Breve História da Filosofia Moderna Breve História da Filosofia Moderna
3 de Fevereiro de 2010 ⋅ Filosofia

História da filosofia e história das ideias

Roger Scruton
Tradução de Desidério Murcho

Uma abordagem das obras de filósofos históricos sem a aquisição de alguma competência filosófica independente conduz a equívocos. Uma abordagem puramente “histórica” tanto representa mal a filosofia de Descartes ou Leibniz como as peças de Shakespeare ou a poesia de Dante. Compreender o pensamento destes filósofos é enfrentar os problemas que eles visavam, problemas que habitualmente ainda são objecto de investigação filosófica, tanto quanto no seu tempo. Parece quase uma condição prévia para entrar no pensamento dos filósofos tradicionais que não se encare as questões que discutiam como “fechadas,” nem os seus resultados como ultrapassados. Na exacta medida em que os encararmos desse modo, estaremos a eliminá-los de qualquer lugar central na história da disciplina. (Tal como um poeta sai do corpus da nossa literatura na medida em que as suas preocupações parecem meramente pessoais.) Se seguirmos esta ideia, cedo chegamos à conclusão de que dois filósofos podem chegar a resultados similares, mas apresentá-los de maneira tão diferente que merecem o mesmo lugar na história filosófica. É o que acontece com Guilherme de Ockham e Hume, com Hegel e Sartre. Deparar-nos-emos repetidamente com este fenómeno nas páginas seguintes.

Estamos agora em posição de fazer uma distinção preliminar de grande importância, a distinção entre a história da filosofia e a “história das ideias.” Uma ideia pode ter uma história complexa e interessante, mesmo que seja óbvio para todos os filósofos que não tem qualquer poder persuasivo. (Considere-se a ideia de que há mais de um Deus.) Do mesmo modo, uma ideia pode ter um conteúdo filosófico sério, mas dever a sua influência não à sua verdade, mas ao desejo de acreditarmos nela. (Considere-se a ideia de redenção.) Para fazer parte da história da filosofia uma ideia tem de ter importância filosófica intrínseca, tem de ser capaz de despertar o espírito investigativo numa pessoa dos nossos dias, e de se apresentar como algo que poderia ser argumentável e até verdadeiro. Para ser parte da história das ideias só tem de ter influência histórica nos assuntos humanos. A história da filosofia tem de considerar uma ideia em relação aos argumentos que a suportam, e perde o rumo se for dada demasiada atenção às suas manifestações mais vulgares, ou às suas origens em concepções que não têm qualquer valor filosófico. É certamente correcto que o historiador da filosofia estude a ética de Kant, e ignore “A Servidão da Vontade”, de Lutero, apesar de que, do ponto de vista histórico, a primeira não teria sido possível se a segunda não tivesse sido escrita. Ao conceder estes aspectos, concedemos também que o melhor método na história filosófica pode entrar em conflito com a prática do historiador das ideias. Pode ser necessário ao filósofo extrair uma ideia do contexto em que foi concebida, reformulá-la em linguagem directa e acessível, simplesmente para fazer uma estimativa da sua verdade. A história da filosofia torna-se então uma disciplina filosófica e não histórica.

Se o historiador da filosofia estuda influências, serão consequentemente as influências que derivam não do poder de atracção emocional ou prático, mas da cogência das ideias. Assim, a influência de Hume e Kant será do maior interesse filosófico, ao passo que a influência de Voltaire ou Diderot será relativamente pequena. Para o historiador das ideias, estes quatro pensadores pertencem ao grande movimento a que se chama “iluminismo,” e nos assuntos humanos, onde o que conta não é a cogência mas a força motivadora, a sua influência está inextrincavelmente misturada.

Pode acontecer um historiador das ideias e um historiador da filosofia estudarem os mesmos pensamentos; mas fá-lo-ão com interesses conflituantes, exigindo diferentes competências intelectuais. A influência histórica do Contrato Social de Rousseau foi enorme. Para estudar essa influência não se exige melhor compreensão filosófica do documento do que tinham aqueles através dos quais a sua influência mais se fez sentir — homens e mulheres de letras, soberanos iluminados, agitadores populares. A questão do seu interesse filosófico, contudo, é independente desta e, para abordar o documento do ponto de vista filosófico é preciso compreender e apresentar as suas conclusões com a melhor intenção de determinar a sua verdade. Para ser capaz de o fazer será preciso ter capacidades de um tipo diferente das capacidades das pessoas que mais fortemente foram influenciadas pela doutrina. Pode-se na verdade chegar à conclusão (não neste caso, mas certamente no caso de Os Direitos do Homem, de Tom Paine) que uma obra filosófica de imensa importância histórica não tem qualquer lugar significativo na história da filosofia.

Roger Scruton
Tradução de Desidério Murcho
Retirado de A Short History of Modern Philosophy, de Roger Scruton (Londres: Routledge, 2001). Existe uma edição brasileira da obra e outra portuguesa.
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