ História da filosofia

A origem do cosmos e a alma no Timeu

Leandro Anésio Coelho
Timeu, de Platão
Lisboa: Instituto Piaget, 2005, 160 pp.

A obra platônica Timeu é constituída de duas partes: a primeira funciona com um prólogo, na qual Timeu e Sócrates se colocam a relembrar a discussão do dia anterior. A segunda parte, muito mais extensa, é a exposição de Timeu sobre a origem do universo e do homem.

A primeira parte da obra é tomada pela recordação do dia anterior, quando tinham discutido um modelo de cidade perfeita. Nessa, existe a separação das classes, cada uma fazendo o que lhe é cabido; os guardiões se dedicam e se preparam para defender a integridade física da cidade, não recebendo bens desnecessários à sobrevivência; as mulheres com a mesma formação dos homens; os filhos são de todos, assegurando o caráter familiar na cidade e a responsabilidade de todos com as crianças; os bons cidadãos devem se unir e perpetuar a espécie, enquanto os maus não devem reproduzir. Tudo isso para o bem do futuro da cidade. Esse prólogo do Timeu, no qual Platão lembra a configuração da cidade perfeita, leva-nos a crer, assim como vários estudiosos do assunto, que a obra é uma continuidade da República, na qual ficou acertada as especificações da pólis boa.

Timeu nos fala da origem do universo e do homem e da necessária relação entre eles (arriscamo-nos a dizer influência de um sobre o outro). O discurso constituirá a ligação entre o indivíduo, a pólis e o universo. A origem do universo e do homem é um "mito verossímil", nos diz Platão (cf. 29d), e fica evidente no decorrer de toda a obra que, para Sócrates, sobre tal assunto só podemos alcançar o que é provável, conciliando necessidade com probabilidade (cf. 53d).

Ainda no início do diálogo, Crítias relata uma longa história de Solão sobre a origem do universo. Justifica-se tal passagem pelo fato de Sócrates ter sido acusado de buscar muito na cultura egípcia. Com Crítias e o relato sobre Solão, o ateniense pretende reforçar os laços da discussão com a Grécia. Logo em seguida, Crítias propõe uma organização para a discussão: vai falar Timeu, que é entendido em astronomia, para expor sobre "o nascimento do mundo, para terminar com a natureza do homem" (cf. 27a).

Timeu inicia deixando claro o que pretende tratar no seu momento de fala. De início, faz a distinção entre ciência (episteme) e opinião (dóxa). A primeira pertence ao reino das Idéias eternas e a segunda está no que é sensível, visível. Além de distinguir a ciência da dóxa, Timeu aponta que tudo o que nasce provém necessariamente de uma causa, pois nada pode originar-se sem causa; em 28a-b, tudo o que é feito tendo como modelo o eterno é belo, já o que tem por modelo o sensível, jamais poderá ser belo. Essas são premissas que farão desenvolver o diálogo.

Pode-se dizer que a discussão daquele dia inicia-se com a fala de Timeu (27c). O primeiro ponto fundamental da fala do discípulo de Sócrates, a distinção do que é inteligível e sensível, tornará necessário resolver um problema. Se é belo o que é produzido com base no modelo eterno e o sensível é nada mais do que cópia do inteligível, como se relacionam essas duas esferas, sensível e inteligível?

A solução para o problema aparece com o Demiurgo, dito por Sócrates no Anaxágoras uma inteligência ordenadora, aquele que produz contemplando um modelo perfeito e coloca na cópia (sensível) as virtudes daquele modelo. É a Teoria das Idéias, muito presente em Platão e forma através da qual ele explica a natureza do mundo e a totalidade das coisas sensíveis, produzidas com base em um modelo e paradigma eterno. As Idéias existem nelas mesmas e não dependem do Demiurgo.

Surge no discurso de Timeu a necessidade de se falar de um terceiro elemento, o receptáculo. Se o sensível é cópia do inteligível e não é igual a esse, então tem que haver uma diferença; essa diferença não pode estar no inteligível, naquilo que é modelo eterno e imutável. O sensível se difere por aparecer num receptáculo sobre o qual é cunhado com vistas ao inteligível, é aquilo que futuramente Aristóteles chamaria de matéria e em Platão aparece em estado de incessante agitação.

Depois de fazer a distinção necessária entre inteligível e sensível (Teoria das Idéias), de mostrar a atuação do Demiurgo favorável à relação dessas duas esferas e falar do receptáculo como aquilo que há de diferente no sensível, Timeu discute a natureza do mundo (sua alma e seu corpo).

A alma do mundo é constituída de três elementos (cf. 35a) nos quais é reunido o divisível. O Demiurgo obtém o estado intermediário de cada um desses elementos e, misturados, compõem a alma do mundo.

