Contemporary Philosophy
1 de Janeiro de 2005 ⋅ História da filosofia

Filosofia de língua inglesa

Desidério Murcho
Contemporary Philosophy: Philosophy in English Since 1945, de Thomas Baldwin
Oxford: Oxford University Press, 2001, 304 pp., £14.99
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Estamos perante uma história da filosofia contemporânea de língua inglesa útil para professores, estudantes e público em geral interessado em saber o que andaram os filósofos a fazer nos últimos 50 anos — ideal, portanto, para fazer repensar, pela força do exemplo, a ideia de que a filosofia morreu. Não estamos perante uma história da filosofia superficial, que se limite a mencionar de longe as ideias mais gerais dos filósofos do período abrangido, relacionando-as com o contexto histórico, social, político, etc. Trata-se antes de uma história filosófica da filosofia, isto é, uma história da filosofia em que o autor apresenta com algum pormenor as ideias dos filósofos e o modo como elas têm sido discutidas, expondo os seus pontos fracos e denunciando as suas imprecisões. Na realidade, uma das características salientes das melhores tradições filosóficas é precisamente o facto de os seus praticantes exercerem plenamente a sua liberdade de pensar, criticando as ideias dos colegas e dos seus antecessores, procurando refutar teorias, corrigir argumentos e eliminar confusões.

Uma das características que marca a evolução da filosofia no séc. XX é a atitude perante a linguagem e o seu lugar na filosofia. Numa primeira fase da chamada "filosofia analítica", a linguagem surge como a "água de alcatrão" cujo esclarecimento permitirá resolver definitivamente os problemas da filosofia. A Teoria das Descrições Definidas de Russell era o paradigma da análise filosófica. Este estado de graça, contudo, não iria durar muito tempo. Precisamente porque na filosofia analítica o espírito crítico é cultivado no seu mais elevado grau, os filósofos da geração posterior avaliaram criticamente a Teoria das Descrições de Russell. Foi o que fez Strawson e o seu artigo "On Referring" (Mind, 59, 1950) marca o início da segunda fase da filosofia analítica.

Nesta segunda fase, apesar de a linguagem continuar a ocupar um lugar de destaque, começa a emergir a ideia de que esta é muito mais complexa, subtil e vaga do que sugeriam as análises da primeira metade do século. É este espírito que está presente nas Investigações Filosóficas, de Wittgenstein, no referido Strawson, e no chamado "movimento de Oxford", a filosofia da linguagem corrente, movimento comandado por Ryle e Austin.

É a partir dos anos 70 que a filosofia analítica se liberta resolutamente da "viragem linguística", como Rorty lhe chamou, atingindo a sua maturidade e passando a enfrentar directamente os problemas tradicionais da filosofia, de modo que hoje, nos meios analíticos, "muitos filósofos contemporâneos repudiam a concepção de filosofia característica da viragem linguística, e adoptam a perspectiva de que a melhor concepção de filosofia é a que a vê como a compreensão reflectida das implicações do nosso conhecimento de nós mesmos e do mundo" (pág. 11).

Esta nova atitude deu à filosofia um novo ímpeto, de modo que Baldwin sentiu necessidade de restringir a sua história da filosofia, excluindo a ética, a filosofia da arte e da religião, e grande parte dos debates da epistemologia, da filosofia política e da metafísica. Quem quiser conhecer uma parte importante da dialéctica da discussão filosófica actual e do passado recente tem neste pequeno livro de bolso um excelente ponto de partida.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Originalmente publicado no jornal Público (26 de Junho de 2004)
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