Nova História da Filosofia Ocidental: Filosofia Antiga
24 de Setembro de 2008 ⋅ História da filosofia

Grécia revisitada

Desidério Murcho
Nova História da Filosofia Ocidental, Vol. 1: Filosofia Antiga, de Sir Anthony Kenny
Tradução de Pedro Galvão e Fátima Carmo
Revisão de Aires Almeida
Lisboa: Gradiva 2010, 360 pp.
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Este é o primeiro volume, dedicado à filosofia antiga, da nova história da filosofia da Oxford em quatro volumes, publicada pela Loyola no Brasil, e agora pela Gradiva, em Portugal. A Gradiva anuncia para breve o segundo volume; os restantes dois ainda não estão publicados. O livro é excelente, inovador, maximamente informativo e de leitura agradável. Sendo escrito por um único historiador e filósofo, oferece uma unidade que outras histórias da filosofia não têm. E tem a dimensão adequada para ser simultaneamente pormenorizado e geral, de modo a atingir dois tipos de públicos: os estudantes e o grande público. Sem notas eruditas infinitas, que afastam o leitor comum, mas com todas as referências históricas necessárias, é uma leitura, imagine-se, empolgante. Isso deve-se ao domínio que o autor tem das ideias filosóficas, que as torna vivas, revelando de forma magistral a sua importância e dramatismo.

Este volume é inovador em vários aspectos, dos quais destaco dois. Em primeiro lugar, pela abrangência. É infelizmente comum reduzir a filosofia antiga aos pré-socráticos, Platão e Aristóteles, ignorando a filosofia helenística. Este volume, porém, apresenta com algum pormenor as ideias centrais de todas as escolas filosóficas gregas contemporâneas e posteriores a Aristóteles: epicurismo, estoicismo e cepticismo, assim como Lucrécio, Cícero, as ideias judaicas e cristãs, Plotino e Santo Agostinho. Oferece-se assim uma visão saudavelmente abrangente da filosofia antiga.

Em segundo lugar, porque o autor decidiu dividir o volume em duas partes. Na primeira parte (dois capítulos), que corresponde a cerca de um terço do livro, percorre-se a história da filosofia dos pré-socráticos a Agostinho. Abordam-se assim as grandes ideias, as continuidades e rupturas, o contexto histórico e social. Na segunda parte (sete capítulos), abordam-se mais em pormenor os desenvolvimentos das diferentes disciplinas da filosofia, incluindo a lógica, a teoria do conhecimento, a física, a metafísica, a teoria do espírito e da alma, a ética e Deus. Deste modo, assiste-se mais de perto ao desenvolvimento das diferentes disciplinas da filosofia. Porque nesta parte o autor desce ao pormenor importante, é uma obra de referência imprescindível para todo o professor e estudante de filosofia.

A continuar com esta qualidade, os quatro volumes desta história da filosofia serão de leitura obrigatória para todo o estudante e professor de filosofia, e uma obra de consulta e leitura integral fascinante para o grande público. Dada a elegância da escrita e a precisão filosófica e histórica do autor, é de leitura agradável e tranquila. O autor explica que uma das justificações para escrever uma história da filosofia sozinho (coisa que é muitas vezes deixado a vários autores, especialistas em diferentes períodos e autores) é o facto de ter publicado livros e artigos influentes sobre filósofos dos quatro períodos históricos: Aristóteles, Tomás de Aquino, Descartes, Frege e Wittgenstein. O quarto volume abrange a filosofia até ao ano 2000, o que será uma vez mais inovador, dado que as histórias da filosofia costumam ignorar os últimos quarenta anos do séc. XX.

A escrita é encantadora, a capacidade para explicar de forma simples ideias e argumentos complicados é um milagre. O livro tem ainda um conjunto de ilustrações a preto e branco, o que o torna um objecto atraente esteticamente — os bibliófilos vão chamar-lhe um figo.

Desidério Murcho
Versão original publicada no jornal Público (16 de Abril de 2005)
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