Caracterizando-a, Timeu diz que a alma do mundo tem como papel dar movimento ao universo, pois ela é princípio de todo movimento. Mas o mundo não é dotado só de alma, bem como de corpo. A constituição deste é terra, fogo, ar e água. Por ser visível, o mundo tem como constituição no seu corpo o fogo, que é o mesmo que luz, que lhe permite ser visível. Mas também é tangível, o que acrescenta a sua constituição o elemento terra. Para ser sólido e para ligar esses dois elementos iniciais, o mundo teve de ter na constituição do seu corpo outros dois elementos, ar e água. Assim Timeu explica como é o corpo do mundo, restando entender a sua forma.

Quanto à forma, concedeu-lhe a mais conveniente e natural. Ora, a forma mais conveniente ao animal que deveria conter em si mesmo todos os seres vivos, só poderia ser a que abrangesse todas as formas existentes. Por isso, ele torneou o mundo em forma de esfera, por estarem todas as suas extremidades a igual distância do centro, a mais perfeita das formas e mais semelhante a si mesma, por acreditar que o semelhante é mil vezes mais belo do que o dissemelhante. (p. 33b)

A forma esférica do mundo concede-lhe a idéia de perfeição, de harmonia e uniformidade.

Após descrever o mundo, Timeu fará o mesmo com o homem, algo que já havia sido acertado com Crítias no início do diálogo, de que Timeu falaria da natureza do mundo e do homem (27a).

O homem é o microcosmo que se assemelha ao mundo (macrocosmo). Assim como esse, o homem possui corpo e alma: na alma está o que é divino e no corpo o que é mortal. Diferença muito importante nesta comparação é que o corpo do mundo não é perecível, enquanto o do homem é.

Na constituição da alma do homem o Demiurgo usa os mesmo elementos que na constituição da alma do mundo, na mesma proporção, só que em menor grau de pureza. Desta forma, a alma do mundo e a do homem possuem a mesma possibilidade de conhecimento do inteligível e sensível.

No Timeu tem-se a reafirmação da tripartição da alma do homem em racional, irascível e apetitiva, da forma como ocorre na República.

Diversos trechos de Timeu preocupam-se não com a alma, mas com a formação do corpo do homem. O discípulo é meticuloso na descrição da formação do corpo e da função de cada parte. A medula é o elemento primordial e aquele que liga alma e corpo. É produzida pela divindade com triângulos regulares dos quatro elementos do corpo do mundo (terra, fogo, ar e água) na medida certa. Desta mistura também são produzidos cérebro, ossos, tendões, carne, pele, cabelos e unhas. Timeu também faz a relação de vários órgãos com suas funções que aqui não descrevemos por ser extensa e dispensável ao problema que queremos expor.

Dado os problemas enfrentados com o corpo, entenda aqui as doenças, Timeu exalta ser menos sofrível ter uma vida curta. Condena também o uso de medicamentos, a não ser em caso de grandes perigos, porque esses irritam as doenças. Sobre os males do corpo, diz Timeu:

De onde vêm as doenças é o que, sem dúvida, todos compreenderão facilmente. Sendo quatro os gêneros que entram na composição do corpo: terra, fogo, água e ar, sempre que contrariamente à natureza há carência ou excesso desses elementos ou mudança da sede própria para um lugar estranho, ou então, visto haver mais de uma variedade de fogo e dos outros elementos, quando predomina nalguma parte do corpo uma variedade que não lhe é adequada, ou por outra causa do mesmo tipo, surgem as desordens e as doenças. Quando um desses elementos altera sua natureza ou muda de lugar aquecem-se as partes que antes eram frias, e as secas adquirem umidade, a mesma coisa acontecendo com as leves e pesadas, do que resulta sofrerem todas elas profundas alterações em todos os sentidos. A única maneira, é o que afirmamos, de alguma parte do organismo ficar idêntica a si mesma, sadia e com boa aparência, é ajuntar-se-lhe ou sair dela a mesma coisa, de modo uniforme e na devida proporção. O que viola uma dessas regras, ou porque se retire de um daqueles elementos ou porque nele penetre, provoca toda espécie de alterações, doenças e corrupções. (p. 81e)

Muito mais que reafirmar a Teoria das Idéias de Platão, Timeu discute a natureza tanto do universo (macrocosmo) como do homem (microcosmo) e da relação de um com o outro. Trata-se de perceber a existência de um terceiro elemento além desses dois maiores, o receptáculo, no qual é cunhado o sensível pelo Demiurgo com vistas no inteligível. Cabe ao Demiurgo transmitir para o receptáculo não só as formas do inteligível, mas também as virtudes. Daí o papel desinteressado, nobre e divino do Demiurgo, fazendo uma espécie de ponte entre as duas extremidades, entre o sensível e o inteligível.

No mais, Timeu apresenta o universo como algo sensível, causado e belo, cunhado sob o paradigma eterno e invisível, o inteligível.

Leandro Anésio Coelho
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